Segredos Oficiais: a história real de espionagem vivida por Katharine Gun

Cena do filme Segredos Oficiais
Segredos Oficiais: filme de Gavin Hood

O APARATO ESTATAL PRESTANDO DESSERVIÇOS AO PÚBLICO

A jornalista Marcia Mitchell e seu marido Thomas – um ex-agente do FBI recentemente falecido – formaram uma dupla de escritores sintonizados. Juntos escreveram vários livros de não-ficção explorando temas ligados à espionagem, entre eles, The Spy Who Tried to Stop a War: Katharine Gun and the Secret Plot to Sanction the Iraq Invasion, que despertou o interesse de um casal de amigos, os roteiristas Gregory e Sara Bernstein. Num encontro em Los Angeles, os quatro conversaram sobre a história de Katharine Gun e decidiram adaptá-la para as telas. Com a entrada do diretor sul-africano Gavin Hood, o projeto se concretizou no filme Segredos Oficiais, lançado em 2019. Trata-se de um envolvente drama de espionagem, narrado em formato de thriller e estrelado por Keira Knightley, Matt Smith, Matthew Goode e Ralph Fiennes.
        A história real vivida por Katharine Gun é pouco conhecida. Desenrolou-se num período de grande tensão política e provocou um rebuliço na mídia, mas terminou abafada pelos acontecimentos que levaram à Guerra do Iraque em 2003. A protagonista trabalhava para o serviço secreto britânico como analista, quando expôs ao público um memorando protegido pela lei de segredos oficiais daquele país. Reduzida à sua condição de traidora, ela amargou uma batalha desigual contra a máquina estatal, que ao invés de trabalhar em favor dos cidadãos, moveu-se de forma esmagadora para proteger os interesses dos ocupantes de alguns cargos públicos.
        O crime de Katharine Gun foi o de ter trazido à tona uma incômoda verdade: os governos americano e britânico manipularam informações, com o objetivo de induzir a ONU a aprovar uma resolução apoiando a invasão do Iraque. Corajosa, ela correu riscos pessoais, acreditando que poderia evitar uma guerra e a consequente perda de vidas inocentes. Não conseguiu, conforme sabemos. O ditador sanguinário Saddam Hussein foi deposto, as armas de destruição em massa não foram encontradas, as reservas de petróleo ficaram em mão ocidentais e as tensões no oriente médio não foram resolvidas. Mas Katharine Gun teve que se sentar no banco dos réus. Vejamos uma rápida sinopse, antes de seguir em frente:
        O filme conta como, em 2003, Katharine Gun (Keira Knightley) trabalhava como tradutora de mandarim numa tal de GCHQ, agência de inteligência britânica. Certo dia ela põe as mãos em um memorando comprometedor, que fere seu senso de ética e retidão. Ela conclui que há uma operação ilegal em curso, para induzir países membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas a votar pela invasão do Iraque. Depois de ponderar os prós e os contras, ela decide vazar o documento para a ativista Yvonne Ridley (Hattie Morahan), que o repassa para o jornalista Martin Bright (Matt Smith), do jornal The Observer. Antes de se atrever a publicá-lo, o editor Peter Beaumont (Matthew Goode) faz a lição de casa: cruza informações, tenta checar a veracidade com outras fontes e também se expõe aos riscos. Quando o tal memorando vem à luz, sua autenticidade acaba questionada e a matéria tem efeito nulo na eclosão da guerra. Uma investigação interna da GCHQ expõe Katharine Gun como autora do vazamento e ela é processada. Corre o risco de acabar na prisão como traidora. Quem irá defendê-la serão os advogados da ONG National Council for Civil Liberties (NCCL), encabeçados por Ben Emmerson (Ralph Fiennes) e Shami Chakrabarti (Indira Varma). Na promotoria, o procurador Ken Macdonald (Jeremy Northam) não poupará esforços para complicar cada vez mais a vida de Katharine Gun. De um lado, uma mulher corajosa, consciente de ter agido de acordo com princípios éticos. De outro, o aparato estatal pronto para passar por cima dos valores individuais, valendo-se de uma certa... lei de segredos oficiais.
        Segredos Oficiais nos alcança com uma história difícil de ser contada. Intrincada, ela demanda uma boa dose de exposição, para que possa ser compreendida pelo espectador. A protagonista não segue o clichê de super-heroína e nem sequer há lances emocionantes e urgentes, do tipo que recheia com perseguições, tiros e pancadaria os thrillers de espionagem. Ainda assim, o diretor Gavin Hood soube como envolver o espectador, lidando de forma equilibrada com os elementos do gênero, sem apelar para lances inverossímeis. Procurou se ater aos fatos, ainda que praticamente tudo o que constitui o episódio esteja envolto em um manto de sigilo imposto pelo governo britânico.
        O grande mérito do diretor, que também assina o filme como corroteirista, talvez tenha sido o de estabelecer uma estrutura narrativa em três atos. No primeiro, temos o tal memorando sendo vazado e os dilemas éticos que tal gesto ensejou. No segundo, o memorando sendo tratado pelos jornalistas – numa época em que a imprensa escrita ainda tinha alguma relevância no jogo político. E no terceiro, o tal memorando sendo objeto de uma disputa nos tribunais, onde a ré só poderá ser julgada à luz dos atos executados pelo próprio estado. Ou seja: o verdadeiro protagonista desse filme é o tal memorando!
        Gavin Hood é um diretor habilidoso em contar histórias tensas, que enveredam pelos labirintos da política e expõem as angústias dos dilemas morais vividos por quem detém o poder. Ele fez isso em seu ótimo Decisão de Risco, filme que realizou em 2015 e foi estrelado por Helen Mirren. Agora, ele abraçou uma história real e fartamente documentada, protagonizada por pessoas que estão vivas e capazes de questionar eventuais desvios. A própria Katharine Gun colaborou diretamente, não só com os autores do livro, mas também com os roteiristas, o diretor e os atores. O resultado é um filme ágil e emocionante, que prende a atenção do começo ao fim. Vale a pena conferir!

Resenha crítica do filme Segredos Oficiais

Ano de produção: 2019
Direção: Gavin Hood
Roteiro: Gregory Bernstein, Sara Bernstein e Gavin Hood
Elenco: Keira Knightley, Matt Smith, Matthew Goode, Rhys Ifans, Adam Bakri, Indira Varma, Ralph Fiennes, Conleth Hill, Tamsin Greig, Hattie Morahan, Ray Panthaki, Angus Wright, Chris Larkin, Monica Dolan, Jack Farthing, Clive Francis, John Heffernan, Kenneth Cranham, Darrell D'Silva, Janie Dee, MyAnna Buring, Niccy Lin, Chris Reilly, Shaun Dooley, Peter Guinness, Hanako Footman e Jeremy Northam

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