Crítica | A Casa do Lago: o filme do argentino Alejandro Agresti continua encantador: tem atmosfera romântica e um toque poético

Cena do filme A Casa do Lago
A Casa do Lago: filme dirigido por Alejandro Agresti

PRODUÇÃO AMERICANA, DIRETOR ARGENTINO E ENREDO ORIENTAL

A Casa do Lago, filme de 2006 dirigido pelo argentino Alejandro Agresti, está longe de ser uma daquelas produções românticas, com apelos fáceis e clichês em série, feitas para agradar apenas ao público ávido por histórias açucaradas. O filme tem conteúdo denso, personagens expostos em profundidade, senso de ritmo, uma atmosfera envolvente e muito charme. Ou seja: é cinema de qualidade.

O par está mais... romântico!

        Quando assisti ao filme, ainda associava o par Keanu Reeves e Sandra Bullock aos filmes de ação rasos, repletos de tiros, bombas e ônibus fora de controle. Aqui, ao contrário, eles assumiram um tom contido, sem as idiossincrasias que eventualmente contaminam as estrelas de Hollywood. Foram dirigidos com segurança por um cineasta que compreendeu os pontos fortes da história e se concentrou neles. Evitou os caminhos óbvios das comédias românticas e buscou uma coloração mais dramática para o filme, sem perder a sensibilidade poética.

Cena do filme A Casa do Lago
A Casa do Lago: Alejandro Agresti fugiu dos clicês das comédias românticas

Separados por estranhas circunstâncias

        Alejandro Agresti deu maior destaque ao personagem mais importante do filme: a solidão! Os protagonistas Kate e Alex vivem para suas profissões, estão cercados de todos os recursos e não fazem ideia de como conseguirão preencher o vazio que ocupa a maior parte de suas vidas. O encontro dos dois é inevitável – e faz todo o sentido para o espectador. Se ele não acontece de imediato é por causa de uma estranha circunstância que não pode – e nem precisa – ser explicada.

Assistir ao envolvimento dos dois é um prazer

        Como vencerão os obstáculos para que finalmente terminem juntos? Que complicações poderão decorrer de uma situação tão estranha? Enquanto as respostas não vêm, o espectador é apresentado a Kate e Alex, suas personalidades, seus caráteres e seus valores; assiste com prazer ao envolvimento dos dois e vê surgir um relacionamento sólido, que cresce em intensidade, vira paixão e depois se embriaga de amor romântico.

Cena do filme A Casa do Lago
A Casa do Lago:a matéria-prima do filme é a solidão

Fantasia e solidão: ideias motoras

        Em A Casa do Lago, a vida é feita de encontros e desencontros. Alejandro Agresti não deixa que o elemento inusitado, que funciona como ideia motora do filme, ponha seus personagens fora de sintonia com a realidade; ao contrário, é a vida real que está no comando. As decisões tomadas pelos personagens são pragmáticas, motivadas por seus desejos e decorrentes de fatores que fogem do seu controle.

Cinema com sensibilidade e apuro técnico

        No desenrolar dos acontecimentos, o diretor sabe manter o espectador a uma distância correta; maior e mais respeitosa em grande parte das cenas; mais perto quando quer explorar os personagens e seus sentimentos. Sua câmera é calma nos movimentos e madura nos enquadramentos. A fotografia em cores frias revela uma certa tristeza que existe nos amores que florescem por correspondência. Nada de e-mails ou mensagens via aplicativos, o que governa a narrativa são as antiquadas cartas trocadas entre Kate e Alex; um toque poético que faz muito bem ao filme.

Cena do filme A Casa do Lago
A Casa do Lago: a tristeza dos amores que florescem por correspóndência

Remake de um filme sul-coreano

        O lirismo também está presente na produção original, intitulada Il mare (Siworae), realizada em 2000 pela direção de Lee Hyun-seung. Sim! Eis aí uma informação que também me pegou de surpresa: A Casa do Lago é um remake de um filme sul-coreano. Inclusive, uma das roteiristas do filme original colaborou com a equipe de David Aubum, que assinou o roteiro final da produção americana.

Final sintonizado com Hollywood

       Saber desse antecedente oriental me encheu de curiosidade. É que embora o diretor argentino tenha conseguido impor um estilo autoral, ficou claro que precisou abrir concessões na cena final – o final feliz padrão de qualquer produção romântica de Hollywood. Cheguei a comentar com minha mulher que, se o filme fosse europeu, o casal dificilmente se encontraria para o abraço final. Ela concordou comigo e também ficou interessada em assistir ao filme sul-coreano, para ver se o final é o mesmo. Ah! E se alguém aí souber, nada de spoilers!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção sensível e poética de Aejandro Agresti, a atuação do par romântico Keanu Reeves e Sandra Bulllock e o tratamento visual elegante e sofisticado.

O que surpreende: a sabedoria em fugir do tom displicente das comédias românticas para alcançar os personagens em maor profundidade emocional.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme A Casa do Lago

Título original: The Lake House
Ano de produção: 2006
Direção: Alejandro Agresti
Roteiro: David Aubum

Elenco:
  • Keanu Reeves
  • Sandra Bullock
  • Christopher Plummer
  • Ebon Moss-Bachrach
  • Shohreh Aghdashloo
  • Willeke van Ammelrooy
  • Lynn Collins
  • Dylan Walsh
  • Mike Bacarella
  • Cynthia Kaye McWilliams
  • Nora Newbrough
  • Jason Wells
  • Scott Elias

Comentários

  1. Assim como sua mulher, não é a primeira vez que assisto a esse filme. A primeira vez que o vi foi no cinema, já que tinha ganhado 2 ingressos na antiga revista da MTV. Eu também sou cinéfilo e sempre pratico o exercício de não pré-julgar os filmes ou categorias de filmes. Tem muita coisa boa escondida sob o rótulo de "comédia romântica", assim como existem toneladas de filmes de ação para cada "Die Hard" ou lixos de terror pra cada "Hereditário". Ah, e você esqueceu de mencionar o subtexto do livro "Perduasão", de Jane Austen, que perpassa a história. Nessa pandemia li o livro antes de rever o filme e foi muito prazeroso.

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    1. Claro, Markantonio! Você tem razão, o romance Persuasão deveria ter sido citado, pois inclusive tem papel importante na própria narrativa. Ainda bem que você comentou! Bem, também tento evitar os pré-julgamentos, mas com tantas opções de filmes disponíveis hoje em dia, é preciso ter algum critério. E às vezes, sozinho e com o controle remoto na mão, você acaba julgando o livro pela capa. Por isso é sempre bom trocar ideias com quem gosta de cinema de qualidade! Estou gostando de fazer isso por meio do blog e das redes sociais. Um abração!

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  2. Gostosa leitura, seu ponto de vista é contundente. Origado mais uma vez por nos conduzir por mais um filme.

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    1. Valeu, Erivaldo! Que bom que gostou! O cinema é um tema inspirador e sempre oferece grandes oportunidades para comentar e discutir. Um abração!

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  3. Fabio Belik, como sabe, sou fã da sua escrita e essa crônica é mais uma de suas boas peças. Peço licença para anotar que o estilo da personagem de Christopher Plummer e da obra que ele apresenta no filme, inclusive a belíssima casa de vidro e os comentários dos filhos sobre ela, me remetem ao arquiteto ícone Frank Lloyd Wright. Não seria surpresa para mim que tivesse sido ele a inspiração da personagem.

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    1. Ah, Peixoto, com certeza deve haver algo nesse sentido. O arquiteto influenciou demais os americanos. Mas não conheço o tema para poder afirmar alguma coisa. É um tema que vale a pena pesquisar.

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  4. Também não vi o filme coreano e fiquei curiosa. Já este, vi várias vezes, adoro filmes com temáticas sobre realidades paralelas.

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    1. Ah, essa temática nos consegue envolver em curiosidade e expectativa. Também gosto muito.

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  5. Bela análise!! Amo este filme!

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