Snowden: Herói ou Traidor: revelando o aparato de vigilância do estado

Cena do filme Snowden: Herói ou Traidor
Snowden: Herói ou Traidor: filme de Oliver Stone

UM JOVEM LIBERTÁRIO EM PAZ COM SUA CONSCIÊNCIA

O filme Snowden: Herói ou Traidor, dirigido em 2016 por Oliver Stone, vem à minha mente com uma frequência preocupante. Lembro dele sempre que a assistente virtual do meu celular se intromete nas minhas conversas. Quando Ludy e eu estamos jantando, saboreando uma taça de vinho e conversando, é fatal. Aquela voz impessoal e mecanizada irrompe para nos lembrar que jamais estamos realmente sozinhos:
        – Eis aqui o que consegui encontrar sobre esse assunto – responde a assistente virtual, como se houvesse sido consultada.
        – Ora, vá ver seu eu tô lá na esquina, sua enxerida!
        Minha resposta em tom de brincadeira é apenas para aliviar a tensão, mas o olhar que minha mulher e eu trocamos é de preocupação. A sensação de estar sob vigilância causa arrepios e avisa que vivemos tempos sombrios. Tal realidade foi revelada em detalhes nesse thriller vibrante de Oliver Stone – um dos seus melhores! – onde o cineasta não se rendeu às intimidações políticas: retratou um personagem ousado, inteligente e apegado a um forte senso de justiça e liberdade.
        O leitor deve se lembrar desse tal de Edward Snowden. Trata-se daquele sujeito que escancarou o sistema de vigilância global da NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, revelando ao mundo que a distopia concebida por George Orwell em seu livro 1984 está ganhando materialidade e precisa ser considerada com seriedade. Foi Snowden quem nos alertou para o fato de que as câmeras e microfones em nossos celulares e laptops são como os olhos e ouvidos do Big Brother. Podem nos flagrar em nossas intimidades, violando nossos direitos individuais mais básicos.
        O Governo Obama acusou Snowden de ter roubado propriedade do estado e alegou que ele divulgou informações vitais para a segurança do país. Foi desconcertante! Ao invés de proteger e defender seus cidadãos, os Democratas preferiram defender... o aparato vigilante do estado! Foi esse mesmo viés que acabou desembarcando aqui no Brasil, onde o filme ganhou o curioso subtítulo, insinuando que pode haver dúvidas sobre o inegável heroísmo daquele jovem sagaz.
        A trajetória de Edward Snowden já havia sido contada por Laura Poitras, no filme de 2015 dirigido por ela e intitulado Citizenfour, que venceu o Óscar de melhor documentário. A própria jornalista acabou virando personagem no filme de Oliver Stone, interpretada por Melissa Leo, assim como Glenn Greenwald (Zachary Quinto) outro jornalista que mais tarde acabou se envolvendo em polêmicas aqui mesmo no Brasil. A entrevista que fizeram com Snowden (Joseph Gordon-Levitt) em um hotel de Hong Kong, juntamente com o jornalista do The Guardian Ewen MacAskill (Tom Wilkinson) é usada para conduzir a narrativa de Snowden: Herói ou Traidor. Ela vem permeada com flashbacks, revelando como o protagonista, dono de uma nítida consciência libertária, tentou ingressar no corpo de fuzileiros e depois se envolveu no mundo da espionagem digital. Vemos também como ele se apaixonou pela fotógrafa amadora Lindsay Mills (Shailene Woodley) e como entrou em conflito com seu chefe Corbin O'Brian (Rhys Ifans). Mas é quando Snowden toma consciência dos dilemas éticos que está vivendo e se dispõe a jogar para o ventilador toda a excrescência inconstitucional contra as liberdades individuais, que sua história ganha contornos tensos e emocionantes.
        Oliver Stone foi atraído para essa história pelo advogado de Snowden, o russo Anatoly Kucherena, que o chamou para várias reuniões em Moscou. Lá o diretor conheceu Snowden e, depois de diversas conversas, conseguiu sua colaboração. Inicialmente o diretor se pôs relutante em realizar um filme tão polêmico, ainda por cima em pleno calor dos acontecimentos, mas aceitou o desafio, encarando uma produção independente. Comprou os direitos do livro escrito por Kucherena, intitulado Time of the Octopus, e também do livro do jornalista do Guardian Luke Harding, intitulado The Snowden Files. Para escrever o roteiro, Stone convocou Kieran Fitzgerald e os dois se debruçaram sobre diversos tratamentos por vários meses, na medida em que foram se inteirando sobre os detalhes surpreendentes da história.
        Stone conta que havia a possibilidade de criar uma obra de ficção, já que o documentário de Laura Poitras praticamente esgotava o tema. Mudariam os nomes dos personagens e pronto! Mas o ímpeto de Oliver Stone em buscar o terreno da polêmica falou mais alto. Encontraram uma estrutura narrativa certeira, que transita com agilidade entre três momentos básicos: como Snowden descobriu as barbaridades do sistema de vigilância do estado, seu relacionamento com Lindsay Mills e o impacto que as suas revelações deixaram num mundo ainda assombrado com o poder da internet e seus algorítmos. O próprio Snowden sugeriu algumas abordagens dramáticas usadas no roteiro.
        Snowden: Herói ou Traidor é um filme envolvente, realizado com maestria. A maior parte foi filmada em Munique, onde os realizadores se sentiram mais confortáveis para trabalhar. Preferiram ficar longe dos Estados Unidos, pois estavam conscientes dos tentáculos do governo e seu aparato de vigilância. Ainda assim, precisaram usar locações em Washington. Foram espionados? Talvez! Mas na dúvida tomaram medidas de segurança – medidas que, cá entre nós, não fizeram mal para a atmosfera tensa do filme.
        Oliver Stone foi acusado de envernizar a imagem de Snowden, para deixá-lo mais... heroico, mas afirma que não foi nada disso. Apenas retratou o jovem idealista, conservador e de bom caráter, que conheceu a fundo e passou a admirar. Corajoso e dono de uma inteligência notável, o rapaz galgou até os postos mais altos na sua carreira de analista dos serviços de inteligência, mas preferiu seguir seus princípios e não teve medo das consequências que anteviu para seus atos. Snowden admirava Ayn Rand, a filósofa e escritora americana de origem russa, que estabeleceu as bases do objetivismo e vem inspirando os movimentos libertários em todo o mundo. Oliver Stone chegou a incluir, em uma das linhas de diálogo do filme, uma frase dela, extraída do romance A Revolta de Atlas: “Um homem pode parar o motor do mundo”.

Resenha crítica do filme Snowden: Herói ou Traidor

Ano de produção: 2016
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Kieran Fitzgerald e Oliver Ston
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Edward Snowden, Shailene Woodley, Melissa Leo, Zachary Quinto, Tom Wilkinson, Scott Eastwood, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Schnetzer, LaKeith Lee Stanfield, Rhys Ifans, Nicolas Cage, Joely Richardson, Robert Firth e Ben Chaplin

Comentários

Confira também:

Menina de Ouro: a história de Maggie Fitzgerald é real?

Encontro Marcado: explicando para a morte qual é o sentido da vida

Siga a Crônica de Cinema