Sociedade dos Poetas Mortos: ainda hoje, uma mensagem poderosa

Sociedade dos Poetas Mortos: filme de Peter Weir

CINEMA E LITERATURA NUMA RELAÇÃO SIMBIÓTICA

        – O livro é muito melhor do que o filme! Mais completo, mais descritivo. Revela detalhes que o diretor simplesmente ignorou.
        – Nada disso! O filme dá de dez a zero! É mais objetivo e tem um final mais inteligente.
        Discussões como essa são fáceis de encontrar em comentários nas postagens dos grupos de cinema. Com frequência acabam da mesma forma como começaram: ambos os lados saem com a mesma opinião que trouxeram. Soa arrogante dizer que tais discussões são inúteis, afinal elas trazem à tona informações relevantes para os apreciadores de cinema e literatura – além de serem um ótimo pretexto para interagir com gente que compartilha o mesmo prazer pelas artes narrativas. Prefiro lembrar que livro e filme são duas experiências sensoriais diferentes da mesma história e não podem ser comparados como se olhássemos irmãos gêmeos, tentando diferenciá-los nas miudezas. Nem sequer são irmãos. Talvez, no máximo, primos!
        A adaptação de um romance para as telas demanda um trabalho em duas etapas: primeiro, o roteirista converte o texto nas cenas descritivas e linhas de diálogo de um script – dito a grosso modo, é claro. Depois o diretor converte esse novo texto em linguagem audiovisual. No meio desse processo todo, muitas mudanças acontecem, seja para acomodar a produção à realidade do orçamento, seja para conferir maior fluência dramática nas encenações ou por decisões artísticas. Nenhuma adaptação cinematográfica resulta idêntica ao livro que a gerou.
        Isso não aconteceu com Sociedade dos Poetas Mortos, filme de 1989 dirigido pelo australiano Peter Weir, por um motivo muito simples: ele não nasceu como romance, mas como um roteiro, criado por Tom Schulman, um escritor com anos de experiência na indústria do cinema. Ele inclusive venceu o Óscar de melhor roteiro original por esse filme. Portanto, o livro Sociedade dos Poetas Mortos, escrito pela jornalista Nancy "N.H." Kleinbaum é resultado de uma transposição literária – trata-se do processo inverso de converter um filme num romance.
        Todo esse preâmbulo é para mostrar o tamanho sucesso que esse filme alcançou, a ponto de demandar uma versão em livro para satisfazer seus fãs incondicionais. Não é para menos. Ele nos conta uma história emocionante e envolvente, que lida com valores universais e flagra personagens carismáticos em pleno processo de amadurecimento. Talvez os jovens de hoje não se reconheçam refletidos de imediato, pois há no ar daquele final dos anos 1950 uma ingenuidade que já não respiramos nesses nossos dias de comportamentos mais ousados e... desavergonhados. Mas as mensagens do filme continuam válidas.
        Sociedade dos Poetas Mortos conta a história de Todd Anderson (Ethan Hawke), um garoto tímido que chega para estudar na Academia Welton, uma escola preparatória em regime de internato, considerada uma das melhores nos Estados Unidos. Logo está entrosado com os colegas, seguindo uma rotina rígida e disciplinada de estudos das ciências exatas. Eis que surge o novo professor de inglês e literatura, John Keating (Robin Williams) e subverte a rotina, apresentando aos alunos aquilo que o estudo da língua e da poesia tem de melhor: liberta e pensamento, estimula a paixão, atiça o desejo de viver uma vida extraordinária e de “aproveitar o dia”. O professor também estimula os alunos a refundar uma suposta Sociedade dos Poetas Mortos, que ele mantinha quando era estudante na mesma escola. Inspirados, os garotos passam a expressar suas individualidades e lutar pelos seus sonhos, mas o peso da autoridade e das tradições impostas por uma instituição tão conservadora, cobrará deles um preço alto demais.
        Para criar essa história, o roteirista se inspirou em personagens que permearam sua vida pessoal, como um professor de inglês que lhe deu aulas no ensino médio. Mas o ator Robin Williams foi decisivo na caracterização do professor Keating e fez pequenas contribuições nas falas do personagem. O diretor australiano Peter Weir também gerou intervenções no roteiro, especialmente no final. Originalmente o personagem de Robin Willians estava sofrendo de uma doença terminal e morria no final. Acreditando que um professor moribundo despertaria pena nos alunos, o diretor eliminou a doença e deixou claro que os jovens estavam defendendo acima de tudo os ensinamentos que receberam.
        Quando a jornalista Nancy Kleinbaum iniciou a transposição literária, o filme ainda estava sendo rodado. Ela precisou lidar com partes do roteiro original que foram cortadas e elementos que foram acrescentados nos sets de filmagem. Além disso, a história original de Schulman trazia clara inspiração em romances clássicos da literatura americana, cuja atmosfera e contexto literário precisaram ser respeitados. Ela fez um bom trabalho, levando para as livrarias do mundo uma história universal e popular.
        Sociedade dos Poetas Mortos nos trouxe grandes ensinamentos. Ainda hoje nos faz acreditar que é possível mudar o mundo, desde que saibamos expressar nossas individualidades e viver com mais ousadia e criatividade. É isso. Aproveitem o dia!



Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: Sociedade dos Poetas Mortos


Ano de produção: 1989
Direção: Peter Weir
Roteiro: Tom Schulman
Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard, Allelon Ruggiero, Gale Hansen, Josh Charles, Dylan Kussman, James Waterston, Norman Lloyd, Kurtwood Smith, Carla Belver, Leon Pownall, George Martin e Matt Carey

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