Crítica | Nossas Noites: astros aceitando a velhice

Cena do filme Nossas Noites
Nossas Noites: filme dirigido por Ritesh Batra 

AH, A BELEZA DA MATURIDADE!

Nossas Noites, dirigido em 2017 por Ritesh Batra, é um dos poucos filmes que escolhem conversar diretamente com os cinéfilos das antigas. Inteligente, sensível e delicioso de assistir, é um longa estrelado por dois octogenários. Mas não são dois octogenários quaisquer! Tratam-se de Jane Fonda e Robert Redford, astros do primeiro time de Hollywood. A presença deles é razão de sobra para apertar o play. E na medida em que embarcamos na história, encontramos outros bons motivos: o ritmo apropriado da narrativa, a densidade dos personagens, a objetividade do roteiro, a delicadeza e a ternura empregadas no tratamento do tema... Nesse filme, há muita gente madura, na frente e por trás das câmeras!

Muita experiência de vida

        Para apreciar Nossas Noites o espectador terá que trazer na bagagem alguma dose de maturidade, ou pelo menos já ter refletido sobre a vida na terceira idade. Um adolescente achará o filme chato e arrastado, já que conta a história de dois viúvos solitários, que decidem iniciar um relacionamento. A iniciativa parte dela, num ímpeto de atrevimento e ousadia. Ambos passam a dividir a cama durante as noites e vêm seus sentimentos ganhar contornos que a longa experiência de vida já os ensinou a reconhecer. O casal vai despertar reações na comunidade e nas famílias, mas assim como têm paciência para ensinar, também têm disposição para aprender. Vamos esquadrinhar um pouco mais essa sinopse:

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Cena do filme Nossas Noites
Nossas Noites: Jane Fonda e Robert Redford em ótimas atuações

Vivendo a velhice

        Holt é uma pequena cidade do Colorado – fictícia, mas habitada pela mesma qualidade de vida que pulsa nas cidades reais daquele estado americano. É lá que vive sua velhice o viúvo Louis Waters (Robert Redford). Certa noite ele é pego de surpresa, quando sua vizinha, a também viúva Addie Moore (Jane Fonda), o convida para passarem a noite juntos. A intenção é aplacar a solidão que tomou conta de suas vidas, ter alguém com quem conversar, dormir... Por que não? Convite aceito, as noites se sucedem, mas a vizinhança repara. A situação é um prato cheio para os boatos e comentários à boca pequena.

Cena do filme Nossas Noites
Nossas Noites: personagens bem construídos

        Logo o casal experiente descobre que, na idade deles, manter uma tal relação vai gerar problemas. Mas desde quando octogenários experientes se preocupam com o que vão pensar deles? Com delicadeza, suavidade e sensatez, vemos o casal lidar com os personagens que entram em cena na sequência: Holly (Judy Greer), a filha de Louis, Gene (Matthias Schoenaerts), o filho de Addie e o pequeno Jamie (Iain Armitage), seu neto, que vem passar uns tempos com ela.

Um diretor com sensibilidade artística

        Essa produção original da Netflix é dirigida pelo indiano Ritesh Batra, cujo filme Lunchbox o projetou internacionalmente, depois que foi premiado em Cannes. Ele foi escolhido por Robert Redford, que também produziu Nossas Noites, para trazer seu estilo sensível na condução dessa história. Ela é adaptada do romance com o mesmo título, escrito pelo americano Kent Haruf. O roteiro é assinado pela dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber, que já trabalharam juntos em vários filmes, inclusive o sucesso A Culpa é das Estrelas.

Cena do filme Nossas Noites
Nossas Noites: Ritesh Batra mostra muita sensibilidade na direção

Alcançando os cinéfilos maduros

        A grande ousadia de Nossas Noites está justamente em não fazer concessões: os realizadores não facilitam a vida do espectador, pois não apresentam estereótipos simplificados nem clichês sobre a velhice. Diferente das comédias românticas que transbordam contemporaneidade, aqui são os personagens que cobram empatia do público; um público que está envelhecendo, mas sem perder o posto de consumidores em potencial. É interessante perceber que a indústria do cinema também está de olho no nicho da terceira idade. É claro que os filmes para crianças, adolescentes e jovens adultos ocupam o maior espaço nas salas de exibição e nos serviços de streaming – alguns são tão infantilizados que afugentam os cinéfilos maduros, porém, como podemos ver, há exceções!

Personagens bem construídos 

        Nossas Noites é um bom exemplo de como o cinema consegue embaralhar a noção de realidade. Mistura o que se passa na tela com o que acontece fora dela. Ao se valer de símbolos e ícones consagrados na indústria, como os nomes Jane Fonda e Robert Redford, os realizadores evocam significados que interferem na própria história a ser contada. Mas Ritesh Batra teve pulso e sensibilidade para fazer com que os personagens conseguissem se impor frente aos astros. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção sensível de Ritesh Batra, o roteiro bem construído, as atuações de Jane Fonda e Robert Redford e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: os astros octogenários agregam significados adicionais à trama, tratada com sensibilidade e... sabedoria!

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Nossas Noites

Título original: Our Souls at Night
Ano de produção: 2017
Direção: Ritesh Batra
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber

Elenco:
  • Robert Redford
  • Jane Fonda
  • Iain Armitage
  • Matthias Schoenaerts
  • Judy Greer
  • Phyllis Somerville
  • Bruce Dern

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