Um Sonho Possível: drama real estrelado por Sandra Bullock

Um Sonho Possível: filme dirigido por John Lee Hancock

CINEMA CONVENCIONAL, PARA CONTAR UMA HISTÓRIA ENVOLVENTE E EDIFICANTE 

Certa vez, durante uma aula de criação no curso de publicidade, o professor nos provocou com uma pergunta:
        – Imaginem que vocês têm que bolar um comercial para o lançamento de um novo automóvel. Seu nome é Veículo X e ele faz 1.000 km com um litro de gasolina. Qual seria a chamada desse comercial?
        Nos entreolhamos, todos com cara de publicitários pensantes, mas antes que alguém surgisse com uma ideia esdrúxula, o mestre soprou a resposta:
        – Só há uma chamada possível: Veículo X. 1.000 km com um litro de gasolina.
        Claro! O atributo do produto era tão diferenciado que seria tolice tentar enrolar o consumidor com frases criativas. Bastaria ir direto ao ponto. Esse mesmo raciocínio gosto de replicar quando falo sobre o filme Um Sonho Possível, de 2009, escrito e dirigido por John Lee Hancock. Baseado em fatos verdadeiros, é um filme com claras pretensões comerciais, mas seu enredo é tão envolvente que seria tolice importunar o espectador com idiossincrasias, seja na direção, seja nos recursos narrativos. Os realizadores foram diretamente ao ponto, adotando a mais tradicional linguagem dos dramas hollywoodianos. E acertaram em cheio!
        Ao contrário do que podemos pensar à primeira vista, o filme não é um drama esportivo. O esporte – no caso o esquisito futebol dos americanos, que eles preferem jogar com as mãos – está presente o tempo todo, mas não demanda conhecimento de regras nem das dinâmicas das competições. O filme é sobre um garoto pobre, traumatizado, abandonado, carente e desesperançado, que cruza o caminho de uma mulher abastada, com forte espírito maternal, caridosa e desprendida de preconceitos, que decide adotá-lo e dar-lhe um futuro. O garoto encontra no esporte a motivação para seguir em frente e a mulher decide mover o mundo para apoiá-lo – e mover o mundo, dada a condição financeira da família que o adota, parece ser mais do que força de expressão!
        O fato de o garoto ser negro e grandalhão é irrelevante, até o momento em que o preconceito racial da comunidade começa a incomodar. O fato de a família adotiva ser rica e influente também é irrelevante, até o momento em que os interesses econômicos começam a interferir. Além desses pontos de conflito, o diretor costurou seu roteiro com outros elementos envolventes: os problemas da mãe verdadeira, viciada em crack e incapaz de demonstrar amor, o imperativo de alcançar desempenho escolar para ingressar no esporte e o aprendizado de convívio com a nova família.
        Um Sonho Possível, baseado no livro de Michael Lewis intitulado The Blind Side: Evolution of a Game, conta a história real do jogador profissional de futebol americano Michael Oher, interpretado por Quinton Aaron. Leigh Anne Tuohy, sua mãe adotiva, é vivida por Sandra Bullock. A família, que mora em Memphis, no Tennessee, é proprietária de vários restaurantes da franquia Taco Bell e alcançou o sonho americano de sucesso material e bem-estar por meio do empreendedorismo.
        Como na maioria dos dramas comerciais de Hollywood, os personagens são desenhados a partir de estereótipos e as situações dramatizadas a ponto de nos fazer duvidar se aconteceram da forma apresentada. Mas ao mesmo tempo em que flerta com o artificialismo, o diretor consegue se manter objetivo, disparando diálogos rápidos e bem escritos. Com um ritmo agradável, uma trilha sonora emotiva e uma fotografia convencional, realizou um bom filme, que consegue emocionar o espectador ao focar no amor e no respeito que nasce entre seus personagens. Traz uma mensagem edificante, que enaltece a caridade e os princípios morais e os valores familiares. Destoa do triste cenário de tensões raciais que há muito caracteriza os Estados Unidos.
        Além do futebol americano, em Um Sonho Possível nós brasileiros encontramos outros elementos que causam estranheza e dão a impressão de que a história é um tanto... irreal: a estreita ligação entre o futebol profissional e as instituições de ensino, a exigência de bom desempenho escolar para permitir a prática de esportes, a filantropia financiando outros setores e movimentando uma parcela expressiva do PIB nacional... Porém, esquisito mesmo é não termos nada disso no Brasil.
        Para concluir, é preciso admitir: Sandra Bullock se destaca no elenco, pela maturidade com que construiu sua personagem e a temperou com doses exatas de carisma e personalidade forte. O papel rendeu a ela o Óscar de melhor atriz em 2010.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 
Filme: Um Sonho Possível

Ano de produção: 2009
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: John Lee Hancock
Elenco Sandra Bullock, Quinton Aaron, Tim McGraw, Jae Head, Lily Collins e Kathy Bates

Comentários

Postar um comentário

Gostou do texto? Deixe sua opinião.

Leia também:

Junte-se aos seguidores da Crônica de Cinema