Gravidade: uma proeza tecnológica digna da NASA


Gravidade: filme de Alfonso Cuarón

MUITA TECNOLOGIA ENVOLVIDA, DENTRO E FORA DA TELA

Na derradeira cena de Gravidade, produção de 2013 dirigida por Alfonso Cuarón, quando a astronauta Ryan Stone finalmente sente a textura da areia na praia, o movimento ritmado da água e o peso do próprio corpo, seria o melhor momento para... começar um novo filme! Um filme que, ao contrário desse, merecia acontecer no espaço interno da personagem, desvendando as inevitáveis transformações causadas pelo acidente de proporções estratosféricas pelo qual passou. Os realizadores não tiveram muito tempo para se preocupar com isso, já que estavam ocupados demais com toda a ação passada no espaço externo, ancorada nas habilidades da equipe de efeitos visuais.
        Gravidade é um feito tecnológico. Alfonso Cuarón o escreveu em colaboração com o filho, Jonás a partir de uma ideia simples e objetiva: capturar com extremo realismo as reações e as emoções de um astronauta diante da mais cruel das adversidades. O problema é que a mera computação gráfica, adicionada depois que a ação dos atores é captada com a ajuda da famosa tela verde, não dava conta do recado. Simplesmente pendurar os atores por cabos resultava em imagens nada convincentes. Assim, o diretor e sua equipe precisou inventar novas tecnologias e criar novas maneiras de filmar – exatamente como no cinema assinado por grandes mestres, como Stanley Kubrick, Steven Spielberg e James Cameron.
        O filme nos conta a história vivida pela Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) em sua primeira missão no ônibus espacial, acompanhada de perto pelo veterano Matt Kowalski (George Clooney). Ela está empolgada em seu primeiro passeio no espaço, quando chega o alerta: detritos de um satélite que explodiu irão alcançá-los em velocidade destrutiva. O que se segue é uma sucessão catastrófica de impactos e explosões, que colocam os astronautas em uma situação limite de sobrevivência, no local mais inóspito que pode existir. Acompanhamos as tentativas de superação e todos os reveses que teimam em complicar a vida de Ryan e Kowalski.
        Aliás, o espectador vai preferir chamá-los mesmo de Sandra Bullock e George Clooney, já que muito pouco ficará sabendo sobre o mundo interior dos personagens para poder ganhar familiaridade com eles – ela conta apenas que perdeu uma filha de poucos anos, quanto a ele, bem... Só sabemos que é um astronauta! Os dois atores são convincentes, mas tiveram que se relacionar intensamente com toda a tecnologia envolvida na produção, além de trabalhar em colaboração com a equipe de técnicos e diretores de arte.
        Em Gravidade, o assunto principal é mesmo a tecnologia, que levou longos dois anos e meio para ser desenvolvida, num processo de tentativa e erro. A equipe iniciou preparando animações que serviriam como um storyboard, mas o diretor logo entendeu que eram essas primeiras concepções visuais que acabariam determinando o que aconteceria no estúdio, estabelecendo as posições e movimentos de câmera, a iluminação e a própria performance dos atores 
 algumas tomadas foram realizas em locação nas instalações da própria NASA. Na sequência, o filme demorou outros dois anos até estar concluído.
        O grande mérito de Gravidade é que em momento algum nos damos conta da presença da câmera. Tudo acontece na tela de forma orgânica, nos sugando para dentro da ação. É preciso mencionar aqui o excelente trabalho de Steven Price, que concebeu uma trilha sonora perfeitamente integrada à sonoplastia e ajudou a conduzir a narrativa e as pontuações dramáticas. O filme arrasou no Óscar: levou as estatuetas de melhor diretor, melhor trilha sonora, melhores efeitos visuais, melhor fotografia, melhor montagem, melhor edição de som e melhor mixagem de som – sete ao todo!.
        É um filme que enche os olhos, mas penso nele como uma obra feita para agradar os cineastas, como as que alguns virtuoses da música fazem, pensando em agradar primeiramente os músicos. Para nós, espectadores, o filme de Alfonso Cuarón parece mais um relato de acidente, daqueles que ouvimos de um amigo que bateu o carro e nos ocupa a noite toda, entre copos de cerveja, com os detalhes inusitados da ocorrência.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 

Filme: Gravidade


Data de produção: 2013
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuartón e Jopnas Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney e Ed Harris

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