Loucos por Justiça: Mads Mikkelsen não está para brincadeiras

Cena do filme Loucos por Justiça
Loucos Por Justiça: filme de Anders Thomas Jensen

SALTANDO DE GÊNERO EM GÊNERO, SEM PERDER A VEROSSIMILHANÇA

Close no militar embrutecido pelo estresse pós-traumático, tão calejado de guerra que só consegue enxergar o mundo pela perspectiva da violência. Transformado em máquina de guerra poderosa e incontrolável, sua razão de ser é causar dor nos inimigos incautos que cruzam seu caminho. Suas feições gélidas intimidam. Seu olhar não deixa entrever qualquer emoção. Suas expressões jamais se alteram. É... Não restam dúvidas, estamos diante de um personagem padrão nos filmes de ação hollywoodianos. Mas espere! Esse é um filme dinamarquês! E repare bem: a mente do tal militar não é um recipiente vazio de emoções! Elas fervilham em aflição e angústia. Escapam pelas microexpressões do ator! E que ator é esse? O Mads Mikkelsen, com a cabeça raspada e uma barba imensa! Ah, esse Loucos Por Justiça, filme de 2020 dirigido por Anders Thomas Jensen é mesmo de prender a atenção!
        Uma única etiqueta é insuficiente para classificar esse filme. Ação, drama, comédia... Há de tudo um pouco, como resultado das decisões de diversos personagens, todos complexos e densos – não foram construídos com lego, à base de blocos de clichês! As sequências são surpreendentes e imprevisíveis, alternando passagens de humor negro, investigação, rompantes de violência, reflexões intimistas, vingança... Vamos direto à sinopse:
        Markus (Mads Mikkelsen) é um soldado nas lonjuras do Afeganistão, onde parece estar se refugiando das dificuldades de relacionamento com sua esposa Emma (Anne Birgitte Lind) e a filha adolescente Mathilde (Andrea Heick Gadeberg). Acontece que um trágico acidente leva a vida de Emma e obriga o militar a retornar a Copenhague para cuidar de Mathilde. Não bastasse a dor da tragédia, surge à sua porta o nerd Otto (Nikolaj Lie Kaas), acompanhado dos amalucados Lennart (Lars Brygmann) e Emmenthaler (Nicolas Bro), afirmando ter provas de que o acidente que levou sua esposa foi arquitetado por figurões do crime organizado. Agora, tudo o que importa a Markus é vingar a morte da esposa. Nada de polícia, manobras jurídicas ou interferências estatais. Tudo será resolvido por suas próprias mãos, na base dos socos, tiros e pontapés. Os criminosos saberão que mexeram com os sujeitos errados. Mas espere! São errados, mesmo! Apesar de inteligentes, engraçados e habilidosos com as traquitanas tecnológicas, o trio de amalucados tem potencial de sobra para complicar a vida de Markus e levar essa história a qualquer desfecho.
        Há muita brutalidade em Loucos Por Justiça, mas também encontramos espaço para boas risadas em passagens inusitadas de comédia existencial. Todos os personagens irradiam ódio, medo, desespero, desejo de vingança e busca por justiça. São guiados pela necessidade de encontrar a cura para suas dores profundas e dilacerantes. Alguns, como Markus, fazem isso por meio das suas atitudes violentas. Outros, como Otto, tentam usar a lógica para encontrar uma suposta ordem no caos. Estão desconfortáveis com a normalidade que a sociedade insiste em cobrar de cada um. Nenhum deles é tolo ou idiota. Têm caráter, valores e um forte sentido de família.
        O roteiro de Loucos Por Justiça é assinado pelo próprio Anders Thomas Jensen. Ele conta que a ideia para o filme nasceu de uma crise de meia idade, que o pôs a questionar os rumos que sua vida estava tomando. A história, uma fantasia altamente dramatizada, foi costurada ao redor do personagem Markus, um sujeito que não consegue se conectar com suas próprias emoções. Em contraposição ele criou personagens que enxergam as conexões em tudo, mas também se sentem deslocados em relação ao resto do mundo. Decidido a brincar com uma mistura de gêneros, o diretor soube intercalar as abordagens dramáticas e cômicas, sem causar estranhamento. Fez isso criando três núcleos: de um lado temos Markus e a filha Mathilda vivendo um drama triste e penoso, de outro, temos os nerds beirando o caricato, mas no meio temos Otto, que faz a ponte entre os dois núcleos e assegura a verossimilhança dramática.
        O que me surpreendeu ao pesquisar sobre Loucos Por Justiça foi saber que o cinema dinamarquês valoriza – e muito – a improvisação. Mas por lá, o conceito de improviso é um tanto diferente daquele com o qual nós, brasileiros, estamos familiarizados. O diretor conta que escreveu o primeiro tratamento do roteiro e depois se encontrou com os atores. Na reunião descontraída, regada a cerveja, os atores discutiram e acrescentaram sugestões. Jensen voltou para a máquina de escrever, concluiu o tratamento final, e pronto! Durante as filmagens, o roteiro foi seguido à risca. O improviso está todo lá, mas aconteceu antes das câmeras serem ligadas!
        Assistindo a Loucos Por Justiça é fácil perceber que a energia criativa do filme vem do enorme entrosamento entre todos os envolvidos. Há descontração e jogo de cintura, mas há um jeito de filmar compenetrado e eficiente. A filmografia de Anders Thomas Jensen é extensa e muitos dos seus filmes são resultado de uma sólida parceria com o ator Mads Mikkelsen. Ambos se entendem muitíssimo bem! Numa analogia talvez imprópria, ouso dizer que eles funcionam como uma banda afinada de jazz nórdico – como a do saxofonista norueguês Jan Garbarek, que vez ou outra me dedico a ouvir!

Resenha crítica do filme Loucos Por Justiça

Título original: Riders of Justice
Ano de produção: 2020
Direção: Anders Thomas Jensen
Roteiro: Anders Thomas Jensen
Elenco: Mads Mikkelsen, Nikolaj Lie Kaas, Andrea Heick Gadeberg, Lars Brygmann, Nicolas Bro, Gustav Lindh, Roland Møller, Albert Rudbeck Lindhardt, Anne Birgitte Lind, Omar Shargawi, Jacob Lohmann, Henrik Noël Olesen e Gustav Dyekjær Giese

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