Autoconhecimento

UM FILME QUE PASSA DIANTE DOS NOSSOS OLHOS!



Como desenvolver o autoconhecimento: o cinema pode ajudar

        Uma palavra que tem surgido em vários debates, pronunciada com voz impostada por quem deseja se posicionar entre os antenados é “autoconhecimento”. Quando a ouço, sempre rebato com uma pergunta impertinente: afinal, como fazer para adquirir autoconhecimento? Terapia? Psicodrama? Yoga? Meditação?
        Seja no mundo corporativo, seja na vida pessoal, conhecer-se é um imperativo para quem está disposto a evoluir e vencer obstáculos. É preciso estar seguro das próprias capacidades e dos talentos naturais que temos para pôr a serviço do mercado. Também é preciso estar ciente das próprias limitações e ter claro até onde estamos dispostos a chegar – até que ponto estamos dispostos a esticar nossos valores para alcançar objetivos práticos.
        Conheço apenas um método para adquirir autoconhecimento: vivendo! Passando por experiências e situações marcantes. Aprendendo com a vida. De que outra forma podemos prever quais reações teremos diante de um desafio inesperado? De que outra forma podemos aprender a manter a calma e a paciência, ou ter certeza de que chegou o momento de agir com ousadia e ímpeto realizador?
        Em princípio, dizer que só a vida pode ensinar autoconhecimento vem como um balde de água fria despejado sobre a cabeça dos mais jovens. Apenas os mais velhos e maduros estariam preparados para usar a bagagem que acumularam em favor da própria evolução. Felizmente não é bem assim!

Ver como quem está do lado de fora

        Entendo que a principal ferramenta para obter autoconhecimento é a capacidade de enxergar uma situação do ponto de vista de quem está fora dela. De quem assiste à situação e pode olhar para si mesmo com frieza e capacidade de discernimento, percebendo como reagiu, qual foi o tamanho da sua reação e que resultados ela gerou. Conheço muitos que já alcançaram a terceira idade sem desenvolver tal capacidade. E me surpreendo com muitos jovens fazendo uso dela com desenvoltura.
        É nesse ponto que costumo fazer uma conexão com outro tema que tem capturado minha atenção nos últimos anos: o cinema! Olhar uma situação de fora, observar as ações e reações dos personagens e entender suas consequências, fazer tudo isso de uma distância emocionalmente segura... Ora, nesse sentido, todo filme é uma metáfora da vida e tem muito a nos ensinar.
        Os filmes nos colocam diante de cenas inéditas, as quais ainda não tivemos a oportunidade de viver – mas se acontecerem de fato, estaremos preparados. Também nos colocam diante de cenas que já vivemos e nos dão a oportunidade de revisitá-las. De elaborar melhor as memórias afetivas que elas nos legaram. O cinema é uma poderosa ferramenta para promover autoconhecimento.
        Para vivenciar os horrores de um campo de batalha, não preciso ir para a guerra. Para amargar o drama do confinamento, não é necessário estar numa prisão. Para ver o quão difícil é decidir entre o heroísmo e o sacrifício, não tenho que me meter a desarmar bombas-relógio. Basta ir ao cinema. A vida pulsa nos filmes enquanto nós, espectadores, permanecemos seguros, no controle das nossas emoções, para entender, racionalizar, nos emocionar e... aprender!

Um acervo à disposição das empresas

        Nas empresas em que trabalhei, nas reuniões as quais participo, nos ambientes corporativos que costumo frequentar, sempre que possível toco no assunto cinema. Quando me recordo de um filme que permita desenvolver uma analogia sobre o tema em discussão, trato de citá-lo. Sem receio de parecer impertinente. O resultado é quase sempre efetivo: as pessoas acessam suas bases emocionais e afetivas, para reforçar as abordagens racionais nos assuntos de trabalho. Funciona como um gatilho criativo!
        As empresas deveriam olhar para o cinema na hora de empreender seus esforços de branding. Que filme está mais identificado com os atributos da nossa marca? Que série de TV espelha melhor o ambiente corporativo que estamos construindo? Que cena traduz com perfeição o nosso jeito de ser e de trabalhar? Dicas e sugestões de bons filmes aos quais assistir no final de semana – e depois uma discussão descontraída durante o cafezinho – são perfeitas para trazer à tona e disseminar os valores da empresa entre a equipe.
        De certo modo é isso que tenho feito no blog Crônica de Cinema. Cada filme que comento é uma oportunidade para refletir sobre a vida. Falo dos aspectos cinematográficos que interessam aos cinéfilos, mas também lanço provocações sobre os temas dos filmes, estimulando os comentários e os debates. Posso afirmar que isso tem me proporcionado uma boa dose de... autoconhecimento.



Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



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