Anatomia de uma Queda: um filme imperdível

Cena do filme Anatomia de uma Queda
Anatomia de uma Queda: Direção de Justine Triet

É TUDO QUESTÃO DE NARRATIVA!

Trogloditas ao redor da fogueira, abrigados em alguma caverna providencial, já exercitavam as complicações da narrativa. Entre tentativas de influenciar decisões, apresentando diferentes versões dos fatos, já se mostravam exímios contadores de histórias. Continuamos a tradição e fomos além, aperfeiçoando os meios de comunicação e ampliando nossas capacidades expressivas. Hoje, nosso mundo se tornou uma complexa construção de... histórias! Não é exagero afirmar que, para muitos, abraçar uma narrativa tornou-se mais palpável do que abraçar os fatos. Essas são, normalmente, menos espinhosas do que aqueles!
        Mas onde fica, afinal, o nascedouro das narrativas? De onde elas brotam por primeiro, inundando nosso entendimento da realidade? Em seu filme Anatomia de uma Queda, que dirigiu em 2023, a cineasta francesa Justine Triet traz uma resposta na ponta da língua: elas nascem entre os casais! É no convívio mais íntimo entre duas pessoas – e suas dinâmicas de tensão e relaxamento – que se desenvolvem todas as estruturas narrativas, para serem então replicadas nas demais instâncias das interações humanas. Onde mais haveríamos de ouvir exposições tão viscerais, convincentes e sinceras? Onde mais haveríamos de encontrar tantas minúcias relevantes, tantos atos justificáveis, tantas motivações pertinentes?
        Talvez haja um único lugar onde as narrativas reverberem mais do que entre as quatro paredes que cercam a intimidade de um casal: o tribunal! E é para lá que a diretora nos leva, mostrando que nossa compreensão dos fatos vem sempre intermediada pela maneira como eles são narrados. Mas é injusto dizer que ela realizou apenas um “filme de tribunal”. Anatomia de uma Queda é um drama psicológico denso e envolvente – em certos momentos tão magistral quanto uma obra de Ingmar Bergman! – onde podemos mergulhar em profundidade no íntimo dos personagens, vivenciar experiências e extrair aprendizados.
        Antes de seguir examinando os detalhes desse filme, vamos estabelecer a sua sinopse: Anatomia de uma Queda conta a história de Sandra Voyter (Sandra Hüller), uma bem-sucedida escritora alemã que vive num chalé cravado nas montanhas francesas, em Grenoble, juntamente com o marido, Samuel Maleski (Samuel Theis), e o filho de 11 anos, Daniel (Milo Machado Graner), um garoto de inteligência precoce, que sofre de deficiência visual e se vale da assistência de Snoop, um gracioso e fiel border collie. A vida normal da família desaba quando Samuel é encontrado morto, estatelado na neve. Por certo despencou no alto do chalé. Terá sido suicídio? Terá sido vítima de uma agressão? A tragédia vivida pela famosa escritora é um prato cheio para a mídia, que se esbalda na repercussão do caso, até que ele vá a julgamento pelo assassinato do marido e se comprometa em revelações espetaculares. Sandra verá sua vida exposta até as entranhas, enquanto seu advogado e velho amigo, Vicent (Swann Arlaud), se esforçará em sua defesa. O pequeno Daniel não será poupado e terá que tomar parte num julgamento que definirá os rumos da sua vida.
        Justine Triet escreveu o roteiro de Anatomia de uma Queda em parceria com seu companheiro, Arthur Harari, num esforço minucioso e quase... confessional, já que na história que inventaram, a protagonista e seu marido são ambos escritores e também se valem de suas experiências pessoais para adicionar verossimilhança e densidade emocional às obras de ficção que entregam a seus leitores. Além disso, a excelente atriz alemã Sandra Hüller, escolhida pela diretora desde quando a ideia do filme começou a tomar forma, veio para acrescentar camadas adicionais à protagonista. Talentosa, ela trouxe uma energia notável ao filme e expressou ampla gama de emoções.
        Como realizadora, Justine Triet esbanjou maturidade. Soube posicionar a câmera no ponto certo, para nos permitir bisbilhotar a intimidade dos personagens e nos deixar criar nossa própria narrativa. Em vários momentos se beneficiou dos clichês televisivos da linguagem documental e em outros, se atreveu a fazer suspense. Mas o tempo todo soube tirar proveito do universo sonoro como componente dramático, tornando sua história ainda mais verdadeira.
        Em nenhum momento a diretora perdeu o foco. Manteve suas lentes enquadrando o relacionamento dos protagonistas, mesmo nas sequências passadas no tribunal. Foi quando ela aproveitou para construir ótimas cenas expositivas, revelando as nuances, as contradições e os segredos mais íntimos do casal, que se desnudou por completo para um público interessado em conhecer todos os seus detalhes anatômicos. Sim! Nós, o público, também nos vemos tomando parte nessa história! Nossa curiosidade e nosso voyeurismo fazem parte do filme!
        No cinema de Justine Triet, o sistema judiciário francês parece mais intricado que o americano, já retratado à exaustão por Hollywood. Promotoria e defesa se digladiam o tempo todo e cada discurso parece ser decisivo, o derradeiro. As narrativas vão surgindo em profusão e cada testemunha se atreve a empurrar uma opinião junto com os fatos. Todos parecem lidar com a verdade do mesmo modo criativo que o fazem com a ficção. Seguimos aflitos, tentando descobrir, afinal, qual das narrativas prevalecerá. Mas em se tratando de uma obra madura e complexa, não devemos esperar por explicações ou assertividades.
        Ironicamente, é pelo olhar fragilizado do pequeno Daniel que percebemos o retrato da protagonista se formando, em ângulos desconcertantes, mas sempre muito expressivos. Martelando o piano, o garoto é uma usina de sensibilidade e um farol de lucidez piscando em precocidade. E nós, brasileiros, ainda temos um motivo adicional para ver arrepiar nossos cabelinhos do braço, quando o ouvimos dedilhando o Prelúdio em Mi menor Op28 nº4, de Frédéric Chopin, aquele que inspirou Tom Jobim a compor sua Insensatez – quase esbarrando na fronteira do plágio, mas aí já estou entrando no campo das narrativas. É melhor deixar pra lá!
        Enfim, a diretora Justine Triet assumiu o controle criativo do filme e conseguiu imprimir um ritmo ágil, alguma atmosfera de suspense e uma aura de intelectualidade que agradou tanto à crítica especializada como ao público. Venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e ganhou o Óscar de melhor roteiro original, entre muitos outros prêmios. Enfim, conquistou um lugar de destaque entre os grandes nomes do cinema francês. Anatomia de uma Queda é um filme imperdível!

Resenha crítica do filme Anatomia de uma Queda

Título original: Anatomie d'une chute
Ano de produção: 2023
Direção: Justine Triet
Roteiro: Justine Triet e Arthur Harari
Elenco: Sandra Hüller, Swann Arlaud, Milo Machado Graner, Antoine Reinartz, Samuel Theis, Jenny Beth, Saadia Bentaieb, Camille Rutherford, Anne Rotger e Sophie Fillières

Comentários

  1. Concordo totalmente com o cronista. Imperdível mesmo. Um filme denso, atual e magnético.

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  2. Assisti este filme e cada vez que leio a respeito me faz rever, embora não tenha perdido nenhum detalhe, pois ele toma 100 % de sua atenção.

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    1. Sim, Octavio, há tantas minúcias nesse filme que é preciso várias visitações para apreender tudo. É por isso que gosto de compartilhar informações com os cinéfilos. Vamos lendo a respeito, formando opinião e descobrindo sutilezas!

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