Crítica | O Homem Que Viu o Infinito: Matt Brown realizou uma excelente cinebiografia de Srinivasa Ramanujan, interpretado por Dev Patel

O Homem Que Viu o Infinito: filme dirigido por Matt Brown
TODA A MODÉSTIA QUE NÃO SE ESPERA DE UM GÊNIO
Quando o filme O Homem Que Viu o Infinito, escrito e dirigido em 2015 por Matt Brown, se ofereceu diante dos meus olhos no serviço de streaming, relutei em assistir. Sempre atuei na área de humanas e a biografia de um matemático – um dos grandes, cujo nome já havia ouvido em algum lugar – não era exatamente o que procurava como entretenimento naquela noite. No entanto, as presenças de Dev Patel e Jeremy Irons no elenco me estimularam. Apertei o play e torci para que a matemática ficasse todo o filme em segundo plano. Para minha satisfação, foi isso que aconteceu.
Orçamento baixo, mas altas qualidades narrativas
A vida atribulada de Srinivasa Ramanujan, o gênio indiano que trouxe importantes contribuições para a matemática, revelou-se aos poucos, num filme envolvente e construído com apuro narrativo. Logo percebemos que a produção não é tão endinheirada como aquelas que costumam resultar em cinebiografias hollywoodianas de sucesso, mas isso não prejudicou o enredo. Matt Brown, que escreveu o roteiro e assumiu a direção, faz um trabalho correto, sem grandes ousadias criativas e com toda a prudência que cabe a um cineasta com pouca experiência.
O Homem Que Viu o Infinito: um gênio da matemática com sólidas contribuições à ciência
Matemática x valores familiares
O filme conta como Srinivasa Ramanujan (Dev Patel), um rapaz pobre e esforçado que vive na cidade indiana de Madras às vésperas do Século XX, se destaca graças às suas habilidades com os números. Logo ele deixa o trabalho braçal e é transferido para os serviços de contabilidade. Incentivado pelos patrões, que enxergam seu potencial, busca entrar em contato com professores universitários para tentar ingressar no mundo acadêmico da matemática. Casado com Janaki (Devika Bhise), o jovem Ramanujan vive na casa da mãe (Arundhati Nag), apegado a fortes valores familiares e tradições religiosas.

O Homem Que Viu o Infinito: Jeremy Irons e Dev Patel em ótimas atuações
Quando G.H. Hardy (Jeremy Irons), um dos mais importantes matemáticos do mundo convida Ramanujan para ingressar na Universidade de Cambridge, tal oportunidade se transforma num dilema; terá que se afastar da família e suas tradições religiosas, para assumir uma vida de isolamento e trabalho intenso na Inglaterra. Ele aceita a oferta de Hardy, mas sofre com preconceitos, provações e uma saudade imensa da família e do seu país. Realizou uma fértil empreitada, que revolucionou o mundo da matemática, mas por ela pagou um alto preço.
Uma simplicidade genial
O que mais salta aos olhos em O Homem Que Viu o Infinito é a densidade do seu protagonista. Se tivermos que pintar o retrato de um gênio, reconhecido e admirado por seus pares, certamente carregaremos nas cores da altivez e da autoconfiança – eventualmente reforçaríamos os contornos com fortes traços de arrogância e empáfia. Nada disso enxergamos em Ramanujan, um homem que preferia atribuir sua genialidade aos desígnios de Deus; que contabilizava seus feios não como conquistas, mas como tarefas missionárias; que não se via como autor, mas como instrumento a serviço do divino. Seu traço mais marcante era, por certo, a modéstia.

O Homem Que Viu o Infinito: um gênio apaixonado por números
Muita pesquisa e dedicação
Não foi à toa que Matt Brown decidiu contar a história de Srinivasa Ramanujan, assim que leu o livro The Man Who Knew Infinity, escrito em 1991 por Robert Kanigel. Lá o autor conta a trajetória do indiano para os amantes da matemática, que veneram sua obra; ao mesmo tempo, consegue deixar sua ciência mais acessível, ao trazer à tona a imensa paixão pelos números que ele cultivava. Porém, a adaptação para o cinema feita pelo diretor focalizou o drama humano vivido pelo protagonista, num processo que consumiu 12 anos de pesquisas e investigações. Além de ter se tornado amigo próximo de Robert Kanigel, Matt Brown empreendeu pesquisas minuciosas em inúmeras instituições, para garantir a precisão histórica do seu roteiro.A matemática como linguagem
Não é preciso entender de matemática para apreciar O Homem Que Viu o Infinito. Aliás, meu conhecimento da matéria é irrisório. Quando frequentei o curso técnico em eletrônica, no ensino médio, estudei alguns conceitos avançados, mas tão logo entrei para a faculdade de comunicação, esqueci tudo. Tudo mesmo! A única lembrança que guardei foi a noção da matemática como uma poderosa linguagem, capaz de dar materialidade a conceitos abstratos; invejo os que conseguem enxergá-los apenas de olhar os números. O diretor Matt Brown conseguiu retratar essa qualidade no protagonista, com a ajuda de um Dev Patel em ótima atuação.

O Homem Que Viu o Infinito: apego aos valores culturais, familiares e religiosos
Respeito e admiração pelo protagonista
Talvez um diretor mais calejado, com sólidas articulações espalhadas pela indústria do cinema, fosse capaz de ousadias mais criativas; porém, se quisesse realizar um filme melhor sobre a vida de Srinivasa Ramanujan, teria que partir do mesmo patamar de respeito e admiração que Matt Brown nutriu por esse gênio indiano, tão apegado aos seus valores culturais, religiosos e familiares.
Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: o roteiro bem escrito, as atuações de Dev Patel e Jeremy Irons e a trilha sonora envolvente.
O que decepciona: a direção protocolar de Matt Brown, junto com as limitações orçamentárias, prejudicaram a concepção visual do filme. Ainda assim o resultado narrativo é envolvente.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme O Homem Que Viu o Infinito
Título original: The Man Who Knew InfinityAno de produção: 2015
Direção: Matt Brown
Roteiro: Matt Brown
Elenco:
- Dev Patel
- Jeremy Irons
- Devika Bhise
- Toby Jones
- Stephen Fry
- Jeremy Northam
- Kevin McNally
- Enzo Cilenti
- Arundhati Nag
- Dhritiman Chatterjee
- Shazad Latif
- Roger Narayan
Comentários
Postar um comentário