O Homem da Máfia: adaptado do livro escrito por um virtuoso dos diálogos

Cena do filme O Homem da Máfia
O Homem da Máfia: dirigido por Andrew Dominik

PERSONAGENS QUE FALAM, FALAM... E SE REVELAM!

Tom de voz, microexpressões, figurinos, o jeito de andar, o gestual... Um ator se vale de diferentes recursos para melhor caracterizar seu personagem, buscando transmitir verossimilhança e profundidade dramática. O diretor também faz a sua parte: mantém a câmera a uma distância adequada, imprime o ritmo certo para a cena, escolhe enquadramentos expressivos, uma música incidental pertinente, a luminosidade apropriada... Quando esse conjunto toca afinado o resultado é... cinema! Mas acontece que uma boa história não pode ser contada apenas com elementos cosméticos. É preciso revelar a verdade do personagem. É preciso explicitar suas intenções, escancarar seus segredos, radiografar o que se passa no seu inconsciente... Quem faz isso é o roteirista! E o faz por meio de um poderoso recurso narrativo: o diálogo. O Homem da Máfia, filme de 2012 dirigido por Andrew Dominik, é um filme que valoriza as falas e se vale delas para apresentar personagens que vão além dos clichês.
        Sim, O Homem da Máfia é um filme de gângsteres, com todos os elementos que o gênero consagrou. É baseado no romance intitulado Cogan's Trade, escrito em 1974 por George V. Higgins. E isso já nos diz muito! Higgins é um autor consagrado, com mais de trinta livros publicados, lembrado principalmente por seus romances policiais. Dono de um estilo marcante, consolidou o que se convencionou chamar de gênero neo-noir de Boston, que influenciou vários escritores e cineastas. Seus contos frequentaram as páginas da revista New Yorker, onde falavam sobre personagens recorrentes. Ajudaram a consolidar o imaginário do público em torno do universo dos gângsteres. A marca registrada desse autor era a habilidade para construir diálogos realistas. Como advogado e ex-procurador de justiça, conseguia transcrever as falas que ouvia dos criminosos, num nível de precisão inédito para a época, com uma notável atmosfera de autenticidade.
        O livro de Higgins, construído com diálogos ásperos, esbanja humor corrosivo para nos contar uma história tensa e nervosa. É sobre homens inconsequentes, que roubam da máfia e terminam perseguidos pelos criminosos encarregados de fazer valer as regras e executar as punições cabíveis. Cogan é o profissional contratado para matar, que chega cumprindo seu ofício com meticulosidade e frieza. Habilidoso e sagaz, sabe lidar com as fraquezas das pessoas e se move com precisão. É infalível! É violento! Os personagens de Higgins são tagarelas e se revelam uns aos outros em conversas longas e banais, remetendo a assuntos paralelos desimportantes, mas que dizem muito sobre eles, seus interesses, suas motivações, seus valores – ou ausência deles. A adaptação de Andrew Dominik, que resultou nesse O Homem da Máfia, bebe nessa fonte, mas trouxe a trama para a Nova Orleans de 2008. Vejamos a sinopse:
        Num cenário de crise econômica, crepitado pela campanha eleitoral vitoriosa de Barack Obama, três criminosos rasteiros traçam um plano arriscado: invadir um carteado clandestino da máfia e roubar o dinheiro do jogo. O cabeça é Johnny Amato (Vincent Curatola), que enxerga uma oportunidade nos antecedentes de Markie Trattman (Ray Liotta), o gerente do local. Há alguns anos, sua banca já havia sido assaltada por dois meliantes, mas por uma conjunção de fatores mal explicados, foi considerado inocente. Se a história se repetir, o gerente incauto terá que se explicar de novo e dessa vez não será perdoado. Com a culpa recaindo sobre ele, quem roubar o carteado sairá incólume. A ideia é imediatamente comprada pelo inconsequente Frankie (Scoot McNairy), que recruta a ajuda do viciado Russel (Ben Mendelsohn). Feito amadores, os dois partem para invadir o local, munidos de coragem e sangue frio! E não é que conseguem? Saem com a grana e também com o destino selado. Para descobrir os destrambelhados e punir todo mundo, a máfia convoca Jackie Cogan (Brad Pitt). Mas há um meliante que o conhece pessoalmente, então Jackie precisa chamar Mickey (James Gandolfini), outro assassino de aluguel, ressaltando que todas as vítimas devem ser executadas de forma... cuidadosa e gentil – o título original do filme é Killing Them Softly! Mas suavidade não é algo fácil de conseguir quando há gângsteres envolvidos!
        O diretor neozelandês Andrew Dominik, conhecido por seu brilhante filme O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, encontrou o tom certo para realizar este seu O Homem da Máfia. Segue com ousadia na contramão do manual dos cineastas de Hollywood, que diz ser melhor dramatizar do que pôr os personagens para tagarelar. Impõe um ritmo descompassado, ora ligeiro ora modorrento, exatamente como acontece na vida! Conduz as inevitáveis cenas violentas como se elas acontecessem a contragosto dos personagens, que parecem calcular o alto custo emocional de se tirar vidas. Deixa que todos se comportem como profissionais entediados, chateados com a mesmice.
        Em O Homem da Máfia, Andrew Dominik faz jus ao romance de Higgins e transforma os diálogos no ponto forte do seu filme. Enquanto os textos e subtextos intermináveis vão se desenrolando, os personagens revelam o que de fato desejam e o que estão dispostos a fazer para consegui-lo. Curiosamente, os políticos também passam o filme a tagarelar, fazendo promessas e arrotando soluções. Também sabemos o que de fato desejam e o que estão dispostos a fazer para consegui-lo!

Resenha crítica do filme O Homem da Máfia

Título original: Killing Them Softly
Ano de produção: 2012
Direção: Andrew Dominik
Roteiro: Andrew Dominik
Elenco principal: Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, ichard Jenkins, Vincent Curatola, Ray Liotta, Trevor Long, Max Casella, Sam Shepard e Slaine

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