Crítica | Ex Machina: Instinto Artificial - Alex Garland realiza uma ficção científica instigante, sobre uma máquina que pensa que é gente!

Cena do filme Ex Machina: Instinto Artificial
Ex Machina: Instinto Artificial: filme dirigido por Alex Garland

UMA OBRA VISUAL ELEGANTE, SUSTENTADA POR UM ROTEIRO PRECISO

Por que diabos o filme Ex Machina, escrito e dirigido em 2015 por Alex Garland, ganhou no Brasil o subtítulo de Instinto Artificial? Não faz sentido demolir o maravilhoso conceito colado no trocadilho involuntário, criado em português com o termo "ex-máquina", para confundi-lo com instinto (mero impulso inato nos animais, dissociado da razão e da inteligência). A simples ideia de uma máquina que deixou de ser máquina já basta para cutucar a imaginação do espectador, sugerindo uma história envolvente, instigante e repleta de implicações éticas e filosóficas. Foi o que o filme conseguiu materializar com brilhantismo.

Diferente de Deux ex machina 

        Antes de seguir com os elogios, porém, quero lembrar que o conceito de Deus ex Machina, aquele consagrado na narrativa teatral, não se aplica a esse filme. Tal expressão é usada para descrever um tipo de solução improvisada, adotada pelos roteiristas incautos que, por não conseguirem livrar seus protagonistas das encrencas que criaram com demasiada complexidade, resolvem a trama de supetão, por meio de uma intervenção maquinada por Deus, que aparece no último instante para impor sua vontade.

Cena do filme Ex Machina: Instinto Artificial
Ex Machina: Institinto Artificial: dois humanos com visões opostas

Interação entre criador e criatura

        Ex Machina: Instinto Artificial é cinema maduro e realizado com competência. Uma obra visual de muito bom gosto, sustentada por um roteiro preciso e habitada por personagens bem construídos; um drama de ficção científica que merece destaque entre os grandes títulos do gênero. O filme é confinado na residência do bilionário da internet, Nathan Bateman (Oscar Isaac), que em segredo construiu Ava (Alicia Vikander), uma entidade robótica ultra-avançada. Para testar se a sua criação alcançou o nível de inteligência consciente, Nathan convoca Caleb (Domhnall Gleeson), seu funcionário mais talentoso; na medida em que o rapaz penetra no mundo estabelecido entre criador e criatura, envolve-se emocionalmente e fecha um bizarro triângulo regido por intrigas e manipulações.

Dois personagens opostos 

        Ex Machina: Instinto Artificial nos mostra que um personagem como Nathan, com capacidade e poder para criar vida inteligente, só poderia ser arrogante, prepotente e intimidador; alguém que se julga um Deus. Intuímos do que ele é capaz e suspeitamos que suas ações são calculadas milimetricamente. O jovem Caleb, que caiu de pára-quedas no centro da maior proeza da história científica da humanidade, é passional, ético e cheio de escrúpulos; é por meio dos seus olhos que enxergamos o desenrolar da trama.

Cena do filme Ex Machina: Instinto Artificial
Ex Machina: Instinto Artificial: o domínio da linguagem é sintoma de humanidade?

Comunicação em diferentes níveis 

        Quanto a Ava, ela é um ser único e ocupa mais espaço dramático do que as inteligências artificiais que costumam habitar os filmes do gênero. Suas linhas de diálogo trazem significados em diferentes níveis: o que ela diz, o que ela realmente quer dizer e o que ela não pode dizer – assim como os humanos que contracenam com ela. O resultado é uma história convincente, que caminha para o inesperado.

Cena do filme Ex Machina: Instinto Artificial
Ex Machina: Institinto Artificial: a supremacia das máquinas

Um cineasta talentoso 

        Alex Garland é mesmo um roteirista talentoso! Por seu trabalho em Ex Machina: Instinto Artificial, foi indicado para o Óscar em 2016. Seu texto é elegante e consegue passar naturalidade, mesmo quando precisa descrever e dar explicações sobre os desdobramentos científicos da trama. Como diretor, nos entregou um filme sofisticado, com senso de ritmo e boas doses de suspense. Pena que a produção chegou ao Brasil trazendo como apêndice esse subtítulo inoportuno!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a  direção segura de Alex Garland, a concepção audiovisual elegante e impecável, a trilha sonora envolvente e o ótimo trabalho de atores.

O que surpreende: a atmosfera de suspense vem atrelada a um apurado sendo de ritmo, misturando texto bem escrito com uma eloquência visual notável.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Ex Machina: Instinto Artificial

Ano de produção: 2015
Direção: Alex Garland
Roteiro: Alex Garland

Elenco:
  • Domhnall Gleeson
  • Oscar Isaac
  • Alicia Vikander
  • Sonoya Mizuno
  • Gana Bayarsaikhan
  • Corey Johnson
  • Claire Selby
  • Symara Templeman
  • Tiffany Pisani
  • Lina Alminas

Comentários

  1. Ótima crônica..depois dela só assistindo o filme👏👏!!

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    1. Obrigado, Priscilla. Espero que goste do filme.

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  2. Recomendo a entrevista com o brilhante Prof. Yuval Noah Harari, no link anexo. A entrevista dele me trouxe à mente este filme, e a brilhante crônica escrita pelo Fábio.


    https://youtu.be/oQMxYU6EYZQ?si=W7364CwMOB5WB7O3

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    1. Ah, Jorge, vou conferir a entrevista! Depois de ler Sapiens, fiquei fã do professor. E obrigado pelo feedback!!!

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  3. Octavio broglio09/03/2024, 10:34

    A crônica é um convite para assistir o filme. Certamente o farei. Mas seria bom o cara que trocou o título explicasse o motivo da escolha ..Grande abraço!!

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    1. Olá, Octavio, é ótimo tê-lo por aqui. Essas questões envolvendo os títulos dos filmes são sempre complexas. Os responsáveis costumam pensar promocionalmente, tentando ser mais vendedores. Às vezes se rendem a motivos mercadológicos.

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