Mussum, Keanu Reeves e os Beatles: uma combinação inusitada

Submarino Amarelo: filme dirigido por George Dunning

SARGENT PEPPER E SUA BANDA ACABAM COM QUALQUER PANDEMIA DE TRISTEZA

Alguém aí anotou a placa do ano que furou o sinal, atropelou nossos planos e passou por cima das nossas rotinas? Como diria o Mussum, Keanu Reeves! Começamos 2020 ambicionando prosperar, mas tivemos que nos contentar em apenas sobreviver. 2021 não está sendo diferente.

Mussum x Keanu Reeves

        Alguns setores da economia não tiveram do que reclamar, outros... faliram. Como país, ficamos mais pobres porque produzimos menos. Ficamos mais ignorantes porque estudamos menos. Ficamos mais vulneráveis, porque nos dividimos e nos isolamos. Pandemia e politicagem formaram uma dupla desafinada e estridente, que buzina com uma insistência de enlouquecer. Falsas dicotomias surgem a cada noticiário, insinuando que o bem comum e os direitos individuais são irreconciliáveis. Escolhemos um dos lados e nos entrincheiramos nas redes sociais, disparando sem piedade contra quem está erradamente indo contra as nossas certezas. Angustiados, estamos na iminência de explodir.
        Enquanto escrevo, olho pela janela e não encontro o costumeiro movimento de carros e gentes. Apenas uns poucos apressados circulam. Na minha mente, de uma forma quase orgânica e natural, começam a ecoar as notas do violoncelo que abre a canção Eleonor Rigby, dos Beatles. Posso ouvir a voz de Paul McCartney entoando em inglês: – Ah! Look at all the lonely people. E ele repete: – Ah! Look at all the lonely people.
        Somos nós! Essa gente tristemente solitária que segue acuada, desatenta de tão preocupada em vencer. Robotizada, de tão preocupada em acertar. Somo nós!

UMA RÁPIDA SINOPSE

        De repente, o filme inteiro vem se projetando na minha cabeça. Refiro-me à animação Submarino Amarelo, realizada em 1968 pelo diretor George Dunning. É perfeita para costurar a última crônica de 2020! Conta a história de como o quarteto de Liverpool embarca numa viagem psicodélica a bordo de um submarino amarelo, atravessando mares inusitados e vencendo percalços surreais, para chegar a Pepperland. Lá eles tentam libertar seus habitantes do jugo dos malvados azuis, cujo líder baniu as cores, a música e tudo o mais que realmente importa.
        Submarino Amarelo tem mais de 50 anos! É um produto da arte pop dos anos 60. Seu universo visual, assinado pelo diretor de arte Heiz Edelmann, retrata o estado de espírito psicodélico da época e sua estética apurada segue a mesma influência das artes gráficas animadas que vemos nos trabalhos de Terry Gilliam e do espanhol Victor Moscoso, por exemplo. O filme foi todo construído a partir da canção Yellow Submarine, composta por John Lennon e Paul McCartney para o álbum Revolver, de 1966.
        A história foi criada por Lee Minoff, que escreveu o roteiro em parceria com Al Brodax, Jack Mendelsohn e Erich Segal. Submarino Amarelo é essencialmente um musical e apresenta uma sequência de canções memoráveis, compostas pela mais famosa banda dos anos 60. O esforço de produção foi significativo, dada a complexidade das técnicas de animação disponíveis na época. Aos olhos de hoje, o resultado pode parecer ingênuo e simplista, mas há uma grande carga simbólica envolvida: os famosos personagens, sua música praticamente unânime, as insinuações lisérgicas...

VALE A PENA REVISITAR

        Conheço muitas pessoas que revisitam regularmente Submarino Amarelo. Vez ou outra reservam-se o direito de passar momentos de regozijo estético, fruindo a música impecável e o visual ultracolorido que já foi tão moderno. Esquecem do mundo. Cantam junto, dançam, aplaudem... Embarcam na história ingênua e criativa de como Sargent Pepper e sua banda conseguem varrer a pandemia de rabugice causada pelos malvados azuis e devolver a Pepperland a alegria de viver. Pois digo que o momento é oportuno! Nesse novo ano que começa, cabe muito bem dar um pé na bunda do mau humor e... dar uma chance à paz!
        Fica aqui o meu convite para assistir ao filme Submarino Amarelo. Navegando pelo mar do tempo, vamos descobrir que é possível recuperar o que já passou. Que deixar-se levar pelo medo provocado por monstros autofágicos não leva a lugar nenhum. Que para sair do buraco em que nos encontramos basta seguir por outro ângulo. Que tudo o que precisamos é amor – além de música, cinema, artes, cultura, ideias, força empreendedora, saúde, criatividade...

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Ah, em tempo, gostaria de justificar a referência que fiz no começo do texto ao humorista Mussum. Dei de cara com essa piada na internet e achei genial. É uma narrativa que só nós, os lusófonos, conseguimos entender – e o melhor de tudo, pode ser construída sem palavras, como ousei reproduzir acima. Apesar de ter sido horrível, 2020 não nos levou a capacidade de dar boas risadas.





Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 

Filme: Submarino Amarelo


Ano de produção: 1968
Direção: George Dunning
Roteiro: Lee Minoff, Al Brodax, Jack Mendelsohn e Erich Segal
Elenco: vozes de Paul Angelis, John Clive, Geoffrey Hughes, Peter Batten, Dick Emery e Lance Percival

Comentários

  1. Maravilhosa crônica, Fábio, reflete exatamente o que fizeram no mundo neste ano que passou. Canalhas ávidos pelo poder levando o terror, a fome e a desesperança em nome do altruísmo ! Ainda bem que ainda existem sgt Peppers e suas bandas para abrir nossos olhos para a verdade sem hipocrisia. Que em 2021 estejamos absolutamente alertas e que nossa coragem e capacidade de preservação nos traga de volta à Vida !!!!!!Feliz 2021 👏👏👏👏

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