Crítica | Adeus, Lenin!: Wolfgang Becker filma uma comédia dramática sutil, enaltecendo os valores familiares

Adeus, Lenin!: filme de Wolfgang Becker
À PROCURA DA FELICIDADE, APESAR DO ESTADO
Em 1989, a queda do muro de Berlim foi transmitida ao vivo e em cores para o resto do mundo. Cenas de jovens eufóricos, empoleirados em festa ao som de uma trilha sonora moderna e nervosa, anunciavam o começo de uma nova era de liberdade. Não havia mais espaço para os desmandos autoritários, vícios burocráticos ou interferências de um estado policial sustentado à base de privilégios para os dirigentes; os cidadãos da RDA faziam questão de mostrar que não queriam mais ser tutelados pela coletividade. Aqueles foram dias e noites de uma espécie de carnaval fora de época, que deixaram implícita a inevitável chegada de uma quarta-feira de cinzas com gosto azedo de ressaca; e ela chegou rápido para os alemães!Uma comédia dramática com sotaque germânico
O processo de reunificação foi complexo, penoso e ligeiro; em pouco mais de dez anos, já não se encontravam vestígios da vida que se levava intramuros. Quando o cineasta Wolfgang Becker realizou Adeus, Lenin!, em 2003, precisou empreender um esforço quase arqueológico para conseguir retratar seus personagens e ambientar sua história. Valeu a pena! Seu filme se tornou uma deliciosa comédia comédia dramática – bem ao estilo germânico –, permeada de momentos emocionantes e envolta numa atmosfera otimista e esperançosa.

Adeus, Lenin!: Wolfgang Becker realizou uma ótima comédia dramática
Tentando levar uma vida normal, apesar da RDA
A queda do muro de Berlim e o processo de reunificação da Alemanha são temas que armazenam alta voltagem política. Abrem espaço para revanchismos, revisionismos, proselitismos, achismos... O diretor, no entanto, não caiu nessas armadilhas. Concentrou-se no drama familiar vivido por seus personagens e não se deteve nos estereótipos. Fez questão de mostrar os indivíduos que tentavam levar uma vida normal na RDA, apesar da RDA; evitou trazer os seres políticos para o primeiro plano: seus closes são para os filhos, os pais, os amigos, os amores... Nesse processo, encontrou elementos de sobra para desenvolver seu humor sutil e refinado, sem desprezar os inevitáveis momentos de melancolia. Mas antes de falar dos aspectos narrativos, vamos à sinopse:
Sinopse: depois de nove meses, um mundo novo
Aos 11 anos, Alex Kerner (Nico Ledermüller) era criativo, sonhador e apaixonado por foguetes. Seu herói era o cosmonauta da Alemanha Oriental Sigmund Jähn, que se tornou o primeiro alemão a viajar pelo espaço. O garoto amargou as dores do abandono, quando o pai escapou para o lado ocidental e deixou a família. Sua mãe, Christiane (Katrin Saß), entrou em estado catatônico, para em seguida se recuperar e “casar” com a pátria socialista, tornando-se uma cidadã comprometida com a causa coletivista. Os anos passam e, em 1989, Alex Kerner (Daniel Brühl) ainda vive com a mãe e a irmã Ariane (Maria Simon), mas está longe de ser um entusiasta do regime; participa de manifestações contra as comemorações dos 40 anos da RDA e é flagrado pela mãe. Decepcionada, Christiane tem um infarto, é levada para o hospital e permanece em estado de coma.

Adeus, Lenin!: Daniel Brühl despontou para o cinema
É então que tudo acontece! O mundo se transforma, o muro cai, o socialismo se esfarela e os “nefastos” hábitos de consumo do ocidente dominam o lado oriental da cidade. Enquanto Christiane dorme, Alex e Ariane se adaptam à nova vida, ele como vendedor e instalador de antenas parabólicas e ela como atendente do Burger King. Mas eis que a mãe acorda depois de nove meses. Alex fará de tudo para que ela recupere a saúde, mas os médicos alertam: ela não pode se estressar. Então, o filho dedicado a leva para casa, determinado a fazê-la acreditar que ainda vive sob o manto da RDA. Móveis, roupas, produtos de consumo e até os programas de TV, tudo é recriado à perfeição, para que Christiane continue seu sonho socialista. Mas é claro que o plano de Alex só pode acabar em confusão.
Uma distopia particular
Em Adeus, Lenin!, o humor jamais escorrega para a palhaçada. É contido, mas consegue arrancar boas risadas. Enquanto os letreiros da Coca-Cola e os carros franceses invadem as ruas, Alex cria uma verdadeira distopia que só existe no aparelho de TV instalado no quarto da mãe. Com a ajuda de um colega, produz noticiários falsos e manipula a informação, exatamente como faziam os dirigentes socialistas. E o rapaz ainda precisa correr Berlim à cata dos tais picles de Spreewald, uma iguaria exclusiva da RDA! Enquanto mostra o empenho da família em se reestruturar, o diretor consegue extrair emoções verdadeiras dos personagens; enaltece o sacrifício de todos em nome do amor que os une.

Adeus, Lenin!: uma diversidade de pontos de vista
Um esforço arqueológico
O diretor Wolfgang Becker e seu roteirista, Bernd Lichtenberg, foram a campo para descobrir como era a vida no lado oriental e reunir subsídios. Fizeram uma pesquisa minuciosa e conheceram jovens que viveram o episódio da queda do muro; descobriram uma diversidade de pontos de vista. Havia os sufocados pela pressão política, mas também os que não davam a mínima para o tema. Alguns sofreram muito, enquanto outros traziam bons momentos na memória, já que se acomodaram à vida de restrições. Concluíram que poderiam caracterizar Alex como um jovem sensível e sonhador, às voltas com as dores do abandono, mas aberto às novidades ocidentais que se abriam diante dos seus olhos.Gente de carne e osso
Adeus, Lenin! trouxe para as telas um pouco da vida cotidiana dos alemães orientais. Não aquela sufocada e reprimida, que Florian Henckel von Donnersmarck nos mostrou no filme A Vida dos Outros, de 2006. Aqui os personagens encontram na individualidade e na capacidade de sonhar, um motor para ajudá-los a tocar vida e perseguir dias melhores. O que vemos é gente de carne osso, à procura da felicidade!Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Wolfgang Becker, o roteiro que oferece um bom equilíbrio entre humor e melancolia, as ótimas atuações e a recriação de época.
O que complica: as idas e vindas em flashbacks quebram o ritmo da narrativa e algumas tramas paralelas desviam o foco dos personagens centrais.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Adeus, Lenin!
Ano de produção: 2003Direção: Wolfgang Becker
Roteiro: Wolfgang Becker e Bernd Lichtenberg
Elenco:
- Daniel Brühl
- Nico Ledermüller
- Katrin Saß
- Chulpan Khamatova
- Maria Simon
- Florian Lukas
- Alexander Beyer
- Burghart Klaußner
- Michael Gwisdek
- Christine Schorn
- Jürgen Holtz
- Jochen Stern
- Ernst-Georg Schwill
- Eberhard Kirchberg
- Hans-Uwe Bauer
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