Crítica | Fahrenheit 451: esta adaptação pedante é uma anomalia na filmografia de François Truffaut

Cena do filme Fahrenheit 451
Fharenheit 451: filme dirigido por François Truffaut

AUTORITARISMO NO CONTROLE DA INFORMAÇÃO

Dos audaciosos gregos – e antes deles! – até os dias de hoje, quantas conquistas se sobrepuseram umas às outras? Incontáveis! A civilização ocidental é uma síntese dessa trajetória incrível, que pode ser examinada em detalhes por meio dos nossos livros. Antes de Gutemberg, eles eram copiados a mão; hoje, existem em suportes digitais, mas não vejo garantias de que estejam a salvo. De tempos em tempos surgem os tais revolucionários, ávidos por fazer tábula rasa de tudo o que sabemos – querem fazer como os romanos, que derretiam a cera nas tábuas que usavam para escrever e depois as raspavam, para ter novas tábuas em branco. Os interessados em tomar o poder e impor projetos totalitários, precisam reescrever a história; para isso, tentam acabar com os livros. No filme Fahrenheit 451, dirigido em 1966 por François Truffaut, eles levaram essa ideia longe demais!

Uma distopia perturbadora

        Os nazistas e os fascistas fizeram isso literalmente: queimaram livros, felizmente numa escala menor do que a imaginada por Ray Bradbury em seu romance Fahrenheit 451. Publicado em 1953, o livro serviu de base para o roteiro filmado pelo cineasta francês. O enredo é perturbador! Num mundo futurista, a realidade é invertida: bombeiros incendiários queimam livros em vez de combater o fogo, enquanto as pessoas perdem tempo hipnotizadas diante da TV.  Quando li o romance, ainda na adolescência, lembro de ter pensado que tal ousadia seria improvável; o livro jamais desaparecerá! Além do mais, como poderia ser substituído pela televisão, um meio tão desprovido de profundidade?

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Cena do filme Fahrenheit 451
Fahrenheit 451 - bombeiros queimando livros

Equalizando pensamentos

        É preciso lembrar que a tela de TV à qual Ray Bradbury se refere no livro, não é aquela que todos nós trazemos como referência; guarda poucas semelhanças com as telas de computadores, tablets, celulares e smartTVs que estão acessíveis atualmente. O autor imaginou aquela televisão que conhecia lá metade do século passado, sem interatividade e facilmente controlada pelo estado. Um aparelho ideal para doutrinar e imbecilizar. Uma televisão voltada para as massas, que tinha apenas a intenção de homogeneizar pensamentos.

A sinopse: a solução está na fuga

        François Truffaut transformou essa ideia ameaçadora numa realidade plausível. Em Fahrenheit 451 seus bombeiros queimavam livros ao som de Bernard Herrmann, o mestre das trilhas sonoras. O filme nos conta a história de Montag (Oskar Werner), um bombeiro responsável e dedicado ao seu trabalho de atender denúncias e dar fim nos livros que encontra. Ele foi instruído para acreditar que esses objetos perigosos, dentro de suas lindas capas coloridas, escondem ideias perigosas, que trazem infelicidade e prejudicam a produtividade dos trabalhadores.

Cena do filme Fahrenheit 451
Fahrenheit 451: os livros substituídos por uma TV imbecilizante

        Tudo muda para Montag quando ele conhece Clarisse (Julie Christie), uma estranha que o incentiva a examinar o conteúdo dos livros que vai queimar. Diante da mudança de comportamento, a mulher de Montag, que vive grudada na TV e anestesiada por pílulas, o denuncia e ele precisa fugir. Escapa para o mundo clandestino dos leitores.

Mais drama do ficção científica

        Em Fahrenheit 451, a redenção vem por meio dos personagens que se dedicam a ler e decorar os livros. Tornam-se pessoas-livro, que tomam para si a tarefa de preservar o conteúdo, para reeditá-lo tão logo seja possível. Ainda que tragam alguma esperança de que as conquistas da civilização ocidental possam ser heroicamente preservadas, ver os pobres infelizes a recitar livros inteiros é de uma tristeza profunda. O que temos aqui, entretanto, é ficção científica de qualidade, mas não espere um filme de ação mirabolante – aliás, tentaram essa tolice num remake hollywoodiano de 2018, mas esqueceram de vasculhar o que se passa no universo interno dos personagens, que mais pareciam livros repletos de páginas em branco!

Cena do filme Fahrenheit 451
Fahrenheit 451: Julie Christie e Oscar Werner sob a direção elegante de François Truffaut

Um filme denso e intimista

        Ainda prefiro essa elegante – e um tanto pedante – adaptação de François Truffaut. Ele foi um dos principais nomes da Nouvelle Vague francesa e aqui ousou o seu primeiro  e único  filme falado em inglês. É verdade que o diretor não está verdadeiramente interessado em fazer ficção científica e abre pouco espaço no seu filme para a tecnologia futurista. Ele também fez alterações em relação ao romance original, especialmente no personagem de Clarisse, de modo a ter um final mais esperançoso. Aliás, a atriz Julie Christie interpreta tanto Clarisse como a mulher de Montag, seu exato oposto. Isso cria uma curiosa dicotomia entre a alienação e o engajamento. Ficção científica é assim mesmo: cria outra realidade, minuciosa e intrincada. Entretanto, como nos mostra Truffaut, ela não é território exclusivo dos filmes de ação; nela há espaço para os dramas intimistas. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção elegante de François Truffaut, o ótimo trabalho dos atores e a trilha sonora de Bernard Herrmann.

O que decepciona: ao desprezar solenemente os elementos de ficção científica, Truffaut perdeu a oportunidade de reforçar o caráter de advertência da obra e a deixou inevitavelmente datada.

Vale a pena. É cinema refinado e proveitoso.

Ficha técnica do filme Fahrenheit 451

Data de produção: 1966
Direção: François Truffaut
Roteiro:
  • François Truffaut
  • Jean-Louis Richard
  • David Rudkin
  • Helen Scott
Elenco:
  • Oskar Werner
  • Julie Christie
  • Cyril Cusack
  • Anton Diffring
  • Jeremy Spenser
  • Bee Duffell
  • Alex Scott
  • Gillian Lewis

Comentários

  1. Um dos filmes mais impactantes da minha vida de adolescente,quase adulta!

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    1. Lembro de ter assistido a esse filme na TV. Foi perturbador. Era adolescente e na época havia esse conceito de que a mídia eletrônica emburrecedora estava tirando espaço da literatura. Que no futuro não teríamos livros. Que a linguagem escrita cairia em desuso!

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  2. Clint Anderson Eliot06/03/2025, 11:32

    Eu achei o livro muito superior ao filme. Li vários de Ray Bradbury e considero esse o seu melhor. Essa adaptação para filme me pareceu mediana e com alguns méritos. Há alguns detalhes que me pareceram inadequados. Numa cena um personagem usa um telefone de DISCAR de um tipo hoje totalmente fora de uso. Em outra cena durante a incineração de livros a câmera mostra em close a capa de um livro de bolso humorístico publicado pela revista MAD -sendo queimado ( cena que ocorre aos 1h 35m 52s). Eu como sou fã da extinta revista MAD e coleciono seus livros ate hoje o reconheci de imediato. Eu o tenho em minha coleção. Chama-se "Mad Grease Stuff". Como você mesmo disse -o filme alterou muitas coisas do livro. O "cão robô" programado para matar fugitivos da lei-descrito no livro- não é mostrado no filme. Ray Bradbury nesse livro da muita ênfase ao lado religioso tanto que alguns personagens "decoradores de livros" combinam em dividir entre eles a tarefa de decorar a bíblia ficando cada um com a tarefa de memorizar um dos livros da mesma e portanto adotar como próprio nome do livro bíblico que memorizou- de gênesis até ao apocalipse. Guy Montague- o protagonista se junta a a eles e opta por decorar o livro bíblico ECLESIASTES e por isso passa a ser chamado por esse nome pelos demais colaboradores. NADA DISSO é sequer mencionado no filme. Acho que Truffault era ateu ou agnóstico e por isso preferiu descartar qualquer vestígio de cultura judaico-cristã presentes no livro em sua adaptação. No filme um dos "decoradores" afirma ter memorizado um livro famoso de Bradbury (se não me engano "Crônicas Marcianas"). Bradbury NÃO fez essa homenagem a si mesmo no seu trabalho. Essa "gracinha" foi feita por Truffaut para homenagear o autor. É um filme com alguns méritos -mas eu penso que é um tanto super valorizado por muitos que não analisaram com a devida atenção e acham que se foi feito por Truffaut só pode ser uma obra prima. Obrigado !

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    Respostas
    1. Está adaptando de Truffaut descartou as passagens tecnológicas, por questões orçamentárias e também por inclinações pessoais do diretor. Para a maioria dos seus fãs, este ė um filme menor entre todos os que realizou.

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    2. Corrigindo: esta adaptação de Truffaut...

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