Última Chance: um policial em constante estado de perseguição

Cena do filme A Última Chance
Última Chance: direção de Steven C. Miller

QUAL É MESMO O TÍTULO DAQUELE FILME?

Segunda-feira à noite, esparramado no sofá, controle remoto na mão, navegando pelos serviços de streaming à cata de entretenimento... O risco de fazer a escolha errada e terminar decepcionado é imenso. Ainda assim, sou viciado nesse jogo! Mesmo quando aposto em um filme que se releva ruim, tento tirar algum proveito, alguma lição. Última Chance, dirigido em 2019 por Steven C. Miller, tem poucos ensinamentos para oferecer no campo cinematográfico, mas faz refletir sobre o imbróglio no qual estamos nos metendo enquanto sociedade hiperconectada. Mas antes de entrar nesse mérito, vamos pôr à mesa uma sinopse, para deixar claro que se trata de uma produção repleta de cartas marcadas.
        Frank Penny (Aaron Eckhart) é outro daqueles policiais duros de matar, sem um passado que lhe dê base psicológica, caráter ou moral. Tudo o que temos para caracterizá-lo é o uniforme azul e a estampa do ator que o interpreta, contaminada pelos inúmeros filmes dos quais já participou. Ele atende a um chamado pelo rádio e sai numa perseguição desenfreada pelas ruas da cidade, buscando encontrar um sujeito que só faz correr desesperadamente. Quem também se mete na perseguição é Ava Brooks (Courtney Eaton), uma jovem que se acredita repórter – trabalha para um canal do YouTube dedicado às notícias, cuja missão é levar a “realidade sem filtros” para o público da internet. Ela também não tem um passado a lhe dar sustentação. Nas mãos, traz uma poderosa câmera, que transmite sons e imagens em tempo real. Na cabeça, a ideia de que é a dona da verdade. Quando o policial e a youtuber se encontram, ficamos sabendo que o motivo de tanta correria é um sequestro: a filha do chefe de polícia Volk (Giancarlo Esposito) está aprisionada numa caixa hermética, que se enche de água e estará totalmente inundada em 63 minutos! Pronto! O filme vira uma corrida contra o relógio, transmitida ao vivo para todos os habitantes da cidade, que assistem a tudo pelos celulares, como se tratasse de mais um reality show.
        Última Chance é um festival de clichês, realizado de acordo com os padrões da indústria. É um filme tecnicamente bem executado, com direção ágil e edição habilidosa, que segue num ritmo acelerado e envolvente. O roteiro é linear e óbvio, escrito para que o espectador não esquente a cabeça tentando raciocinar. Tudo é construído para desembocar na cena final, quando a pobre refém é resgatada e os atos heroicos dos protagonistas são finalmente reconhecidos pela multidão, a presencial e a online. O que me entristece é que, quando publicar uma postagem sobre esse filme nos grupos de cinema do Facebook, haverá incontáveis comentários aplaudindo. Alguns, por outro lado, torcerão o nariz e não darão atenção: – Por que alguém escreveria uma crônica sobre um filme tão óbvio e ridículo?
        O principal motivo é a indignação – embora admita que o filme tenha me encontrado num momento mal-humorado. Última Chance tenta nos vender um pacote pronto, que decreta a falência das instituições – todas! Elas precisam ser ocupadas pelo novo, que exige uma postura revolucionária, imediatista, hedonista... Os personagens vivem para o aqui e agora. Não são nada além das roupas que vestem, dos modelos de óculos que usam, da maquiagem que lambuzam na cara... Existem apenas nas frases de efeito que pronunciam, na opção sexual que exteriorizam, nas escolhas que fazem depois de calcular a quantidade de “likes” que receberão.
        O enredo de Última Chance tem credibilidade zero! E não me refiro ao aparato tecnológico que conecta os protagonistas em frenesi à audiência na internet, nem à forma como a mídia tradicional se imiscui na trama, tentando tirar seu naco de sucesso instantâneo. O filme carece de autenticidade e verdade emocional, porque seus personagens são ocos. Ninguém tem família! O policial protagonista vive só, cultivando seus traumas do passado. A pretensa repórter vive só, cultivando um idealismo orientado para as causas coletivistas da moda. A pobre sequestrada só tem um pai inepto, que cultiva nada além de... bem, esse não cultiva nada! E então, temos os vilões, que são... irmãos! Rancorosos, vingativos e agarrados a um tipo de psicopatia hereditária. Por meio deles, os realizadores parecem interessados em mostrar que os valores familiares, se interferem nos indivíduos, só o fazem para promover o mal.
        Ok, admito que o filme me encontrou quando estava mal-humorado, mas o ativismo deslavado que ele professa é de revirar o estômago! Nas mãos de um cineasta interessado em fazer cinema e explorar as possibilidades narrativas dos reality shows, esse caldo ralo poderia ganhar alguma substância. Última Chance, porém, só quer ficar na superfície. É um filme feito para se acompanhar com o celular nas mãos, dividindo a atenção com os aplicativos de mensagens e as redes sociais. Depois que o filme termina, muitos sequer lembrarão do título. Para escrever essa crônica-desabafo, por exemplo, precisei voltar ao serviço de streaming para refrescar a memória.

Resenha crítica do filme Última Chance

Título original: Line of Duty
Ano de produção: 2019
Direção: Steven C. Miller
Roteiro: Jeremy Drysdale
Elenco: Aaron Eckhart, Courtney Eaton, Ben McKenzie, Giancarlo Esposito, Jessica Lu, Dina Meyer, Jan Jeffcoat, Kaj Goldberg, Elijah M. Cooper, Gary Peebles, James Hutchison III, Betzaida Landín, Nickola Shreli, J. Cameron Barnett, Lindsey Garrett, Nishelle Williams, Jessica Nam e David Shae

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