Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

IMAGINE SE O PERSONAGEM NEURÓTICO DE WOODY ALLEN TIVESSE NAS MÃOS UM... CELULAR!

Noivo Noivo Neurótico, Noiva Nervosa: a cena da fila no cinema

            O filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é de 1977. Dirigido por Woody Allen, marca um ponto de virada na carreira do cineasta, até então conhecido do grande público por suas comédias escrachadas. Venceu quatro óscares: melhor filme, melhor diretor, melhor atriz para Diane Keaton e melhor roteiro original, para Woody Allen em parceria com Marshall Brickman. Volta e meia esse filme me vem à mente, por dois motivos. Primeiro, por causa do seu título.
            Cá entre nós, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é um título ridículo! Suspeito que os distribuidores no Brasil tentaram manter algum vínculo com a imagem do Wood Allen destrambelhado que fazia rir em O Dorminhoco, Bananas e Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre o Sexo - Mas Tinha Medo de Perguntar. Não perceberam que o diretor chegava com uma abordagem diferente. Essa comédia romântica exigia mais do espectador, não só pelo conteúdo afiado, mas também pela narrativa sofisticada. Deveriam ter mantido o título original em inglês: Annie Hall.
            O título faz referência ao nome da cantora em busca de oportunidades, vivida por Diane Keaton, cujo caso amoroso com Alvy Singer, o humorista judeu, deprimido e neurótico interpretado por Wood Allen, vai se esfarelando no decorrer do filme. Mas há uma sutileza: repare que a sonoridade do título em inglês é próxima à da palavra “anyhow!”, que numa tradução livre soaria como “de qualquer jeito”, denotando uma certa... displicência.
            Mas embora a relação entre seus personagens aconteça de maneira desleixada, o filme não tem nada de displicente. Ao contrário, é uma produção inteligente, repleta de referências culturais e construída com diálogos bem redigidos. Aqui, Woody Allen é uma metralhadora giratória, disparando piadas contra tudo e contra todos. A narrativa não é linear e se vale de recursos teatrais que colocam o personagem falando diretamente ao espectador – praticamente interagindo com a plateia. Enfim, um filme original e inovador para a época.
            O outro motivo que me faz recordar o filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é a cena da fila no cinema. Alvy Singer e Annie Hall estão impacientes, aguardando para entrar na sala de exibição. Ele, a ponto de explodir, irrita-se quando ouve o sujeito logo atrás se exibindo para a namorada, com bravatas sobre o seu conhecimento a respeito de cinema. Quando o metido a intelectual começa a falar sobre Marshall McLuhan, o mais importante teórico da comunicação daquela época, Singer explode. Volta-se para a câmera e desmonta o farsante, explicando que ele não entende nada do assunto. O sujeito vem se defender, dizendo que leciona sobre o tema na universidade, mas recebe o golpe de misericórdia quando Singer dá alguns passos e traz para a cena ninguém menos que o próprio Marshall McLuhan.
            Observe, leitor, que não se trata de um ator interpretando o filósofo. É o próprio McLuham que surge diante dos nossos olhos, fazendo uma ponta no filme, onde interpreta a si mesmo. Ele confirma a afirmação de Singer, dizendo que o tal falastrão não entende nada sobre as suas teorias e que nem ao menos deveria estar dando aulas na faculdade. Vitorioso, Singer olha para a câmera e dispara:
            – Ah, se na vida real fosse assim!
            Jamais esqueci essa cena. Quando assisti ao filme era estudante de comunicação e tinha que lidar com as ideias fascinantes de Marshall McLuhan. Woody Allen realizou meu sonho de encerrar uma discussão da forma mais taxativa que existe: apresentando como prova as palavras irrefutáveis do autor. Ri até não poder mais. Agora, no entanto, me vejo obrigado a reassumir meu lugar na plateia e retrucar para o diretor:
            – Hoje em dia, a vida real é exatamente assim! Sua piada perdeu a razão de ser!
            Digo isso porque um adolescente que eventualmente assista a Noivo Neurótico, Noiva Nervosa não verá graça alguma. Ora, para ele, bastaria sacar o celular e, com rápidos comandos de voz, ordenar a exibição de algum vídeo sobre as teorias do filósofo. Na verdade, nosso hipotético adolescente nem mesmo estaria numa fila de cinema.... Por isso, quando relembro essa cena, o faço para comemorar e também para lamentar. 
            A impressionante ferramenta que nos deu acesso a todo e qualquer conhecimento, no momento em que ele é demandado, é motivo para festejar. As tarefas que tenho realizado com a ajuda dela ficaram mais leves e ágeis. De outro lado, a fartura de informações que nos alcança gerou em nós uma certa... displicência! Conhecimento é tratado feito commodity e as pessoas estão se afogando num caldo cultural formulado tão somente pelo gosto pessoal. Só procuram saber mais a respeito daquilo que já conhecem.
            Na época de Annie Hall, informação e conhecimento eram valiosos demais. Hoje, circulam praticamente sem custos – cada um paga cedendo os direitos sobre sua privacidade. Só lamento que, por serem tão abundantes e baratos, muitos não se incomodem no momento em que tentarem cerceá-los ou controlá-los.


Veja a cena da fila do cinema








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