Crítica | Ray: narrativa afiada e talento legítimo, num dos melhores musicais já realizados

Cena do filme Ray
Ray: filme dirigido por Taylor Hackford

UM GÊNIO DA MÚSICA INTERPRETADO POR UM BOM MÚSICO

Poucos artistas no mundo da música ganharam uma cinebiografia tão bela e bem realizada quanto Ray Charles. O responsável por tamanho atrevimento foi Taylor Hackford, diretor que já trazia no currículo filmes como Advogado do Diabo e Prova de Vida. Em 2004 ele escreveu, produziu e dirigiu o filme Ray, onde dramatiza a vida e a carreira do astro da soul music com notável sensibilidade artística e competência técnica. Hackford precisou lutar por 15 anos até conseguir financiamento para o seu projeto, já que todos os estúdios se recusaram a fazê-lo. A ideia parecia mais talhada para a televisão e a indústria achava difícil fazê-lo chegar às telas dos cinemas.

Miscigenação na música

        Acredito que, se enxergasse, Ray Charles tocaria do mesmo jeito. Sua cegueira era irrelevante para os que amavam sua música. O mesmo deveria se dar com a cor da sua pele, mas não! O músico nasceu num país segregado, que fazia questão de manter duas culturas: uma branca e outra negra, convivendo em camadas feito água e óleo. Na medida em que evoluiu musicalmente, com talento, carisma e tino para os negócios, ele venceu a impermeabilidade e fez com que sua música fosse assimilada pela cultura branca. Tornou-se bem-sucedido, enriqueceu e ganhou fama mundial. Foi um dos grandes responsáveis pela miscigenação musical que a partir dos anos 50 tomou conta dos Estados Unidos e do planeta. Tal trajetória jamais poderia ser ignorada por alguém que se atravesse a contar sua história.

Gosta de analisar os filmes em profundidade?

Se você prefere as resenhas detalhadas, com indicações de bons filmes, adoraria lhe enviar a minha newsletter gratuita. Toda semana tem um texto novo e exclusivo, que você pode receber direto no seu e-mail. Junte-se à comunidade da Crônica de Cinema!

Inscreva-se grátis clicando aqui

Cena do filme Ray
Ray: Jamie Foxx executou todas as músicas no piano

Dramatizações em  doses precisas

        O diretor Taylor Hackford apostou numa narrativa fortemente ancorada em ganchos emocionais e alcançou não apenas os fãs de Ray Charles, mas também o público em geral, que desconhece alguns detalhes surpreendentes sobre a vida do artista. O diretor desenvolveu toda a estrutura narrativa, mesclando  espetáculo musical com dramatizações. Foi assim que encontrou o melhor conceito para contar sua história. Depois disso, envolveu Jimmy White para co-escrever o roteiro a ser filmado. O que acompanhamos em Ray são dramas vividos por personagens bem construídos, mais profundamente abordados nas obras de ficção.

Uma carreira memorável

        Ray cobre toda a vida de Ray Charles, desde sua infância numa comunidade pobre no norte da Flórida até o topo da sua carreira de artista consagrado. Descobrimos como ele ficou cego aos sete anos, como se desenvolveu como músico encarando a poeira das estradas, como encontrou a sua personalidade musical, construiu sua família, subiu todos os degraus até o estrelato e despencou, vitimado pelo uso de drogas.

Cena do filme Ray
Ray: merecido óscar de melhor ator para Jamie Foxx

Um ator talhado para o papel

        Ao escrever sobre o filme Ray, julgo imprescindível dedicar demorados aplausos a Jamie Foxx. Além de ator carismático, fisicamente parecido com o personagem que interpreta, ele é um exímio pianista e executou ele mesmo todas as canções durante as gravações. O ator começou a tocar piano aos três anos e chegou à faculdade com uma bolsa de estudos para o instrumento. Nas telas, encarnou Ray Charles com impressionante verossimilhança. Foi assim que ganhou o Óscar de melhor ator em 2005 – e o filme também saiu com a estatueta de melhor mixagem de som.

Um artista superlativo

        Finalmente, é preciso mencionar os méritos do próprio Ray Charles, um grande artista que viveu uma vida atribulada. Ele apoiou Taylor Hackford em suas decisões criativas e se manteve firme nas convicções artísticas que queria ver estampadas num longa-metragem sobre a sua vida. Quando chegamos aos créditos finais de Ray, só pensamos em continuar ouvindo os sucessos que ele nos deixou. Então, aos poucos, vamos nos dando conta de que assistimos a um dos melhores filmes do gênero musical. Uma produção independente de qualidade, que merece ser revisitada periodicamente. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Taylor Hackford, o roteiro bem costurado, a atuação impecável de Jamie Foxx, e produção musical impecável.

O que surpreende: a narrativa costurada a partir da música de Ray Charles abriu espaço para dramatizações contundentes, revelando diferentes camadas do artista.

Acima da média. É entretenimento de qualidade.

Ficha técnica do filme Ray

Ano de produção: 2004
Direção: Taylor Hackford
Roteiro: Taylor Hackford e James L. White

Elenco principal:
  • Jamie Foxx
  • Kerry Washington
  • Regina King
  • Clifton Powell
  • C.J. Sanders

Comentários

  1. O filme já assisti, e assistiria novamente! O que resta a elogiar é a crônica bem elaborada! Parabéns!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Confira também:

Crítica | Faces da Verdade: thriller político onde a verdade tem valor absoluto

Crítica | Um Ato de Esperança: retrato de uma personagem complexa