O Gambito da Rainha

COMO NAS PÁGINAS DE UM ROMANCE, ESSA MINISSÉRIE EM SETE EPISÓDIOS É MINUCIOSA E ENVOLVENTE



O Gambito da Rainha: minissérie dirigida por Scott Frank

            Confinados numa esteira de academia, a concentração é no exercício e nos resultados para o corpo. Já ao ar livre, há mais espaço para as divagações. E como divagamos! Em nossas caminhadas, Ludy e eu não conseguimos nem mesmo rastrear a origem da conversa. Foi o que aconteceu esta manhã. Estava pensando na série O Gambito da Rainha, mas uma intrincada linha de raciocínios nos levou a falar sobre o aumento da expectativa de vida e de como isso está aumentando a quantidade de pessoas maduras em circulação.
            – Ah, pessoas mais velhas não são necessariamente maduras – disparou minha mulher, lembrando que a maturidade depende de fatores emocionais. – Alguém pode ser maduro numa situação e imaturo para lidar com outra – completou.
            – Você está certa! Conheço gente assim: no trabalho é centrado e sólido. Socialmente, vira um adolescente mimado.
            – Maturidade não vem com a idade. Vem com o aprendizado... com a vivência!
            Mais uma vez Ludy me levou a pensar em... cinema! O processo de amadurecimento é um tema onipresente nas histórias que ouvimos, nos livros que lemos e nos filmes aos quais assistimos. É a trajetória dos personagens – seu aprendizado e as transformações pelas quais passam – que prendem nossa atenção. É isso o que importa. Enquanto Ludy, empolgada, continuava desenvolvendo seu raciocínio, minha cabeça já estava longe, pensando no Gambito da Rainha, que havia acabado de assistir na noite anterior.
            Disponível na Netflix, essa minissérie em sete episódios é uma joia preciosa para quem gosta de uma boa história bem contada. Baseada no romance de Walter Tevis, de 1983, narra a trajetória de Beth Harmon, uma enxadrista americana que chegou ao topo no circuito dos campeonatos dos anos 60, conquistando fama e fortuna. Órfã aos nove anos, acompanhamos sua chegada ao orfanato, seus primeiros contatos com o xadrez, suas primeiras vitórias, sua imersão no mundo dos campeonatos, seu desenvolvimento incrível e suas conquistas espetaculares.
            Não, o xadrez – esporte minucioso, enfadonho e incompreensível para a maioria dos espectadores – não é o foco dessa minissérie. É tratado apenas como pano de fundo. Carência afetiva, controle emocional, tenacidade, atitude competitiva, presença de espírito, capacidade intelectual, dificuldades com relacionamentos, processo de amadurecimento... Essas, sim, são as matérias-primas tratadas com habilidade nessa obra de ficção, que nos apresenta uma protagonista forte e magnética, cercada de personagens interessantes e bem desenvolvidos.
            O formato de minissérie é perfeito para O Gambito da Rainha. Há espaço para descrever em detalhes a essência e o percurso de cada personagem, mantendo a densidade dramática e as minúcias narrativas, como nas páginas de um romance. O roteiro, assinado por Scott Frank e Allan Scott é bem arquitetado. Eles sabem lidar com os silêncios tão bem quanto com as falas, o que impõe um ritmo ágil e permite criar uma atmosfera envolvente, de mistério e expectativa, intensificada pela trilha sonora assinada por Carlos Rafael Rivera.
            A direção de arte merece destaque em O Gambito da Rainha. Os cenários e os figurinos de época são de encher os olhos e o universo visual do xadrez é usado com criatividade. As partidas tensas e quase sempre dramáticas são narradas por meio de closes nos competidores, nas suas expressões e reações. As peças e sua disposição no tabuleiro interessam pouco. Aparecem sempre em lances rápidos – por isso o espectador não se sente entediado.
            O elenco jovem e cativante, encabeçado por Anya Taylor-Joy – estrela de sucesso no universo das séries de TV – é outro grande trunfo da minissérie. A atriz mirim Isla Johnston, que interpreta a enxadrista na infância, chama a atenção, por ocupar importante espaço na trama. Ao longo dos sete episódios vemos os personagens se comportando como na vida real: indo e vindo, interferindo e surpreendendo.
            Beth Harmon passa por poucas e boas em O Gambito da Rainha. É fria e calculista – assustadoramente robótica, às vezes. Mas é talentosa e tem bom caráter. É segura e ambiciosa, mas carente e desengonçada no trato social. É inteligente e forte para lidar com o machismo reinante, mas vulnerável às tentações e aos vícios da geração drugs and rock’n roll dos anos 60. Torcemos por ela e vibramos com suas vitórias, mas ficamos ansiosos para saber quando ela vai finalmente... amadurecer!
            É disso que se trata a vida: amadurecimento. Talento e competência nas mãos de imaturos trazem resultados imprevistos e explosivos – e por vezes espetaculares. Maturidade, por outro lado, não é garantia de sucesso. O medo de água fria pode deixar sem ação os gatos escaldados.
            De novo, minhas divagações me levam ao óbvio: amadurecimento é um processo conduzido pelo autoconhecimento. E o único jeito de saber mais sobre nós mesmos é... vivendo. Experimentando as situações e percebendo de que forma reagimos a elas. Encarando as disputas e aceitando jogar xadrez com a...vida! Sim, caro cinéfilo, agora estou me referindo àquela outra partida de xadrez, disputada por Max von Sydow em O Sétimo Selo, filme de Ingmar Bergman. Como disse, às vezes é difícil rastrear a origem de uma conversa!


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 

Minissérie O Gambito da Rainha


Ano de produção: 2020
Diretor: Scott Frank
Roteiro: Scott Frank e Allan Scott
Elenco: Anya Taylor-Joy, Isla Johnston, Thomas Brodie-Sangster, Harry Melling, Jacob Fortune-Lloyd, Matthew Dennis Lewis e Akemnji Ndifornyen

Comentários

  1. Minisérie sensacional!!!Vc não precisa saber ou gostar de xadrez a serie foca na personagem principal e nas situações vivenciadas por ela.
    Atuações brilhantes, cenário, figurino e roteiro impecáveis!!!

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    Respostas
    1. Isso, mesmo!!!! Série envolvente e muito inteligente.

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  2. Minisérie sensacional!!!Vc não precisa saber ou gostar de xadrez a serie foca na personagem principal e nas situações vivenciadas por ela.
    Atuações brilhantes, cenário, figurino e roteiro impecáveis!!!

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  3. Amei esta série. Amei o figurino, amei a personagem cheia de personalidade desde a infância. O lado sensual da série também mexe com a gente apesar dos poucos gestos e olhares. Ameeeeeeeeeiiii 👏👏👏👏

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