O Garoto: filme mudo de Charles Chaplin

O Garoto: filme dirigido por Charles Chaplin

UM SÉCULO INTEIRO EMOCIONANDO

Há exatos cem anos, Charles Chaplin rodava O Garoto, uma comédia dramática filmada em branco e preto e sem som, que se tornaria um dos seus maiores sucessos. Meus avós vivenciaram a explosão de criatividade que o cineasta provocou naqueles primórdios do cinema. Meus pais conheciam seus filmes e se divertiam com eles. Na minha geração, Chaplin era admirado e respeitado, mas sua obra já estava praticamente confinada na telinha da TV – o personagem que ele criou, no entanto, habitava os espaços gráficos dos pôsteres, dos anúncios, das capas de caderno, das camisetas... Estava mais vivo do que nunca.
        Para a geração da minha filha e dos eventuais netos que já poderiam estar correndo pela casa – mas que pelo jeito ainda vão demorar para serem planejados – o nome Charles Chaplin ainda tem significado. Consegue ser escutado na mídia, embora dispute espaço com bilhões de outras atrações. Como isso é possível? Por que tantas obras e tantos cineastas foram sepultados sob a pilha de um século de produtos da indústria cultural, enquanto o vagabundo com chapéu-coco continua girando sua bengala por aí?
        A resposta é óbvia: porque Chaplin foi um gigante! A expressão que me ocorre para defini-lo é... poder de síntese. Visualmente, Carlitos, o personagem que o consagrou, é composto por formas básicas e bem definidas, contrastadas e praticamente sem meios-tons. Não fala, ou melhor, não precisa verbalizar suas falas. Move-se numa velocidade diferente do resto do mundo, quando capturado pela câmera rudimentar. Vale-se da expressão corporal e de gestos cujos significados são facilmente reconhecidos. Enfim, vence a barreira do idioma!
        Mas esse tal poder de síntese não fica só no âmbito da caracterização do personagem. Se estende para a narrativa dos seus filmes. Veja, por exemplo, a sinopse de O Garoto: temos uma mãe atormentada pela pobreza, abandonando seu filho recém-nascido no banco traseiro de um carro, na esperança de que ganhe um lar mais abastado. O carro é roubado e quando se dão conta da presença do bebê, os desalmados ladrões o largam na sarjeta. Quem o encontra? Carlitos! O vagabundo bem que tenta se livrar dele, mas sua alma generosa o impede. Os anos passam e o garoto se torna parceiro das vigarices de Carlitos. Criam fortes laços, mantendo uma sólida relação de pai e filho. Porém, a mãe do garoto reaparece, em ótimas condições financeiras, reclamando a guarda do garoto e causando na dupla a dor da separação.
        O roteiro de Chaplin é simples e objetivo. Sem a força dos diálogos para dar explicações ao espectador, as cenas precisam ser dramatizadas com ênfase na ação. O ritmo da narrativa vai se impondo mais pelo andamento de cada cena do que pelos recursos de edição. Medo, raiva, compaixão, amor, amizade... As emoções vão brotando não apenas do trabalho dos atores, mas de todos os elementos e símbolos que as lentes do diretor consegue enquadrar. Tudo isso faz de O Garoto um filme encantador, capaz de emocionar qualquer um, mesmo nesses nossos dias acelerados.
        Além de possuir grande sensibilidade artística e um preciso timming humorístico, Chaplin soube tirar proveito de uma das maiores virtudes do cinema: seu mutismo. Sim, nos seus primórdios a sétima arte era universal. Carlitos podia ser compreendido em qualquer canto do planeta – como ainda hoje o é, de fato! Arrancando sua expressividade da linguagem corporal e das expressões faciais, o diretor podia facilmente transportar o espectador para um mundo distante da realidade – sem som e sem cores. Podia ir além do racional, envolvendo-o com apelos emocionais e afetivos para completar o processo de comunicação.
    Como cineasta, Charles Chaplin ajudou a consolidar a indústria do cinema ao estabelecer os padrões técnicos e artísticos para a produção de um filme. E também ajudou na formação das plateias, educando o espectador na compreensão do alfabeto audiovisual. Isso tudo sem falar que ainda hoje Chaplin é uma das principais referências para todos aqueles que se aventuram a fazer humor. Mas aí já estamos tocando num assunto que será melhor tratado em outras crônicas!


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: O Garoto


Ano de produção: 1921
Direção: Charlie Chaplin
Roteiro: Charlie Chaplin
Elenco: Charlie Chaplin, Edna Purviance, Jackie Coogan e Baby Hathaway

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