Belfast: a infância durante os conflitos na Irlanda do Norte

Cena do filme Belfast
Belfast: direção de Kenneth Branagh

É BELO E LEVE, MAS MANTÉM A DISTÂNCIA EMOCIONAL

Kenneth Branagh levou seu nome até o topo da indústria cinematográfica. Ator talentoso, estrelou e dirigiu inúmeras adaptações para o cinema de peças de William Shakespeare e marcou presença em várias séries produzidas para a televisão britânica. Mais recentemente, dirigiu Assassinato no Expresso Oriente, onde interpretou o detetive Hercule Poirot. Também se embrenhou no universo dos super-heróis, assumindo a direção do filme Thor. Com Belfast, que escreveu e dirigiu em 2021, tornou-se o primeiro na história do Óscar a ser indicado para sete categorias diferentes. Um feito notável, que mostra não só a sua versatilidade, mas a sua compreensão abrangente do fazer cinematográfico. É natural, portanto, que seu filme mais autoral e pintado com cores autobiográficas chegasse atiçando as expectativas do púbico e da crítica. Saiu da festa do Óscar com a estatueta de melhor roteiro original e com a aura de ter realizado um filme leve e fofo.
        Sim, o roteiro de Belfast é tudo isso! Costurado com brilhantismo por Kenneth Branagh, traz um encadeamento orgânico de cenas, recheadas com linhas de diálogo sólidas e emocionais, que oferecem excelentes oportunidades dramáticas para o elenco. Alterna com desenvoltura entre os momentos de silêncio e as deixas para aumentar o volume da trilha sonora marcante – assinada pelo norte-irlandês Van Morrison. Consegue, de forma competente, encaixar as cenas expositivas, os devaneios do protagonista no âmbito do seu mundo interno e até um envolvente número musical. É um roteiro maduro, escrito por quem tem traquejo e experiência de sobra na lida com as sutilezas da linguagem cinematográfica. Mas quanto à leveza e à fofura, bem... Foi onde enxerguei as fragilidades do filme. Mas antes de continuar, é preciso examinar a sua sinopse:
        Belfast se passa no turbulento ano de 1969 e conta a história de Buddy (Jude Hill), um garoto de nove anos que vive no seio de uma família protestante da classe trabalhadora, formada por sua mãe (Caitriona Balfe) e seu irmão mais velho, Will (Lewis McAskie), além de seus avós paternos (Judi Dench e Ciarán Hinds). Seu pai (Jamie Dornan) trabalha na Inglaterra e passa o tempo todo de lá para cá, mas é presente e exerce forte influência sobre o garoto. A rua onde moram vira palco de uma batalha campal, quando um bando de protestantes ataca as casas e os estabelecimentos comerciais de famílias católicas, no que ficou conhecido como “The Troubles”, que marcaram a cidade de Belfast. Buddy está ocupado demais em viver sua infância e não compreende os significados e implicações das barricadas nas ruas, das explosões de violência e das desavenças religiosas que dividem o mundo ao seu redor. Prefere mergulhar no universo narrativo que enxerga pela televisão e pelo cinema. É cercado de apoio e carinho, que chegam com intensidade de toda a família, mas terá que enfrentar uma grave crise quando vem a necessidade de se mudar para a Inglaterra, num movimento migratório que marcou a crise política na Irlanda do Norte.
        Belfast não é propriamente autobiográfico, já que traz elementos ficcionais. O diretor dá alguns vislumbres daquilo que viveu no último ano em sua cidade natal, mas tenta ampliar o alcance dramático do filme, desenhando um retrato abrangente das experiências de outras famílias que também precisaram deixar suas casas, naqueles tempos de grave crise. Por isso preferiu batizar seus personagens com nomes genéricos. Assim, o que vemos é Buddy – amiguinho, numa tradução livre – contracenando com “Ma”, “Pa”, “Granny” e “Pop”. Tal artifício funcionou muito bem no roteiro, quando Kenneth Branagh precisou apenas estabelecer a conexão emocional com os personagens, para encontrar a autenticidade e a verossimilhança da trama. Os problemas surgiram na etapa das filmagens, na hora de encarar a materialização das emoções, que certamente afloraram em abundância. Expor-se num nível tão pessoal se mostrou uma tarefa mais difícil, para alguém acostumado a abordar racionalmente as adaptações shakespearianas.
        A decisão do diretor de manter um certo distanciamento da sua história pessoal custou caro ao filme. Belfast, apesar da beleza que irradia, passa uma frieza emocional que decepciona. O que vemos são cenas escritas com brilhantismo, mas apresentadas em planos estáticos, onde a câmera está quase sempre mal posicionada. Próxima demais, expondo os personagens nos momentos em que gostaríamos de apreciar o seu entorno, ou afastada demais, quando gostaríamos de encarar as expressões dos atores. É claro que, em se tratando de um diretor tão experiente, não me atrevo a mencionar tal prática como um defeito. Por certo deve ser resultado do seu experimentalismo, ou mesmo do custo terapêutico de ter que lidar com o retorno à própria infância. Em um corte do filme, Branagh chegou a incluir uma cena onde ele mesmo interpreta o Buddy mais velho, voltando para Belfast para relembrar seus dias de garoto, mas percebeu que não funcionou. Tratou de eliminar essa passagem no corte final que chegou aos cinemas.
        Realizar Belfast em preto-e-branco foi outra decisão que teve implicações no campo da estética. Segundo o diretor, o objetivo foi criar um contraste entre o cotidiano monótono do personagem e as cenas mostrando o colorido dos filmes, que tanto o encantaram na infância e o inspiraram a seguir a carreira de cineasta. Isso acabou aproximando seu filme daquele outro, realizado em 2018 por Alfonso Cuarón, com o título de Roma – mas isso já é o tipo de conexão que alguns cinéfilos gostam de fazer por pura implicância, já que são filmes diferentes na forma e na essência. Além do mais, Belfast consegue mexer com o espectador em um nível mais... sonoro! As canções de Van Morrison, em arranjos que combinam a harmonia da guitarra elétrica com a voz sensual do saxofone, nos fazem bater os pés em um ritmo mais nostálgico. Vale a pena conferir!


Resenha crítica do filme Belfast

Ano de produção: 2021
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Kenneth Branagh
Elenco: Jude Hill, Caitriona Balfe, Jamie Dornan, Judi Dench, Ciarán Hinds, Lewis McAskie, Colin Morgan, Lara McDonnell, Michael Maloney, Olive Tennant, Gerard Horan, Josie Walker, Turlough Convery, Vanessa Ifediora, Conor MacNeill, Drew Dillon, Victor Alli, Gerard McCarthy e John Sessions

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