Crítica | Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostituída: ainda é atual e necessário

Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostituída: direção de Ulrich Edel
CONTUNDENTE, DIDÁTICO E REALISTA
Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostituída foi realizado há mais de 40 anos. É um filme contundente e permanece chocante até mesmo nesses nossos dias lisérgicos. Filmado com um realismo desconcertante, revelou ao mundo a triste cena berlinense do final dos anos 1970, quando a juventude vulnerável sucumbiu ao surgimento da heroína. A tal Christiane F. do título é uma personagem real – seu sobrenome é Felscherinow. Aos 13 anos, ela viveu tintim por tintim tudo aquilo que é narrado no filme.
Um livro com abordagem jornalística
A história de Christiane acabou nos ouvidos dos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck, que escreveram o livro intitulado Wir Kinder vom Bahnhof Zoo – numa tradução livre, algo como Nós, Crianças do Bahnhof Zoo. O produtor Bernd Eichinger, decidido a realizar uma adaptação para o cinema, convocou o roteirista Herman Weigel, que se baseou no livro, mas omitiu toda a parte inicial, onde o histórico familiar de Christiane é narrado. O roteirista também deixou a parte final de fora, que revela o que de fato aconteceu com a protagonista. Vamos à sinopse:
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Eu, Christiane F.: Natja Brunckhorst tinha 13 anos durante as filmagens
Drogas, prostituição e imundices
O filme conta como Christiane F. (Natja Brunckhorst), depois que sua irmã mais nova foi morar com o pai e a deixou num minúsculo apartamento com a mãe ausente, descobriu a vida noturna na Sound, uma boate no centro de Berlim. Lá ela conhece Detlev (Thomas Haustein), que logo vira seu namorado. Passa a conviver também com um bando de outros garotos que bebem, fumam e usam drogas como diversão.

Eu, Christiane F.: atores inexperientes, mas convincentes
No começo as drogas são “leves”, como maconha e LSD; então aparece a heroína. Em pouco tempo Christiane passa a se injetar. Em pouco tempo precisa de três picos diários. Em pouco tempo começa a se prostituir na estação de Bahnhof Zoo para conseguir dinheiro. Em pouco tempo já não encontra saída e percebe que acabará como as outras crianças da sua idade, que perdem a vida para a imundice que os cerca.
Realismo ampliando a dramaticidade
O diretor Ulrich Edel ingressou no projeto, interviu no roteiro e impôs sua visão pessoal. Filmou nas ruas, em locações reais, com um elenco de atores iniciantes e sem experiência na frente das câmeras. Recusou-se a recrutar para o papel principal uma atriz de 26 anos, conforme estava planejado. Em vez disso, convocou Natja Brunckhorst, que tinha na época 13 anos e alguma experiência como atriz. Muitos dos figurantes que aparecem ao fundo, nas cenas de rua, são viciados reais, ainda que nenhum drogado tenha atuado no filme – à exceção de Catherine Schabeck, então com 18 anos, que era amiga de Christiane Felscherinow e faz uma ponta como traficante.
Eu, Christiane F.: a presença de David Bowie evoca significados para toda uma geração
Não perdeu a atualidade
A estética realista de Ulrich Edel se mantém incrivelmente atual. A câmera na mão em constante perseguição do elenco, os planos noturnos de uma Berlim suja e deprimente, a participação de um David Bowie magnético, as cores com temperaturas similares às captadas pelas câmeras digitais... O filme parece ter sido feito em ontem! Exagero? Talvez, mas é porque Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostituída traz uma temática tão pesada que provocou em mim esse tipo de reação passional. Minha mulher, aliás, sentiu o mesmo – ela também custou a dormir com a imagem da pobre e indefesa criança de apenas 13 anos jogada às bestas-feras.
No filme, um final otimista
Bem, caro leitor, para continuar minha narrativa, será necessário ir direto para o final do filme. Então, fica aqui o meu alerta de spoiler! Antes dos créditos finais, os realizadores entram com um testemunho em primeira pessoa de Christiane F., onde ela, depois de tentar uma overdose, afirma que conseguiu se livrar das drogas, já que sua mãe a levou para morar em Hamburgo; é um final otimista, que insinua um encontro com os valores familiares. Porém, isso não aconteceu na realidade. Ela jamais se livrou do vício!

Eu, Christiane F.: a realidade das drogas num flagrante quase documental
Na realidade, mais sofrimento
Em 1983 foi presa por envolvimento com traficantes; tentou tratamentos com medicações e sessões de terapia, mas sem sucesso. Chegou a tentar a carreira musical, depois da enorme projeção mundial do livro e do filme, mas não decolou; teve um filho, que foi parar numa instituição para menores. Em 2008 Christiane voltou a usar drogas pesadas e em 2016 lançou um novo livro, intitulado Eu, Christiane F. – A Vida Apesar de Tudo, escrito com a ajuda da jornalista Sonja Vukovic, onde narra a sequência da sua triste história.
Um arremedo de família
Para que a trajetória de Christiane Felscherinow tomasse outra direção, bastaria que ela tivesse experimentado o acolhimento de uma família de verdade. Mas não! Tudo o que ela conheceu foram arremedos de pai e mãe, ele um agressor contumaz e ela uma pessoa indiferente à própria filha; não se importaram em separá-la da irmã e abandoná-la na companhia do medo. Mas talvez, o pior tenha acontecido quando Christiane Felscherinow olhou em volta e percebeu, pelo comportamento de todos os que a cercavam, que essa ausência de família é uma regra. Detlev, Axel, Leiche, Bernd, Babsi, Kessi, Stella... Nenhuma criança que conhecemos nesse filme tem família. Estão sozinhas. Por conta própria.
Eu, Christiane F.: a personagem não parou por aí!
Um chance para nossas crianças
Não, caro leitor! A ausência de família não é regra. É exceção! Prova disso é que ainda estamos aqui, vivendo uma experiência civilizatória: aos trancos e barrancos, é verdade, mas ainda temos na família o núcleo básico da nossa organização social e da nossa formação individual. Se não fosse assim, já teríamos sucumbido ao coletivismo, que tenta nos impor a ditadura da impessoalidade. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Ulrich Edel, a estética documental, a atuação convincente de um elenco inexperiente na frente das câmeras e a trilha sonora envolvente.
O que surpreende: passados 40 anos, a história triste e pesada continua atual, graças à abordagem crua e realista conduzida pelo diretor.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostituída
Título original: Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof ZooAno de produção: 1981
Direção: Ulrich Edel
Roteiro: Herman Weigel e Ulrich Edel
Elenco:
- Natja Brunckhorst
- Thomas Haustein
- Jens Kuphal
- Rainer Wölk
- Jan Georg Effler
- Christiane Reichelt
- Daniela Jaeger
- Kerstin Richter
- David Bowie
- Christiane Lechle
Assisti esse filme há muitos anos. Lembro que já saí do cinema, deprimida. Sua crônica me instigou a assistí-lo novamente e acrescentou muitas informações que eu não tinha. Concordo totalmente que a falta da familia deu o tom do filme e da realidade da Christiane.
ResponderExcluirÉ uma história difícil de revisitar, mas continua funcionando muito bem, enquanto tema de alta relevância e enquanto cinema de qualidade.
ExcluirParabéns pela sua crônica. Você soube tocar num assunto pesado sem sucumbir a crueza do assunto que trata o filme. Vivemos essa tragédia no Brasil e no mundo exatamente pela falta da familia. Simples assim.
ResponderExcluirAh, Muito obrigado!
ExcluirAssisti a esse filme na escola, quando era criança. Fiquei fascinada! Anos depois, comprei o livro. A ausência da família, e o fato de só perceberem que algo estava errado com Christiane quando ela já estava no fundo do poço, é chocante. Triste saber que é a realidade de muitas crianças.
ResponderExcluirLembro de ter me impressionado com essa história ainda jovem. Assisti ao filme recentemente e o impacto foi o mesmo.
ExcluirAinda não vi esse filme, vou procurar.
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