O Fugitivo: filme estrelado por Harrison Ford

Direção: Andrew Davis

UM THRILLER À MODA ANTIGA, COMO JÁ NÃO FAZEM MAIS

Meu pai adorava assistir aos episódios de O Fugitivo. A série, exibida às noites no horário nobre, era sucesso nos anos 60. Ainda não tinha idade – nem paciência – para acompanhá-la, mas sabia o essencial: o Doutor Kimble era um médico acusado de matar a esposa e fugira para provar a inocência. Perseguido por um tenente implacável, saltava de cidade em cidade à procura do tal homem com apenas um dos braços, esse sim o verdadeiro assassino.
        Havia três certezas irrefutáveis na série. A primeira: o Doutor Kimble era inocente. A segunda: a cada episódio ele tentaria ajudar alguém, como bom médico que era, mas tinha a identidade revelada e precisava partir no final. A terceira: a cada episódio veríamos o desfile de atores e atrizes conhecidos, participando como convidados especiais. Essa fórmula rendeu 120 episódios em quatro temporadas, exibidas entre 1963 e 1967.
        Quando O Fugitivo foi lançado nos cinemas em 1993, estrelado por Harrison Ford e Tommy Lee Jones, os detalhes da série já estavam embaçados por uma espessa neblina nas minhas memórias de infância. Sua sinopse, no entanto, continuava vívida e sugeria que o filme, dirigido por Andrew Davis, proporcionaria um bom entretenimento. De fato, tornou-se um dos thrillers mais populares e até hoje continua animando os amantes do gênero.
        A filmografia de Andrew Davis é repleta de filmes de ação, a maioria sem qualquer relevância cinematográfica, mas em todos poderemos vê-lo exibindo suas virtudes e habilidades como diretor. Acostumado a entregar cenas bem realizadas, com ótimo senso de ritmo e timing preciso, ele realizou seu melhor trabalho quando pôs as mãos no roteiro de O Fugitivo.
        O sucesso dessa produção se deve a um conjunto de fatores, a começar pela força da história que ele nos conta. O protagonista é um homem sobre cuja inocência não paira qualquer dúvida, o antagonista é um homem implacável, determinado a fazer valer a lei e o vilão, um obscuro homem de um braço só, cuja identidade queremos todos descobrir.
        Acontece que O Fugitivo é Harrison Ford – sim, ele é o filme – e o perseguidor é Tommy Lee Jones, dois atores em seus melhores momentos. Ford era uma estrela consagrada nos filmes de ação e Jones recebeu o Óscar de melhor ator coadjuvante por seu papel nessa produção. É inegável, portanto, que a escolha do elenco acabou sendo fator decisivo de sucesso.
        Outro elemento que gostaria de ressaltar aqui é a qualidade do roteiro, escrito por Jeb Stuart, um experiente escritor que já havia assinado outro sucesso do gênero ação: Duro de Matar. O também experiente roteirista David Twohy recebeu créditos no filme, mas segundo os produtores envolveu-se apenas na famosa cena do acidente de trem, que custou caro e mobilizou muitos recursos técnicos.
        Roteirizar um filme de ação parece tarefa fácil, pois a energia narrativa é colocada toda sobre a ação externa aos personagens, enquanto que apenas as camadas psicológicas mais superficiais são trabalhadas. Tiros, perseguições, socos e pontapés... É fácil fantasiar o roteirista usando onomatopeias para indicar os pontos de virada de cada cena e orientar o trabalho do diretor. Mas não é nada disso. Num filme como O Fugitivo, tanto o Doutor Kimble como o delegado Sam Gerard agem em silêncio na maioria das cenas. Há poucos diálogos, que precisam estar a serviço da ação e da composição dos personagens.
        Ao roteirista, portanto, cabe a tarefa de dar aos atores algum material que possa ser encenado, ainda que apenas por meio da linguagem corporal e das expressões faciais. Isso exige uma compreensão de todo o fazer cinematográfico e a habilidade de trabalhar em equipe num contexto industrial. Jeb Stuart e David Twohy, dois dos melhores roteiristas de filmes de ação, fizeram um ótimo trabalho em O Fugitivo.
        O que mais chamou minha atenção nesse roteiro foi a solução inteligente encontrada para lidar com as cenas expositivas – quando os personagens precisam dar explicações para que o espectador possa compreender a história. O delegado Gerard e sua equipe são usados nessa tarefa, na medida em que mobilizam o aparato policial na perseguição por Kimble. Entre eles, os diálogos fluem com naturalidade, colocando o expectador à par dos fatos, sem tornar a exposição aborrecida e arrastada.
        Quando assistia à série O Fugitivo, ainda em branco e preto e na tela de baixa resolução da TV, meu pai certamente não levava nada disso em consideração. Para ele, o que importava era torcer para que algum dia o Doutor Kimble encontrasse o tal homem de um braço só. Fora preso na armadilha de suspense que os bons contadores de história costumam criar.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: O Fugitivo


Ano de produção: 1993
Direção: Andrew Davis
Roteiro: Jeb Stuart e David Twohy
Elenco: Harrison Ford, Tommy Lee Jones, Joe Pantoliano, Andreas Katsulas, Jeroen Krabbé, Sela Ward, Daniel Roebuck, Tom Wood, L. Scott Caldwell, Julianne Moore, Ron Dean, Joseph F. Kosala e Jane Lynch

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