Crítica | A Luz no Fim do Mundo: Casey Affleck escreveu, dirigiu e estrelou esse drama pós-apocalíptico. Acertou no tom intimista

A Luz no Fim do Mundo: direção de Casey Affleck
MÁXIMA DENSIDADE EMOCIONAL
O tema de A Luz no Fim do Mundo, filme de 2019 escrito, dirigido e estrelado por Casey Affleck, é a paternidade. Os protagonistas vagam por um mundo distópico e pós-apocalíptico, onde os perigos são brutais e a desesperança esmaga todas as expectativas de futuro. Nesse tal mundo pessimista, o relacionamento entre um pai e sua filha tornou-se uma impossibilidade, por causa de uma anomalia externa, que impôs uma nova ordem antinatural. Logo no começo estabeleci uma imediata conexão emocional com esse filme e seus personagens. Assisti ao seu desenrolar com um nó na garganta e embargado de emoção. Antes de continuar, deixe-me apresentar a sinopse:
O mundo sem o elemento feminino
A Luz no Fim do Mundo é sobre um homem chamado apenas de pai (Casey Affleck) e sua filha Rag (Anna Pniowsky). Ambos vagam pelas florestas da Colúmbia Britânica, tentando passar despercebidos. O motivo é simples: uma pandemia misteriosa dizimou a população feminina e as raras mulheres sobreviventes são escravizadas e maltratadas. Para proteger sua garotinha, o pai a obriga a se disfarçar de menino. Tenta ensiná-la a sobreviver e a compreender a vida, dando a ela alguma formação moral e ética.
A Luz no Fim do Mundo: Casey Affleck realizou um ótimo filme autoral
Nesse contexto extremo, o pior e o melhor da raça humana estão sempre à espreita e ninguém sabe qual das facetas chegará primeiro para interferir no destino da dupla. Enquanto lidam com as lembranças que têm da mãe (Elisabeth Moss), pai e filha tentam encontrar um lugar seguro para reconstruir a vida. Acontece que, desprovido do elemento feminino, o planeta mergulhou na crueldade e vai impor dificuldades imensas.
Foco no amor paternal
Sim, a premissa de A Luz no Fim do Mundo é pessimista, mas é preciso que se diga: trata-se de um drama de sobrevivência e também de amadurecimento, onde pai e filha vivem uma jornada intimista de aprendizado. Além da atmosfera de suspense, o constante embate com as forças da natureza nos deixa um sentimento de angústia pós-pandêmica. Casey Affleck, no entanto, jamais perde o foco do amor paternal; consegue estabelecer uma base emocional sólida e realiza uma investigação honesta sobre a natureza do amor incondicional. Fala das dificuldades de criar um filho para o mundo e depois ter que deixá-lo partir.
A Luz no Fim do Mundo: ótimas atuações de Casey Affleck e Anna Pniowisky
O filme nasceu como uma história de ninar
Neste longa independente e de baixo orçamento, Casey Affleck se viu obrigado a contar uma história pessoal. Os desdobramentos pós-apocalípticos ficaram apenas como pano de fundo – mesmo porque, para serem encenados com verossimilhança, exigiriam um outro tipo de esforço narrativo, além de cenários caros e muita computação gráfica. Para escrever o roteiro, partiu de uma história de ninar que inventou para seu filho mais velho, quando ele tinha apenas cinco anos. Mais tarde, essa história virou esboço para um filme de animação e foi usada na sequência de abertura de A Luz no Fim do Mundo, que fisga o espectador logo de cara.
Espaço para o drama da filha
Como roteirista e diretor, Casey Affleck demostrou maturidade. Seu roteiro linear é eficiente e sua narrativa segue num ritmo bem cadenciado. Como ator, ele soube abrir espaço para que a encantadora Anna Pniowsky conseguisse expressar o drama da sua personagem. Ela vive uma garotinha sensível, que encara as transformações da adolescência justamente num momento em que o mundo está transmutado; quer ser independente, buscar sua própria identidade e assumir sua condição feminina, justamente num momento em que as mulheres se tornaram seres preciosos e disputados. O que não falta neste filme é densidade emocional!
A Luz no Fim do Mundo: em sintonia com os valores da paternidade
A dica do título original
Tal densidade ganha ainda mais força no título original do filme, Light of My Life – que traduzimos por Luz da Minha Vida. Trata-se de uma metáfora carinhosa, que os pais anglófonos costumam usar para se referir aos filhos e os importantes significados que trazem para suas existências. No filme, a referência à iluminação é vocalizada por um pai, dedicado a proteger sua filha, ensiná-la e prepará-la para o mundo. Um mundo destroçado, cruel e violento; mas é o mundo que resta aos protagonistas.As implicações da paternidade
Casey Affleck mostrou que está em profunda sintonia com a paternidade; deixa claro que ela só se estabelece de fato quando há uma interação profunda: os pais se esforçam para deixar um legado, enquanto os filhos o recebem com apreço. Os pais preparam seus filhos para o mundo, mas também os põe à prova. Os protegem, mas querem vê-los combativos. Os amparam, mas apenas para vê-los se arriscar de novo. Os pais exercem uma presença constante! O cinéfilo adulto e compenetrado encontrará em A Luz no Fim do Mundo uma oportunidade para refletir sobre essas questões e se emocionar. Fica a dica!
Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção de Casey Affleck, seu roteiro bem escrito e sua atuação competente, além do tratamento audiovisual criterioso.
O que surpreende: o peso e as implicações dramáticas de um evento apocalíptico não são postos de forma gráfica, mas criam uma atmosfera de tensão e suspense que cria um excelente contraste com a temática intimista.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme A Luz no Fim do Mundo
Título original: Light of My LifeAno de produção: 2019
Direção: Casey Affleck
Roteiro: Casey Affleck
Elenco principal:
- Casey Affleck
- Anna Pniowsky
- Tom Bower
- Elisabeth Moss
Ainda não vi esse filme mas sua crônica me instigou a buscá-lo. Gostei muito da história. Parabéns e obrigada.
ResponderExcluirTem na netflix ou Amazon?
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