22 de Julho: uma história real e atual

Cena do filme 22 de Julho
22 de julho: film e dirigido por Paul Greengrass

PESADO PARA QUEM ASSITE, AINDA MAIS PESADO PARA QUEM SE DISPÔS A REALIZÁ-LO

Estamos diante de uma história triste. Um trauma, que talvez fosse mais fácil tentar esquecer. Mas traumas esquecidos latejam no inconsciente e influenciam nossos atos, conduzem nossas decisões. Melhor seria superá-lo. Talvez tenha sido essa a intenção de Paul Greengrass quando decidiu escrever e dirigir 22 de Julho, filme que realizou em 2018, contando os trágicos episódios que aconteceram na Noruega em 2011, quando 77 pessoas morreram pelas mãos de um terrorista insano – talvez esse não seja o melhor adjetivo a ser empregado.
        22 de Julho mostra em detalhes como Anders Behring Breivik, um radical de ultradireita se disfarçou de policial e plantou uma bomba na frente do gabinete do primeiro-ministro em Oslo, matando 8 pessoas e ferindo 200. Depois, como um exterminador frio e implacável, foi até a ilha de Utoya, onde um acampamento de férias reunia jovens estudantes, matando 69 deles, a tiros! O terrorista foi preso e seu julgamento congelou toda a Noruega.
        Entendo que essa história não poderia ficar confinada na Noruega, pois traz uma clara advertência para o mundo: a intolerância e o ódio têm poder de esfarelar a sociedade e aniquilar nossos direitos individuais. Nos torna reféns da desesperança. Mas também percebo que Paul Greengrass pisou em ovos enquanto realizava esse filme: uma tragédia que marcou famílias – e toda uma nação – não pode simplesmente ser transformada em uma peça de entretenimento, ainda que venha revestida com qualidades cinematográficas.
        Em 22 de Julho, Paul Greengrass recria o passo a passo da tragédia, mas consegue ser respeitoso. Não a transforma num espetáculo, nem tenta dar algum tipo de respaldo às ações do terrorista. Apenas faz o que sabe fazer de melhor: assume uma linguagem francamente documental, ressaltando os momentos de tensão e revelando as emoções e nuances dos dramas humanos, com realismo desconcertante.
        Greengrass costurou seu roteiro a partir do livro escrito pelo jornalista Åsne Seierstad, intitulado One of Us: The Story of a Massacre in Norway — and Its Aftermath. Mas não ficou apenas na narrativa jornalística, afinal, é um diretor disposto a fazer... cinema! Encontrou em Viljar Hanssen, sobrevivente da ilha de Utoya, o personagem que dá consistência dramática ao filme. Sua longa recuperação dos ferimentos a bala ocupa todo o segundo ato. O terceiro ato fica por conta do julgamento do terrorista e as implicações das suas ações, do ponto de vista ético e moral.
        O diretor teve acesso às gravações dos intermináveis interrogatórios e conseguiu desenhar um perfil preciso do terrorista. O ator norueguês Anders Danielsen Lie, popular e bem quisto em seu país, aceitou o desafio de interpretar o homem mais abjeto da sua promissora carreira – talvez compreendendo a importância de alertar o mundo para os perigos do radicalismo, talvez tentando ajudar seu país a superar o trauma e tentar retomar à normalidade.
        Estamos diante de uma história triste, que precisava ser contada. Ainda bem que chega até nós pelas lentes competentes de Paul Greengrass.

Resenha crítica do filme 22 de Julho

Ano de produção: 2018
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Paul Greengrass
Elenco: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden, Thorbjørn Harr, Ola G. Furuseth, Ulrikke Hansen Døvigen, Isak Bakli Aglen, Maria Bock e Tone Danielsen

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