Direto ao Conto - 1


SEMPRE VIGILANTE

Noronha se lembrou de quando acordou da cirurgia, à qual se submetera dois anos antes, para extração da vesícula biliar – naquele instante, teve a sensação de ter sido atropelado por uma carreta desgovernada. A dor não latejava em pontos específicos. Era um alarme gritando por toda a parte. O corpo, desobediente a comandos, ameaçava levar anos para se recuperar.
        – Nunca levei um tiro, mas... já entrei na faca. Sei bem o que você tá sentindo – disse, tentando mostrar empatia com o pobre vigilante, esparramado naquele leito de enfermaria lotada.
        – Dói, Seu Noronha. Dói bastante... Ainda bem que eles me costuraram. Disseram que eu vou ficar de molho por três ou quatro semanas. Pelo menos a comida daqui é boa... E tem umas enfermeiras gostosas pra cara...
        O vigilante tirou o sorriso do rosto quando percebeu que o filho de Noronha o encarava com os olhos arregalados. O garotinho, sentado ao lado do pai, estava assustado. Por qual motivo o chefe traria um moleque tão novinho para uma visita hospitalar? – Deve ser desculpa pra encurtar a visita – pensou.
        – Três ou quatro semanas passam voando – disse Noronha, disfarçando o embaraço. Olhou no relógio, levantou-se, colocou a pasta de couro na cadeira e retirou os papéis que precisavam ser assinados. Já estavam separados e organizados. Também tirou uma prancheta de madeira, fixou os papeis na garra e se pôs ao lado do vigilante. O garoto acompanhou todo o procedimento. Ficou orgulhoso de ver o pai assumindo a postura meticulosa de chefe:
        – Bem, Waldecir... Tem uma montanha de documentos pra despachar. Pra efeitos do seguro... Pra seguridade social... Pro RH... Só preciso que você assine aqui, aqui, aqui, aqui... e... aqui.
        Waldecir pegou a caneta e assinou, sem discutir.
        Noronha continuou:
        – Só pra constar... quero lembrar que a companhia tá prestando todo o apoio, seguindo o que diz a lei. Infelizmente, daqui pra frente, a gente não tem mais como interferir. Agora é com a empresa de vigilância, porque seu contrato é com eles. Mas... fique tranquilo. Vai dar tudo certo.
        – Eu sei como é, Seu Noronha – respondeu o vigilante, sem disfarçar a irritação. – Já me explicaram como isso vai acabar: afastamento compulsório, pagamento feito direto pela previdência, redução de salário... Tenho dois colegas que já passaram pelo mesmo problema e se fo... é... se complicaram.
        Waldecir olhou de novo para o garotinho assustado e lembrou-se de tê-lo visto outras vezes, sempre nas festas de Natal da companhia. Tinha quase a mesma idade do seu filho. Mas que diabos um garoto tão novinho estaria fazendo ali, naquela enfermaria lotada? Sentiu uma fisgada no abdome e, num gesto involuntário, levou a mão ao local do ferimento.
        – A gente nunca acha que vai acontecer o pior, Seu Noronha... Mas a maldade do ser humano não tem limite!
        – Me contaram, Waldecir. A coisa foi feia.
        – Feia? Feia é pouco. Foi pavorosa!
        Pai e filho se puseram atentos, enquanto o vigilante iniciava seu relato:
        – Eles eram em três. O baixinho era o mais feroz. Um deles mancava... devia ter algum problema na perna, sei lá... Nenhum deles era amador. Eram do mau! O pior de tudo foi o jeito que arranjaram pra entrar no galpão de máquinas... Coisa de filme de terror. De terror!
        Waldecir fez questão de repetir aquelas palavras olhando nos olhos do garotinho. O coitado nem piscou. Ouviu em detalhes como aconteceu o violento assalto à revenda de tratores chefiada por seu pai. Ficou comovido ao saber que os bandidos abordaram um rapaz qualquer, que voltava do trabalho numa bicicleta. Os desalmados espancaram o infeliz até desfigurá-lo. Puseram-no aos prantos, todo ensanguentado, diante do portão da revenda. O coitado chorava... feito criança. Batia no portão, implorando por ajuda.
        O colega de Waldecir abriu a portinhola, horrorizou-se com aquela figura disforme e destrancou o portão para socorrê-lo, sem desconfiar que os criminosos estavam ocultos nas sombras da noite. O vacilo custou caro! Os três invadiram o galpão, renderam o incauto e cantaram vitória.
        Por sorte, Waldecir apareceu em cena. Percebeu a invasão, sacou a arma e disparou sem dó. A troca de tiros foi intensa, resultando em diversas perfurações nas paredes da revenda, nos tratores e também na barriga de Waldecir. Os três facínoras fugiram sem levar nada. Deixaram o outro vigilante estatelado no chão, à beira da morte, com uma bala encalacrada na altura do pescoço. Também deixaram o pobre rapaz da bicicleta... chorando... feito criança.
        Ao final do relato, o filho de Noronha era pura tristeza. Atento às suas reações, o pai o olhou nos olhos e passou a mão na sua cabeça. Depois, voltou-se para o vigilante e disse com firmeza:
        – Você foi corajoso, Waldecir... Mas... foi imprudente demais!
        O vigilante olhou para o gerente com espanto. O garotinho fez o mesmo, tentando entender porque o pai criticava tamanha prova de heroísmo e destemor. Assumindo a postura de professor, Noronha continuou a aula. Falava para Waldecir, mas olhava nos olhos do filho:
        – Se você tivesse pensado duas vezes, Waldecir, tinha largado a arma. Tinha evitado o tiroteio. Não precisava agir com mais violência ainda! Trator tem seguro! Se eles tivessem roubado, a companhia recuperava tudo mais tarde.
        – Olha, seu Noronha... A gente é treinado pra não pensar duas vezes, porque violência é pra valer! Ela tá sempre rondando por aí. Quando a gente dá de cara com ela, é covardia fugir feito um bundão, né?
        – Quando eu era pequeno, Waldecir, meu pai me ensinou uma coisa: violência só chega perto se a gente deixa! – Olhando para o filho, Noronha subiu o tom de voz, cuidando para que as palavras saíssem pausadas e muito bem pronunciadas. – A melhor maneira de se proteger da violência é não viver em função dela.
        – O senhor tá certo, Seu Noronha – admitiu o vigilante, só para não contrariar o gerente, que àquela altura lhe parecia um reles bunda-mole. Mas continuou se justificando: – Aqueles bandidos eram cruéis! Se não tivesse me defendido, iam acabar me matando também... Graças a Deus, tô vivo!
        – Claro... Claro! Tenho certeza que você vai ficar bom, Waldecir – disse Noronha. Depois, virou-se para o filho e o olhou nos olhos, para se certificar de que a lição havia sido aprendida. Satisfeito, retomou os movimentos precisos e metódicos de desprender os documentos da prancheta e guardar tudo de volta na pasta de couro.
        – Sinceramente, Waldecir, não sei se eu teria vocação pra fazer o seu trabalho. Jamais seria um bom vigilante. Sou mais da conversa... Prefiro resolver as coisas na paz, com inteligência – continuou Noronha, passando a mão na cabeça do filho. E concluiu: – A melhor maneira de evitar a violência é manter distância dos violentos. Ficar longe daqueles que não ficam incomodados quando ela explode.
        Waldecir sorriu, mas dessa vez um sorriso de quem não faz a menor questão de demonstrar empatia. Nem sequer olhou para o garotinho. Colocou a mão no abdome para mostrar que sentia outra fisgada e ironizou:
        – O ser humano é uma merda, Seu Noronha... Mas... a gente tá aqui pra fazer o nosso trabalho. Pra cumprir a porra do dever.
        Noronha olhou no relógio e apertou a mão do vigilante.
        – Bem, Waldecir, obrigado por tudo. Lá na firma tá todo mundo preocupado com você. O pessoal diz que vem te visitar... De dois em dois, pra não atrapalhar nem lá, nem aqui! Espero que você se recupere bem rápido. Se precisar de alguma coisa... É só ligar. Desculpe a visita de médico, mas a gente tem que ir... Né, filho? – concluiu Noronha, empunhando a pasta de couro e puxando o garoto pela mão.
        Waldecir acenou enquanto pai e filho tomavam o rumo da porta. Ficou com a impressão de que não veria os dois tão cedo. Ficou também com uma dúvida cutucando a curiosidade:
        – Por que diabos um bundão como aquele traria um garoto tão novinho pra porra de uma enfermaria lotada?

Comentários

  1. Gostei muito. Curto, mas com conteúdo para deixar o leitor procurar responder à pergunta do Waldecir.

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