A Árvore da Vida: a densidade de um poema cinematográfico

Cena do filme A Árvore da Vida
A Árvore da Vida: direção de Terrence Malick

BUSCANDO UM SENTIDO ESPIRITUAL

Com qual finalidade alguém clica no play e começa a assistir a um filme no serviço de streaming? Tal pergunta, feita assim, de supetão, gera uma diversidade de respostas: para passar o tempo, para se divertir, para se aprofundar em algum assunto, para aprender algo, para se emocionar... No final das contas, todas as respostas convergem para um único ponto: o objetivo é sempre fruir uma boa história. Quem se põe a assistir ao filme A Árvore da Vida, dirigido em 2011 por Terrence Malick, certamente espera acompanhar uma boa narrativa – nada mais natural para quem se depara com as fotos de Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain na capa e lê a sinopse sobre as desventuras de uma família texana na década de 1950. O problema, para os desavisados, é que o diretor é notório por seu estilo não narrativo e a história que se propõe a contar está tão entranhada nos corredores secretos da sua própria alma, que vem codificada em pacotes de impressões pessoais.
        Antes de seguir com minha crônica, preciso avisar: A Árvore da Vida é um excelente filme, realizado com sensibilidade e preciosismo técnico – não foi por menos que conquistou a Palma de Ouro no festival de Cannes, entre tantos outros prêmios! Mas está mais para um ensaio filosófico, uma investigação sobre as implicações da existência humana e o inevitável convívio com o luto e a dor da separação.
        Antes de virar cineasta, Terrence Malick lecionou filosofia no MIT e se especializou em Heidegger. Nutriu o desejo de realizar este filme desde os anos 1970, quando despachou vários cinegrafistas pelo mundo afora, para colher cenas de impacto sobre as forças da natureza. Quando finalmente chegou o momento de realizá-lo, tratou de incluir no enredo alguns elementos da sua própria biografia, como as lembranças da sua infância no Texas, o convívio com o pai severo e a perda trágica de irmão.
        O diretor, no entanto, nunca esteve interessado em fornecer respostas claras e filosoficamente fundamentadas para o espectador. Filmou os eventos da sua infância porque são marcantes e, ao mesmo tempo, comuns – fazem a ponte entre o pessoal e o universal, estabelecendo o necessário vínculo com a audiência. As memórias que revira, entretanto, não estão ali para ilustrar cenas ou sustentar linhas de diálogos. Seguem num ritmo natural e orgânico, naquele vai-e-vem tão conhecido por quem está acostumado a divagar. Curiosamente, os mundos internos dos adultos e das crianças são apresentados sempre com o mesmo tom de voz, insinuando uma dimensão espiritual dos personagens.
        Aliás, as referências ao mundo espiritual são os elementos que mais me tocam em A Árvore da Vida. É claro que o visual dos anos 50 e a dinâmica familiar regida por um pai autoritário, lembram cenas da minha própria infância, mas isso é parte do jogo. Na medida em que Terrence Malick vai se embrenhando na passagem do tempo e cutucando questões existenciais, fica claro a sua intenção de acessar camadas de pensamento menos óbvias. De repente, o tempo parece subordinado ao fluxo da natureza, onde a sobrevivência está condicionada às leis da evolução e à habilidade dos mais fortes. De repente, a existência se torna tão complexa – decorrência de fenômenos tão gigantescos e incompreendidos – que o tempo parece subordinado apenas ao fluxo do nosso mundo interno, das nossas emoções, do nosso campo mental...
        Bem, caro leitor, uma crônica sobre A Árvore da Vida teria que ser escrita assim mesmo, com ares de divagação! Nem mesmo me preocupei em estabelecer sua sinopse, porque o próprio diretor trata o enredo com muita informalidade – inclusive Emmanuel Lubezki, o lendário diretor de fotografia, admitiu jamais ter lido o roteiro por inteiro, limitando-se a examinar as páginas que filmaria a cada dia. O filme começa como uma oração e segue por uma trilha de cenas banais, mas ricas de significados emocionais. Abre espaço para o amoroso dia-a-dia familiar e também para os inevitáveis conflitos. Faz com que os personagens confrontem a morte e os insere na realidade darwiniana. Investiga as origines do universo e culmina com um inventário impreciso de todos os habitantes que vagam pela memória do protagonista.
        A Árvore da Vida é o tipo de filme que só consegue acontecer na ilha de edição. Aliás, nos créditos finais, nos deparamos com uma multidão de cinco editores, que trabalharam sob a batuta atenta de Terrence Malick. O diretor chegou a convocar a atriz Jessica Chastain, cuja personagem é narradora – o outro narrador é vivido por Sean Penn – para refazer suas falas por mais de 30 vezes. Os realizadores não tinham uma história linear para contar, estabelecida num roteiro clássico, mas tinham um conjunto de imagens espetaculares para manusear.
        E estão enganados os que pensam em A Árvore da Vida como uma façanha digital. Nada disso! O diretor convocou uma equipe de profissionais dos efeitos especiais, liderados por Douglas Trumbull – o nome responsável pelos trabalhos em 2001 - Uma Odisseia no Espaço – para criar as imagens das sequências cósmicas e galácticas. Fizeram diversos experimentos químicos e fotografaram tintas e líquidos coloridos em tanques d’água, usando câmeras de alta velocidade e lentes especiais. O resultado ficou mais aleatório e livre da previsibilidade imposta pelos algoritmos. O filme todo terminou envolto por uma atmosfera natural e orgânica, regida pelo império da luz natural e da espontaneidade.
        Quem já havia assistido aos filmes anteriores de Terrence Malick, como Além da Linha Vermelha e O Novo Mundo, já devia estar de sobreaviso: o diretor dispensa os encadeamentos narrativos e abusa das belas cenas fornecidas por Lubezki. Mas em A Árvore da Vida ele ultrapassou seus limites. Construiu um filme ancorado em impressões, emoções e divagações. Mesmo os espectadores mais atentos não conseguirão absorver tanta informação em uma única sessão. Portanto, prepare-se para revisitar esse filme por muitas vezes!

Resenha crítica do filme A Árvore da Vida

Título original: The Tree of Life
Ano de produção: 2011
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan, Kari Matchett, Joanna Going, Michael Showers, Kimberly Whalen, Jackson Hurst, Fiona Shaw, Crystal Mantecon, Tamara Jolaine, Dustin Allen e Carlotta Maggiorana

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