A Viatura: respiramos a mesma atmosfera dos westerns spaghetti

Cena do filme A Viatura
A Viatura: filme dirigido por Jon Watts

UM CONTO CRIADO PARA AS TELAS, FILMADO COM NATURALIDADE

Procurar um filme para assistir no serviço de streaming é uma atividade arriscada. Por mais que os algoritmos se esforcem para “adivinhar” suas preferências, eles acabam indicando uma diversidade muito grande de filmes. Alguns são facilmente descartáveis, a maioria não empolga e alguns poucos atiçam a curiosidade. Mas há aqueles que nos põem diante de um dilema: a sinopse é de filme B, mas a embalagem insinua que pode haver algum cinema que se aproveite. Foi essa a minha dúvida quando dei de cara com A Viatura, filme de 2015 dirigido por Jon Watts. Motivado pela presença do ator Kevin Bacon, decidi correr o risco, mas segui temeroso de que assistiria apenas a cenas de ação desenfreada e violência gratuita. Para minha satisfação, não foi nada disso! O filme é bem realizado e traz uma história formatada para as telas com precisão, onde a narrativa visual fluente remonta à atmosfera de tensão que nós, cinéfilos, costumávamos respirar nos antigos westerns spaghetti de Sergio Leone.
        Minha conclusão imediata foi a de que se tratava da adaptação de um conto, escrito por algum autor americano consagrado. Estava enganado! A Viatura foi filmado a partir de um roteiro original, escrito pelo diretor em parceria com o roteirista Chris Ford – depois disso a dupla conseguiu espaço em Holywood e acabou se envolvendo com filmes da Marvel e com as novas releituras de O Homem Aranha. A ideia foi concebida pelo próprio Jon Watts, partindo de um sonho recorrente que trazia desde a infância: ele se via no banco de trás de um carro, que estava sendo dirigido por um amigo, outro garoto de apenas dez anos. Sempre que a velocidade aumentava e pressentia que algo de muito errado iria acontecer, ele acordava. Quando começou a pensar na possibilidade de transformar essa centelha narrativa em um filme, ele decidiu fazer do carro uma viatura de polícia. Pronto! A história começou a ganhar contornos improváveis. Numa única tarde, ele e Chris Ford traçaram todo o enredo e o transformaram num projeto viável.
        Se você, leitor, quiser conferir o filme, a sinopse que encontrará no serviço de streaming é lacônica: “Dois garotos encontram uma viatura policial abandonada e decidem roubá-la. É o começo de um jogo de gato e rato entre eles e um psicopata assassino”. Entretanto, para que você possa degustar com mais proveito, quero acrescentar algumas informações úteis. As duas crianças são Travis (James Freedson-Jackson) e Harrison (Hays Wellford). Eles estão fugindo de casa, caminhando pela descampada zona rural do Colorado, enquanto exercitam a inocência e o gosto pela delinquência. De repente, topam com um carro de polícia abandonado. A viatura imediatamente vira um grande brinquedo, do qual os garotos decidem tomar posse. A colocam em movimento e saem pela estrada, levando todos os outros brinquedos que encontram dentro dela: o rádio, a sirene e um arsenal de armas pesadas. Acontece que a viatura não estava abandonada. Havia sido deixada lá pelo Xerife Kretzer (Kevin Bacon), apenas enquanto desovava o cadáver de um traficante, num buraco próximo. Que enrascada! O xerife corrupto não tem outra alternativa, a não ser encontrar a viatura roubada, antes que suas tramoias acabem expostas. A perseguição que se segue acaba trazendo surpresas e muita violência.
        Jon Watts filmou A Viatura na sua pequena cidade natal, no Colorado, onde ficou à vontade para resgatar as memórias da infância livre e despreocupada que viveu por lá. A paisagem descampada, que oferece um cenário típico dos road movies, é fotografada com objetividade por Matthew J. Lloyd e a trilha sonora assinada por Phil Mossman é econômica e sempre pertinente. Aliás, a simplicidade é o verdadeiro pulo do gato nesse filme! A ação se desenrola com poucas linhas de diálogo, sem a necessidade de cenas expositivas. Não precisamos saber quem são os personagens, seu passado ou seu histórico emocional. Tudo o que importa são as decisões imediatas que tomam e as consequências que provocam.
        O diretor acertou na exposição da ação, costurando os momentos de humor, tensão e violência de maneira orgânica. Não está interessado em manipular o expectador ou insinuar o que ele deve sentir em cada cena. Quando mostra, por exemplo, as duas crianças brincando com as pistolas e fuzis, não entra com uma música apelativa, para sugerir que algo terrível pode acontecer. Apenas deixa a ação correr com naturalidade. Somos nós, os espectadores, quem ligamos os pontos e ficamos de cabelo em pé!
        O ator Kevin Bacon entrega uma excelente atuação, aproveitando bem as poucas cenas expositivas e revelando as ambiguidades do seu personagem. Os dois atores mirins dão conta do recado e conseguem passar essa complexa combinação de inocência e delinquência.
        A Viatura é o tipo do filme que nos obriga a participar da história, ajudando a construir os personagens a partir das nossas próprias bagagens de vida. Enxerguei nas crianças o produto típico das famílias indiferentes e desestruturadas, que botam os filhos no mundo sem se importar com quem elas se tornarão. Quanto aos adultos, enxerguei exatamente o mesmo, mas sem o ingrediente da inocência. Valeu a pena correr o risco e apertar o play nesse filme. Ele tem, sim, cinema proveitoso a oferecer.

Resenha crítica do filme A Viatura

Título original: Cop Car
Título em Portugal: Carro da Polícia
Ano de produção: 2015
Direção: Jon Watts
Roteiro: Jon Watts e Christopher D. Ford
Elenco: Kevin Bacon, James Freedson-Jackson, Hays Wellford, Camryn Manheim, Shea Whigham, Sean Hartley, Kyra Sedgwick, Loi Nguyen, Sit Lenh, Chuck Kull e Thomas Coates

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