Um Lindo Dia na Vizinhança

PARA QUE HAJA UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA É PRECISO SABER LIDAR COM AS EMOÇÕES


Um Lindo Dia na Vizinhança: dirigido por Marielle Heller

            Filmes trazem experiência emocional. Tenho batido nessa tecla em várias postagens, porque acredito no poder que algumas histórias têm de nos confrontar com situações emotivas e nos levar a “aprender pelo exemplo”. Um Lindo Dia na Vizinhança, filme de 2019 dirigido pela cineasta Marielle Heller, conta uma história das boas. Poucos filmes me pegaram no contrapé afetivo e me deixaram assim, de joelhos, em estado contemplativo. Era tarde da noite e estava sozinho diante da TV. Devo ter deixado escapar alguma lágrima, em algum momento.
            – Você precisa assistir comigo! – convoquei minha mulher no dia seguinte, durante a nossa caminhada. Avisei que estava disposto a rever.
            – Eu topo! Pela sua empolgação, o filme deve ser incrível.
            Ludy reuniu expectativas enormes. Fiquei receoso que ela se decepcionasse – talvez o filme fosse eloquente apenas para mim, em meu momento de vida. À noite, estávamos os dois dividindo o sofá. Ela atenta e eu ansioso, monitorando suas reações. Por quase duas horas esquecemos do mundo, mergulhados numa história costurada com emoção.
            O roteiro de Um Lindo Dia na Vizinhança é um achado. Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster toparam com a matéria que o jornalista Tom Junod escreveu em 1998 para a revista Squire sobre Mister Rogers, um famosíssimo apresentador de programa infantil, idolatrado por várias gerações de americanos. Inspirados nos fatos reais relatados, construíram os personagens e os inseriram na história como se fossem participantes de um dos episódios do programa.
            Nós, brasileiros, não conhecemos essa celebridade americana, que entrava na casa das famílias falando diretamente com as crianças, muitas vezes sobre temas espinhosos, como divórcio, morte, doenças, brigas, raiva... Mister Rogers tinha como missão ensinar os pequenos a lidar com suas emoções e prepará-los para a vida adulta. Por esse filme, nos fica claro que se tratava de um verdadeiro herói, admirado por sua sensatez, benevolência e talento para ensinar.
            O jornalista Lloyd Vogel, criado pelos roteiristas como álter ego de Tom Junod, é um profissional competente e talentoso, mas também arrogante e intolerante. Destacado a contragosto para escrever o perfil de Mister Rogers, decide descobrir quem é o homem que se esconde por trás daquela celebridade nacional – e que certamente não pode ser assim tão... perfeito!
            É do encontro entre os dois personagens que brota o material desse filme. Os efeitos sobre o jornalista, que atravessa um momento difícil com o nascimento do filho e o reaparecimento do pai depois de anos de abandono, são devastadores. Seu mau humor não é páreo para o carisma de Fred Rogers. Sua prepotência é vencida pela generosidade do apresentador. Seus muros de proteção vão ruindo na medida em que Rogers vai mostrando que, sim, está determinado a ensinar pelo exemplo e ser... o mais perfeito que puder!
            Um Lindo Dia na Vizinhança é sobre o drama familiar do jornalista Lloyd Vogel e de como a amizade que brota entre ele e Fred Rogers o ajuda a superar seus traumas de infância, a reconciliar-se com seu pai e encontrar o caminho certo para criar seu filho. Não há interesse em descobrir se Mister Rogers existe apenas diante das câmeras. Tudo o que importa é que o apresentador deixou um legado valioso, consistente e capaz de continuar influenciando na educação e no aprendizado das crianças – e transformando adultos que ainda não aprenderam a lidar com suas emoções.
            Bem, depois dessa longa sinopse, o leitor já deve estar aflito para saber em que momento deste texto aparecerão as palavras Tom Hanks. Calma! Antes de pronunciá-las, quero falar de Matthew Rhys, o ator que interpreta o jornalista Lloyd Vogel, o verdadeiro protagonista dessa história. Rhys realizou um trabalho impecável. Quando as câmeras de Marielle Heller se fecham nele, revelam emoções verdadeiras e intensas. Sua presença em cena é, por vezes, mas brilhante que a de Tom Hanks e isso me pareceu em grande parte por generosidade do astro – a mesma generosidade que Fred Rogers teria para com o jornalista.
            Tom Hanks está perfeito no papel. Seu Fred Rogers, ainda que soe inverossímil para nós, brasileiros, certamente é reconhecido pelos americanos – na fala doce, no olhar franco, na disposição em ouvir e na facilidade em se tornar íntimo de qualquer um. É um astro em plena forma, que sabe o momento certo de brilhar, deixando que a história dos demais personagens siga seu curso e alcance o espectador com a força necessária. Chris Cooper como pai do jornalista e Susan Kelechi Watson, como sua esposa, aproveitam bem seus momentos em cena.
            A diretora Marielle Heller merece muitos créditos. Pela sensibilidade em contar uma história predominantemente masculina – onde impera o relacionamento entre pai e filho. Pela beleza com que recriou a ambientação de época. Pela inteligência ao mesclar as linguagens do cinema e da televisão. Pela segurança com que estabelece seus enquadramentos, nos mantendo sempre na distância certa dos personagens.
            Quando decidi assistir a Um Lindo Dia na Vizinhança, imaginei que veria um daqueles filmes edificantes, que no final nos fazem sentir bem. Sim, isso é verdade, mas até chegar no final é preciso lidar com muitas emoções. No meu caso, elas afloraram intensas, talvez porque o relacionamento entre pai e filho seja um tema sensível para mim – aliás, é disso que trata o romance que escrevi, intitulado Ventania.
          Quanto à minha mulher, devo dizer que ela gostou do filme. – Não é um filme que me pegoooou, mas é muito bom. Você sabe que eu gosto de filme assim! – disse Ludy, reforçando a sensação de que, talvez, o filme seja eloquente apenas para mim, em meu momento de vida. Seja como for, ela ficou curiosa em ver as cenas inseridas depois dos créditos finais, que mostram a montagem das maquetes usadas na produção e uma cena do verdadeiro Mister Rogers.

Comentários

  1. Adoro as crônicas desse blogueiro. Ele merece respeito pela sua capacidade de se comunicar

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