Patch Adams - O Amor É Contagioso: uma história real

Cena do filme Parch Adams - O Amor é Contagioso
Patch Adams - O Amor É Contagioso: dirigido por Tom Shadyac

SOBROU COMÉDIA E AÇUCAR, FALTOU O DRAMA

Há muitos erros em Patch Adams - O Amor é Contagioso, dirigido em 1998 por Tom Shadyac. Mas há pelo menos dois acertos que ajudaram a conquistar uma legião de fãs para o filme. O primeiro deles foi trazer à tona um tema sensível, que sempre resvalou nossas vidas, ainda que não nos déssemos conta: a impessoalidade com a qual somos tratados pela classe médica. De repente, nos damos conta de que saúde e doença são estados que expressam a nossa individualidade, mas a sociedade teima em enxergá-los como manifestações padronizadas, que só se materializam no coletivo. Os sintomas servem apenas para levar ao diagnóstico. Os tratamentos que funcionam com uns, devem funcionar com a maioria. A cura é um processo que vem ao nosso encontro, de fora para dentro... Enquanto tais conceitos questionáveis saltam aos olhos, o filme nos faz confrontar duas realidades, que se tangenciam: de um lado, a angústia do paciente que está em busca de cura, de outro, a aflição de médico que tenta ajudar como pode. Ambos sofrem.
        Mas espere! Falando dessa maneira, nem parece que estamos tratando de Patch Adams - O Amor é Contagioso, uma comédia rasa e escrachada, realizada para ser mais um sucesso das férias de verão. Sim, caro leitor, é justamente aí que começam a aparecer os muitos erros desse filme. Os realizadores se agarraram apenas na oportunidade de fazer comédia e se esqueceram de aproveitar as oportunidades dramáticas. E nas poucas ocasiões que o fizeram, caíram na pieguice. Preferiram o conforto da superficialidade e a comodidade de lidar apenas com os estereótipos. Mas antes de continuar, é preciso lembrar de que essa é uma história real. Deixe-me apresentar uma sinopse do filme:
        Patch Adams (Robin Williams) é um desassossegado. Interna-se voluntariamente num hospital psiquiátrico, despois de uma tentativa de suicídio. Lá, convivendo com outros pacientes, descobre que o humor – capacidade que ele tem de sobra – é um poderoso remédio e pode ser empregado junto com outras terapias para melhorar a qualidade de vida durante o tratamento. Pronto! Decide ele mesmo se tornar um médico, imbuído de um autêntico desejo de ajudar as pessoas. Entra para a Faculdade de Medicina da Virgínia e chama a atenção de todos pelo desempenho nas notas e pela crença de que é possível usar uma abordagem mais humana no trato com os pacientes. Também vira desafeto do reitor Dean Walcott (Bob Gunton). Em pouco tempo, começa a sonhar grande. Com a ajuda dos amigos Truman Schiff (Daniel London), Mitch Roman (Philip Seymour Hoffman) e Carin Fisher (Monica Potter) – com quem viverá um romance – ele transforma uma velha casa numa clínica, onde presta atendimento gratuito e lança as bases para consolidar a fundação de um hospital dedicado a difundir sua causa, o Instituto Gesundheit! Mas as pedras no meio do caminho de Patch Adams serão várias e pesadas. Ele terá que disputar no tribunal com a instituição de ensino, que questiona seus métodos e põe em cheque seu futuro como médico.
        Patch Adams - O Amor é Contagioso é baseado no livro Gesundheit: Good Health Is a Laughing Matter, escrito em 1993 pelo próprio Patch Adams em colaboração com Maureen Mylander. Quem escreveu a adaptação para as telas foi o roteirista Steve Oedekerk, antigo colaborador do diretor Tom Shadyac. Ambos foram responsáveis pelas tolas comédias Ace Ventura – Um Detetive Diferente e O Professor Aloprado – mais tarde conseguiriam resultado melhor em Todo-Poderoso. O roteiro de Oedekerk tem passagens engraçadas, mas é previsível. O sentido dramático da história acaba diluído em uma infinidade de personagens estereotipados – o reitor intransigente e aferrado ao poder, o colega de quarto que começa como rival e acaba se rendendo à boa índole do protagonista, a colega com quem ele tem um romance atrapalhado... Mas as caricaturas ficam mais exageradas justamente no terceiro ato, quando acompanhamos o confronto jurídico de Patch Adams com a administração da faculdade. Na maior parte do tempo, o texto segue açucarado, privilegiando as piadas que se sucedem, algumas de fato muito engraçadas.
     Mas espere! Lá no começo do texto havia mencionado um segundo acerto, que faz elevar o nível de Patch Adams - O Amor é Contagioso. A essa altura, o leitor já deve ter intuído que vou me referir à excelente atuação de Robin Willians. Sim, se vale a pena falar sobre esse filme, é porque o ator se esforçou o que pode para salvá-lo. Ele faz milagres com as falas precárias que lhe deram e tenta alternar os momentos comoventes com o humor escrachado, impondo uma certa... profundidade emocional. Ainda assim, a sua performance não resolveu os problemas de um roteiro exageradamente sentimental e manipulador – basta atentar para a trilha sonora melosa, para perceber a intenção de entregar pacotes prontos de emoção para o espectador.
        O Pach Adams aqui retratado como um santo, usava nariz de palhaço porque acreditava que doses exageradas de humor ajudavam a aliviar as tensões dos pacientes e possibilitava estabelecer com eles um relacionamento mais humano. O Patch Adams da vida real teceu pesadas críticas ao filme. Viu sua imagem reduzida à de um palhaço, tolo e superficial. Concluiu que a enorme projeção que recebeu não trouxe resultados concretos para o seu projeto altruísta, conforme manifestou em palestras e entrevistas.
        Se a história inusitada desse personagem interessante tivesse recebido um tratamento mais sóbrio, pelas mãos de realizadores mais comprometidos com o cinema, talvez tivéssemos muito mais acertos do que erros nesse filme.

Resenha crítica do filme Patch Adams - O Amor É Contagioso

Ano de produção: 1998
Direção: Tom Shadyac
Roteiro: Steve Oedekerk
Elenco principal: Robin Williams, Daniel London, Philip Seymour Hoffman, Bob Gunton, Monica Potter, Frances Lee McCain, Irma P. Hall, Josef Sommer, Harold Gould, Bruce Bohne, Harve Presnell, Michael Jeter, Barry Shabaka Henley, Harry Groener, Richard Kiley e Ryan Hurst

Comentários

  1. Belíssima descrição do filme no texto, pois assisti e, como leigo, nas críticas gostei muito. Mas toda obra assim nos deixa uma mensagem ou um alerta, no caso aos médicos. Há pouco tempo tenho notado médicos simpatizantes e frequentadores da Doutrina Espírita. Nas casas de tratam da saúde há uma mudança de tratamento ao paciente, que antes era tratado como cliente. Talvez até o filme tenha alguma influência nisso. A nova versão, pois há outra mais antiga.

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  2. Muito obrigado. Há muitas mensagens a serem extraídas desse filme muito bem realizado.

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