Direto ao Conto - 3


FRAGMENTOS

Anselmo acordou cedo. Como de costume, sentou-se na beirada da cama e arrastou os pés, procurando os chinelos pelo chão. Primeiro o direito, depois o esquerdo. Seguiu para o banheiro e mijou demoradamente. Depois parou diante do espelho e começou a inspeção: as entradas da calvície, a simetria do bigode, os pelos brancos da barba... Sim, conseguia reconhecer a si mesmo. Sim, tinha plena consciência dos seus 79 anos. Sim, lembrava-se de que era quinta-feira, dia de diarista.
        Nenhum sinal do temido Alzheimer!
        Satisfeito, Anselmo se pôs a escovar os dentes. Quando terminou, concluiu que precisava acordar Isabel com um beijo. Ela iria adorar uma tal demonstração de carinho. A volta para o quarto, no entanto, foi um desajeitado tropeço na realidade. A cama estava vazia. Isabel já estava morta há quase dois anos!
        Sentado na beirada da cama, Anselmo passou um bom tempo encarando a face do temido Alzheimer!

-x-

Lívia subiu correndo os primeiros lances de escada. Quando chegou no terceiro andar, encontrou a diarista sentada nos degraus. A velha senhora se levantou com certa dificuldade e foi avisando:
        – Já toquei a campainha... Já bati na porta... Já telefonei...
        Lívia tocou a campainha, bateu na porta e telefonou mais uma vez. Desceu até o apartamento do síndico e voltou com o cartão de visitas de um chaveiro de extrema confiança. Enquanto ligava, passando o endereço, secretamente esperou pelo pior. Foi a diarista que a fez se virar, depois de cutucar seu ombro com insistência.
        – Pai! Que droga!
        Subindo as escadas, Anselmo não viu motivo para tanta celeuma. Tirou as chaves do bolso do casaco e não deixou que a filha lhe tomasse a sacola de papelão que vinha carregando.

-x-

Na cozinha, enquanto enchia duas canecas com café fumegante, Lívia ainda estava trêmula. Não bastasse o ruído irritante do aspirador de pó chegando do quarto, agora tinha que lidar com o tom sussurrado do pai.
        – Tive que ir ao banco.
        – Por que?
        – Porque eu me lembrei!
        – De que?
        – De tudo! Na verdade, nunca esqueci...
        Lívia olhou nos olhos do pai, procurando sinais de demência. Tudo o que enxergou foi a velhice: rugas, pés-de-galinha, dentes amarelados, manchas na pele... Com receio de que as próximas palavras não passassem de sandice, ela não escondeu o próprio embaraço.
        – Minha cabeça não é mais a mesma, filha. Hoje eu tive um branco. Pelo jeito, tô com a mesma doença que judiou do meu pai. Quem me garante que amanhã não vou ter outro branco? Depois outro... Vai que eu não continue lembrando. Que eu siga esquecendo...
        Quer pôr um pai demente irritado? Demonstre embaraço!
        – Puta que pariu! Ainda não tô caduco!
        Anselmo tinha a mente de um engenheiro – a de um graduado nas altas instâncias dos principais círculos da aeronáutica. Respirou fundo e se ancorou na autoridade de quem passou décadas comandando outros engenheiros igualmente brilhantes. Buscou seu tom de voz mais didático e assumiu o controle da situação.
        – Jamais contei isso pra ninguém... Nem pra sua mãe!
        Lívia acompanhou os movimentos cuidadosos do pai, enquanto ele afastava a xícara de café e abria espaço na mesa para a sacola de papelão que acabara de trazer. A primeira coisa que Anselmo retirou de lá foi uma pilha de revistas velhas. A segunda, foi um porta-joias. A terceira e última, um envelope.
        – A gente tinha acabado de se mudar pra São José dos Campos. Os boatos já corriam por toda a cidade, mas pensava que era tudo besteira. Então, chegaram os fragmentos! Eram só destroços e caberiam todos numa caixa de sapatos. Mas havia um pedaço maior, que era claramente um artefato! Era metálico, cilíndrico, maciço... Uma peça usinada, do tamanho de um amortecedor de carro, só que dez vezes mais leve! Não era funcional. Ninguém arriscou qualquer palpite sobre o que poderia ser. Segundo os pilotos, estava dentro de uma esfera luminosa, que se desprendeu do OVNI que estavam perseguindo. A esfera bateu no solo e se espatifou. Nossa equipe de terra recolheu o que encontrou. Passamos um dia inteiro examinando, pedaço por pedaço, tentando adivinhar como eles se encaixavam, até que uma coisa estranha aconteceu: o artefato mudou de cor e começou a emitir uma luz amarelada. O coronel mandou todo mundo sair e ninguém, nunca mais, ouviu falar qualquer coisa a respeito dos fragmentos.
        Lívia quase não respirava. Ainda estava processando aquela enxurrada de informações. Em outras circunstâncias, daria crédito ao pai, mas ali, naquela cozinha bagunçada e repleta de banalidades cotidianas, uma história de OVNIs não fazia sentido. Ou será que fazia?
        – Fui obrigado a assinar um contrato de confidencialidade. Se vazasse qualquer coisa, adeus proventos e gratificações! Mas a verdade, filha, é que esse seu pai não foi um completo idiota. Nada disso! Enquanto examinava os fragmentos – juro que foi por acaso – um pequeno pedaço se desprendeu do artefato. O pedacinho meio que se... desencaixou. Escorregou e ficou entre os dedos médio e anular da minha mão esquerda, amparado pela minha aliança. Não pensei direito... Disfarcei, enfiei a mão no bolso e ninguém deu falta do pedacinho. Levei pra casa e guardei. Os meses se passaram e ninguém jamais tocou no assunto. Certa noite, estava trabalhando em casa quando senti uma vibração de baixa frequência. Abri a gaveta da escrivaninha e lá estava o pedacinho de metal, emitindo uma luz amarelada. Depois de alguns segundos, se apagou. Que merda! Tinha nas mãos alguma coisa misteriosa, que precisava ser examinada por especialistas. Químicos, físicos, ufólogos... Sei lá! O problema é que eu não podia estar de posse daquela coisa. Tinha assinado um contrato! Coloquei o fragmento num porta-joias e aluguei um cofre no banco. Ficou lá por todos esses anos... Até hoje!
        Lívia arregalou os olhos quando o pai, sem qualquer cerimônia, segurou o porta-joias e o abriu. Anselmo aproximou o rosto para melhor enxergar o conteúdo. A filha fez o mesmo. Não piscava, não respirava... Ficou alguns segundos olhando para aquele pedacinho de metal, que mais parecia um pequeno parafuso, daqueles usados para prender a haste na armação dos óculos e que costumam ficar tão espanados que o único jeito é levar tudo até uma ótica, onde o balconista poderá usar a sua minúscula chave de fenda para apertar o conjunto, sem cobrar um centavo pelo serviço, apenas para que você vire freguês da loja...
        Como o pequeno fragmento não mudou de cor, nem emitiu luz alguma, Anselmo colocou o porta-joias em cima da mesa. Preferiu pegar a pilha de revistas velhas e folheá-las, discorrendo aleatoriamente sobre algumas das reportagens. Eram todas publicações especializadas em OVNIs, UFOs e outros temas misteriosos. Tinham um cheiro embolorado de sensacionalismo. Em poucos minutos, Lívia estava novamente demonstrando embaraço.
        Enquanto Anselmo espalhava as revistas abertas em cima da mesa, esbanjando fluência no linguajar técnico dos engenheiros aeronáuticos, Lívia preferiu dar atenção ao envelope que completava o misterioso conteúdo da sacola. O tomou nas mãos e o abriu com cuidado, retirando um papel dobrado. Era um documento, com logotipo do banco. Um recibo, dando quitação do serviço de aluguel de um cofre. Só isso.
        Lívia passou os próximos minutos tentando reconhecer a face do temido Alzheimer, olhando nos olhos do seu velho pai.
        Quando a diarista apareceu, perguntando pela roupa de cama que deveria ser trocada, Lívia deixou o pai sozinho e aproveitou para cuidar das coisas mais importantes. Ficou entretida, inspecionando o trabalho da velha senhora, até que ouviu um ruído de caneca se espatifando no chão e um sonoro “puta que pariu!” berrado por Anselmo. Ao chegar na cozinha, ela de imediato desvendou toda a cena do crime: como o café havia esfriado, seu pai acendeu uma das bocas do fogão e colocou a caneca diretamente sobre ela para esquentar. Queimou a mão.

-x-

Lívia deixou o dinheiro da diarista sobre o balcão da sala, mas preferiu manter em aberto a data da próxima diária. Anselmo não poderia mais seguir morando sozinho. Estava ficando perigoso demais. Teria que tomar uma decisão: colocá-lo numa casa de repouso ou arrumar um quarto para ele na sua própria casa – o que dependeria de uma complexa negociação com o marido e os dois filhos. O mais difícil de tudo seria convencer o velho cabeça-dura de que já não poderia levar uma vida independente.
        Antes de sair, Lívia pegou o cartão de visitas do chaveiro de extrema confiança e ligou, encomendando cópias da chave do apartamento. Quando saiu, o ruído do aspirador de pó estava tão irritante que ela não percebeu a vibração de baixa frequência irradiando de dentro da sacola de papelão, largada num canto da estante da sala.

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