Os Fabelmans: filmando verdades emocionais

Cena do filme Os Fabelmans
Os Fabelmans: direção de Steven Spielberg

A VERDADE ESTÁ NO... CINEMA!

O impulso de realizar um filme autobiográfico sempre apareceu para cutucar o diretor Steven Spielberg – tentação para qualquer contador de histórias contumaz. Os Fabelmans, que ele dirigiu em 2022, é finalmente essa tão aguardada obra. E nos chega com tamanha graça, vivacidade e profundidade emocional, que ouso colocá-lo entre seus filmes mais envolventes e arrebatadores.
        Os cinéfilos – e a crítica cinematográfica – sempre enxergaram nos filmes de Spielberg diversos elementos reveladores de sua personalidade e de sua herança familiar. Sempre aparecem expostos nas entrelinhas dos seus roteiros e se tornaram conhecidos do público, na medida em que ele virou celebridade e se firmou como um dos maiores diretores da história do cinema. Agora, chegou o momento de Spielberg se revelar por inteiro, ousando um nível de exposição inédito.
        Os Fabelmans é, sim, uma ousadia. Certamente provocou momentos intensos e emocionais para Spielberg e suas irmãs, durante a sua confecção e depois, na sala de cinema. O filme traz detalhes da infância do diretor, mostra como nasceu nele a paixão pela sétima arte e revela segredos íntimos, que ele compartilhou com sua mãe, Leah, até sua morte aos 97 anos, em 2017. Conta uma história pessoal, que nas mãos de um diretor egocêntrico ganharia tons de desabafo, de exercício psicoterapêutico, de lavagem de roupa suja... Spielberg, no entanto, faz cinema! Consegue se aprofundar no seu oceano particular de verdades emocionais para buscar o universal. Para encontrar referências que o espectador possa reconhecer, estabelecer seus pontos de identificação e fruir. Fala ao público numa linguagem sincera, que se articula em vocábulos de sentimentos compartilhados.
        Em Os Fabelmans, a fascinação pelos filmes e o imperativo de se entregar por inteiro às histórias que eles contam é o ponto de identificação mais óbvio para o espectador. Pessoalmente, o tema me hipnotizou desde as primeiras cenas – O Maior Espetáculo da Terra também foi o primeiro filme ao qual assisti numa sala de cinema, em uma mágica tarde de domingo com toda a família. Mas há outros motivos igualmente fortes, que as pessoas reconhecerão: a admiração e os conflitos com a figura paterna, a dificuldade de escolher entre a família e a vocação, a cumplicidade com os irmãos, a culpa pela separação dos pais... O principal elemento dramático, no entanto, gira em torno do surpreendente segredo que o protagonista divide com sua mãe.
        Antes de continuar, vamos examinar a sinopse: Os Fabelmans conta a história de Sammy (Mateo Zoryan Francis-DeFord), que aos seis anos vai pela primeira vez ao cinema e se põe hipnotizado pela cena do desastre de trem. Sua mãe, Mitzi (Michelle Williams) encoraja o garoto a reproduzir a cena usando maquetes, filmando com a câmera super8 do pai, Burt (Paul Dano). A família se muda para Phoenix, no Arizona e o garoto leva consigo a paixão por filmar, sempre com o apoio das irmãs. Quem vai junto é o inseparável amigo de Burt e Mitzi, Bennie Loewy (Seth Rogen). Os anos passam e o agora adolescente Sammy (Gabriel LaBelle) se dedica ao seu hobby com fervor, filmando com seus amigos escoteiros. Filma também os eventos da família. Um deles é um acampamento, onde descobre que sua mãe e Bennie são mais do que apenas bons amigos. Quando a família vai para Los Angeles, Sammy ingressa no ensino médio e vê a tensão entre os pais chegarem a um ponto crítico.
        Sim, as referências biográficas que vemos em Os Fabelmans são todas de Steven Spielberg, mas se elas tomaram forma de cinema, foi graças à interferência de Tony Kushner. O escritor, dramaturgo e roteirista já trabalhou com o diretor em outros três filmes: Munique, Lincoln e Amor Sublime Amor. Ele e Spielberg ficaram amigos e conversaram sobre os filmes que o diretor fez quando criança, inclusive sobre o episódio do acampamento. Desde então, Kushner veio provocando Spielberg para realizar uma obra autobiográfica, o que finalmente se tornou viável em 2020.
        Spielberg e Kushner trocaram ideias em reuniões regulares pelo Zoom e foram formatando o roteiro de Os Fabelmans. Foi um trabalho intenso e colaborativo, onde ambos delinearam os contornos da história. Spielberg nomeou os personagens e entregou-se à tarefa de revelar as entranhas. Kushner investigou detalhes e recuperou memórias com as irmãs do diretor. Decidiram se deter num recorte que cobriu a vida de Spielberg desde que era garotinho até completar os 18 anos.
        Não tenho dúvidas de que a competência de Kushner em estabelecer a estrutura narrativa e articular os elementos dramáticos do filme, ajudou a fazer de Os Fabelmas uma obra de alcance universal, que dialoga fácil com o espectador. Mas também tenho certeza de que os talentos de Spielberg como narrador audiovisual foram cruciais. As cenas envolvendo sua mãe – e a revelação do segredo – ganharam um sentido cinematográfico ampliado. As imagens que o jovem Spielberg filmou com ímpeto documental naquele acampamento, agora refeitas com propósitos dramáticos, repisam sentimentos e reforçam verdades. Ensejam interpretações e mostram a índole narrativa do diretor. É como se elas fizessem parte da história do cinema desde sempre!
        Estou exagerando? Com certeza! Mas é porque entendi a forma como o jovem Sammy Fabelman compreende o mundo. A verdade está lá, registrada no celuloide. É capturada por uma câmera, editada numa moviola, tem sentido narrativo, tem dimensão estética, tem alcance dramático... É cinema! Mas só funciona porque, sendo a expressão de algo muito pessoal, é capaz de ser compartilhado como uma experiência universal.

Resenha crítica do filme Os Fabelmans

Título original: The Fabelmans
Ano de produção: 2022
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Spielberg e Tony Kushner
Elenco: Michelle Williams, Paul Dano, Seth Rogen, Gabriel LaBelle, Mateo Zoryan Francis-DeFord, Keeley Karsten, Alina Brace, Julia Butters, Birdie Borria, Judd Hirsch, Sophia Kopera, Jeannie Berlin, Robin Bartlett, Sam Rechner, Oakes Fegley, Chloe East, Isabelle Kusman, Chandler Lovelle, Gustavo Escobar, Nicolas Cantu, Cooper Dodson, Gabriel Bateman, Stephen Smith, James Urbaniak, Connor Trinneer, Lane Factor, Greg Grunberg, David Lynch e Jan Hoag

Comentários

  1. Gostei muito do filme e de sua crônica onde você me fêz ver o quanto Spielberg é um diretor de primeira classe. Seu talento ficou claro desde sua infância. O filme me envolveu desde a narrativa até a prova do quanto ele deve ter se terapeutizado pra expressar de forma clara e fácil toda essa intimidade. Realmente provou ser um grande diretor.

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    1. Sim, é um grande diretor, que alcança maturidade a cada filme. Este é um dos seus melhores!

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  2. Excelente crônica..

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