Crítica | Déjà Vu: Tony Scott filmou um dos roteiros mais cobiçados de Hollywood e misturou thriller policial, romance e viagem no tempo

Cena do filme Déjà Vu
Déjà Vu: filme dirigido por Tony Scott

UM GRANDE ROTEIRO NAS MÃOS DE UM DIRETOR COMPETENTE

Todos já experimentamos a sensação: um lampejo de memória domina a consciência e nos põe em dúvida acerca da realidade; “já vivi essa situação anteriormente” passa a ocupar o mesmo espaço mental que “nunca vivi essa situação antes”. Esse duplo registro dá a impressão de que, a qualquer momento, estaremos diante da famigerada tela azul do Windows. Assim é um déjà vu, uma experiência instigante que enseja especulações em diferentes campos, da psicologia à espiritualidade, passando pela física, química, biologia, até chegar na... ficção científica, onde essa expressão em francês ganha tons mais divertidos. Como no filme Déjà Vu, realizado em 2006 por Tony Scott.

Uma produção feita para entreter

        O filme tem tudo para ser o perfeito exemplo daquilo que já vimos à exaustão no cinema de ação: explosões, tiros, perseguições, vilões desalmados, policiais implacáveis, viagem no tempo... Mas espere! Há vários elementos de originalidade, usados com criatividade e costurados com tamanha precisão, que sequestram a atenção do telespectador do começo ao fim. É uma obra-prima do entretenimento.

Cena do filme Déjà Vu
Déjà Vu: Denzel Washington novamente sob direção de Tony Scott

Um roteiro cobiçado por muitos diretores

        O falecido diretor inglês Tony Scott, irmão mais novo de Ridley Scott, mostrou que também trazia no DNA o faro apurado para o sucesso. Dirigiu filmes como Top Gun – Ases IndomáveisInimigo de Estado e Chamas da Vingança, entre outros, que o consagraram como mestre do cinema de ação. Nesse Déjà Vu ele estabeleceu uma sólida parceria com Jerry Bruckheimer, o produtor de maior sucesso comercial na história do cinema e da TV. Filmaram um dos roteiros mais cobiçados que já circularam por Hollywood – foi comercializado pela bagatela de cinco milhões de dólares!

Explodiram uma barca de verdade!

        A primeira sequência, editada com maestria, parece uma verdadeira peça sinfônica; alegres marinheiros se misturam com passageiros tranquilos e ocupam uma das tradicionais barcas que atravessam o rio Mississipi, em Nova Orleans. O espectador sabe que algo de grave acontecerá e ao acontecer, é estarrecedor! A barca explode e faz mais de 500 vítimas, numa cena impressionante. O motivo de tamanho impacto visual é simples: a explosão foi real, coordenada por John Frazier, o especialista em efeitos especiais que já venceu o Óscar e mostrou seu talento em filmes como Armageddon e Pearl Harbor. A barca que explodiu voltou a operar normalmente dias depois, mas o espectador, com as unhas cravadas no braço da poltrona, demora mais algumas cenas para se recuperar.

Cena do filme Déjà Vu
Déjà Vu: a primeira sequência já é de tirar o fôlego

A sinopse: abre-se um incrível portal no tempo

        Déjà Vu conta a história de Doug Carlin (Denzel Washington), investigador da ATF – a agência americana que controla o mercado de álcool, tabaco, armas de fogo e explosivos, destacado para descobrir as causas da explosão. Conclui que foi obra de terroristas. Conclui também que a bela Claire Kuchever (Paula Patton), cujo corpo foi encontrado uma hora antes da explosão, teve sua morte relacionada com o atentado. Quando o agente do FBI Paul Pryzwarra (Val Kilmer) o convoca para ajudar na força-tarefa que investiga o caso, Doug aceita de imediato, sem saber que os federais usam uma nova ferramenta investigativa, tão improvável quanto poderosa: um programa de computador que manipula imagens captadas quatro dias no passado e permite que os agentes vasculhem a cena do crime.

Cena do filme Déjà Vu
Déjà Vu: pitadas de romance que fazem bem ao filme

        Doug percebe que o mais produtivo é investigar a vida de Claire, para assim chegar aos autores do atentado; percebe também que as imagens surpreendentes que acompanha não foram gravadas, mas são captadas diretamente do passado. O incrível portal do tempo que foi aberto, no entanto, só faz nutrir a paixão que ele sente pela bela garota e aumenta seu desejo de solucionar o caso; seu esforço será para mudar o passado, na tentativa de salvar a vida de Claire e também das vítimas da explosão na barca.

Verossimilhança nas ações e nas emoções

        Déjà Vu foi a primeira produção rodada em Nova Orleans após a passagem do furacão Katrina, que devastou a cidade. Com os atentados de 11 de setembro ainda ardendo na memória dos americanos, seu enredo mexeu com temas sensíveis, mas trouxe uma mistura curiosa: romance, ficção científica, ação, suspense... O clima de realismo é desconcertante. Ainda que o aparato tecnológico proposto pelos roteiristas seja fantasioso, há verossimilhança nas decisões dos personagens e no desencadeamento das ações resultantes. Tudo o que o espectador aflito deseja é descobrir como os protagonistas conseguirão resolver o imbróglio no qual se meteram.

Cena do filme Déjà Vu
Déjà Vu: ótima concepção visual para o aparato tecnológico

Um ótimo tempero romântico 

        Essa história foi criada pelo roteirista Terry Rossio – conhecido por seus trabalhos em filmes como Shrek e Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. No seu esboço, um detetive volta no tempo para impedir o assassinato de sua namorada. Ele mostrou a ideia para o roteirista novato Bill Marsilii, que teve um insight: o protagonista deveria se apaixonar pela garota durante a sua autópsia e reconhecê-la como a mulher da sua vida enquanto investiga sua morte. Isso trouxe o elemento romântico para a história e ampliou a profundidade dos personagens. Os dois roteiristas realizaram um intenso trabalho colaborativo pela internet e entregaram um roteiro primoroso, que conquistou imediatamente o produtor Jerry Bruckheimer.

Assessoria científica e policial 

        Os realizadores contaram com a assessoria de Brian Greene, professor de física na Universidade da Columbia, que tratou de criar as explicações plausíveis sobre as traquitanas espaço-temporais, que os roteiristas souberam traduzir para o público em ótimas cenas expositivas. Também contrataram um agente da ATF de verdade, Jerry Rudden, que assessorou nos assuntos ligados às investigações do atentado e também serviu de base para que o carismático Denzel Washington caracterizasse seu personagem. Déjà Vu funciona como um relógio; o espectador jamais se perde e quando chega aos créditos finais, encontra sua recompensa: entretenimento de qualidade, criativo, original e emocionante. Vale a pena conferir!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção de Tony Scott, um mestre do cinema de ação, a atuação de Denzel Washington e de todo o elenco muito afinado, o roteiro bem costurado, a narrativa ágil e os apurados efeitos especiais.

O que surpreende: apesar do tema fantasioso e especulativo, os personagens transbordam verdades emocionais, o que confere verossimilhança à trama.

Acima da média. É entretenimento de qualidade.

Ficha técnica do filme Déjà Vu

Ano de produção: 2006
Direção: Tony Scott
Roteiro: Bill Marsilii e Terry Rossio

Elenco:
  • Denzel Washington
  • Paula Patton
  • Jim Caviezel
  • Matt Craven
  • Adam Goldberg
  • Bruce Greenwood
  • Val Kilmer
  • Elden Henson
  • Erika Alexander 

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