Crítica | Anatomia de uma Queda: Justine Triet acerta em cheio nesse drama psicológico repleto de cenas magistrais
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Anatomia de uma Queda: direção primorosa de Justine Triet
É TUDO QUESTÃO DE NARRATIVA!
Onde é o nascedouro das narrativas? De onde elas brotam por primeiro, para inundar o nosso entendimento da realidade? Em seu filme Anatomia de uma Queda, que dirigiu em 2023, a cineasta francesa Justine Triet traz uma resposta na ponta da língua: elas nascem entre os casais! É no convívio mais íntimo entre duas pessoas – e suas dinâmicas de tensão e relaxamento – que se desenvolvem todas as estruturas narrativas; elas serão então replicadas nas demais instâncias das interações humanas. É entre quatro paredes que ouvimos as exposições mais viscerais, convincentes e sinceras.

Anatomia de uma Queda: o tribunal vira palco das narrativas mais íntimas

Anatomia de uma Queda: exposição máxima na mídia

Anatomia de Uma Queda: Justine Triet agarra o controle criativo

Anatomia de uma Queda: nem o filho será poupado
Ano de produção: 2023
Direção: Justine Triet
Roteiro: Justine Triet e Arthur Harari
Muito mais do que um drama de tribunal
Talvez haja um único lugar onde as narrativas reverberem mais do que entre as quatro paredes que cercam a intimidade de um casal: o tribunal! E é para lá que a diretora nos leva. Mostra que nossa compreensão dos fatos vem sempre intermediada pela maneira como eles são narrados. Mas é injusto dizer que ela realizou apenas um “filme de tribunal”. Anatomia de uma Queda é um drama psicológico denso e envolvente – em certos momentos tão magistral quanto uma obra de Ingmar Bergman! – onde podemos mergulhar em profundidade no íntimo dos personagens, vivenciar experiências e extrair aprendizados.
Anatomia de uma Queda: o tribunal vira palco das narrativas mais íntimas
A sinopse: a vida exposta em toda a sua intimidade
Antes de examinar os detalhes desse filme, vamos estabelecer a sua sinopse: Anatomia de uma Queda conta a história de Sandra Voyter (Sandra Hüller), uma bem-sucedida escritora alemã que vive num chalé cravado nas montanhas francesas, em Grenoble, juntamente com o marido, Samuel Maleski (Samuel Theis), e o filho de 11 anos, Daniel (Milo Machado Graner), um garoto de inteligência precoce, que sofre de deficiência visual e se vale da assistência de Snoop, um gracioso e fiel border collie. A vida normal da família desaba quando Samuel é encontrado morto, estatelado na neve. Por certo despencou no alto do chalé. Terá sido suicídio? Terá sido vítima de uma agressão?

Anatomia de uma Queda: exposição máxima na mídia
A tragédia vivida pela famosa escritora é um prato cheio para a mídia, que se esbalda na repercussão do caso, até que ele vá a julgamento pelo assassinato do marido e se comprometa em revelações espetaculares. Sandra verá sua vida exposta até as entranhas, enquanto seu advogado e velho amigo, Vicent (Swann Arlaud), se esforçará em sua defesa. O pequeno Daniel não será poupado e terá que tomar parte num julgamento que definirá os rumos da sua vida.
Roteiro bem costurado e direção talentosa
Justine Triet escreveu o roteiro de Anatomia de uma Queda em parceria com seu companheiro, Arthur Harari, num esforço minucioso e quase... confessional, já que na história que inventaram, a protagonista e seu marido são ambos escritores e também se valem de suas experiências pessoais para adicionar verossimilhança e densidade emocional às obras de ficção que entregam a seus leitores. Além disso, a excelente atriz alemã Sandra Hüller, escolhida pela diretora desde quando a ideia do filme começou a tomar forma, veio para acrescentar camadas adicionais à protagonista. Talentosa, ela trouxe uma energia notável ao filme e expressou ampla gama de emoções.Uso inteligente da linguagem audiovisual
Como realizadora, Justine Triet esbanjou maturidade. Soube posicionar a câmera no ponto certo, para nos permitir bisbilhotar a intimidade dos personagens e nos deixar criar nossa própria narrativa. Em vários momentos se beneficiou dos clichês televisivos da linguagem documental e em outros, se atreveu a fazer suspense. Mas o tempo todo soube tirar proveito do universo sonoro como componente dramático, o que tornou sua história ainda mais verdadeira.
Anatomia de Uma Queda: Justine Triet agarra o controle criativo
Em nenhum momento a diretora perdeu o foco. Manteve suas lentes no relacionamento dos protagonistas, mesmo nas sequências passadas no tribunal. Foi quando ela aproveitou para construir ótimas cenas expositivas. Revelou as nuances, as contradições e os segredos mais íntimos do casal, que se desnudou por completo para um público interessado em conhecer todos os seus detalhes anatômicos. Sim! Nós, o público, também temos participação nessa história! Nossa curiosidade e nosso voyeurismo fazem parte do filme!
Afinal, qual narrativa sairá vencedora?
No cinema de Justine Triet, o sistema judiciário francês parece mais intricado que o americano, já retratado à exaustão por Hollywood. Promotoria e defesa se digladiam o tempo todo e cada discurso parece ser decisivo, o derradeiro. As narrativas surgem em profusão e cada testemunha se atreve a empurrar uma opinião junto com os fatos; todos parecem lidar com a verdade do mesmo modo criativo que o fazem com a ficção. Seguimos aflitos, na expectativa de descobrir, afinal, qual das narrativas prevalecerá. Todavia, como estamos diante de uma obra madura e complexa, não devemos esperar por explicações ou assertividades.
Anatomia de uma Queda: nem o filho será poupado
Inocência martelando ao piano
Ironicamente, é pelo olhar fragilizado do pequeno Daniel que percebemos o retrato da protagonista a se formar, em ângulos desconcertantes, mas sempre muito expressivos. Martelando o piano, o garoto é uma usina de sensibilidade e um farol de lucidez que pisca em precocidade. E nós, brasileiros, ainda temos um motivo adicional para ver arrepiar nossos cabelinhos do braço, quando ouvimos o dedilhado do Prelúdio em Mi menor Op28 nº4, de Frédéric Chopin, aquele que inspirou Tom Jobim a compor sua Insensatez – quase esbarrando na fronteira do plágio, mas aí já estou entrando no campo das narrativas. É melhor deixar pra lá!Prêmios e reconhecimento do público
Enfim, a diretora Justine Triet assumiu o controle criativo do filme e conseguiu imprimir um ritmo ágil, alguma atmosfera de suspense e uma aura de intelectualidade que agradou tanto à crítica especializada como ao público. Venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e ganhou o Óscar de melhor roteiro original, entre muitos outros prêmios. Enfim, conquistou um lugar de destaque entre os grandes nomes do cinema francês. Anatomia de uma Queda é um filme imperdível!Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção madura e criativa de Justine Triet, o roteiro impecável, a atmosfera de suspense e uma certa aura de intelectualidade.
O que impressiona: personagens tratados em profundidade, como nas melhores obras de Ingmar Bergman.
Imperdível. Merece todos os prêmios que conquistou.
Ficha técnica do filme Anatomia de uma Queda
Título original: Anatomie d'une chuteAno de produção: 2023
Direção: Justine Triet
Roteiro: Justine Triet e Arthur Harari
Elenco:
- Sandra Hüller
- Swann Arlaud
- Milo Machado Graner
- Antoine Reinartz
- Samuel Theis
- Jenny Beth
- Saadia Bentaieb
- Camille Rutherford
- Anne Rotger
- Sophie Fillières
Concordo totalmente com o cronista. Imperdível mesmo. Um filme denso, atual e magnético.
ResponderExcluirAh, esse vale a pena conferir!!!?
ExcluirAssisti este filme e cada vez que leio a respeito me faz rever, embora não tenha perdido nenhum detalhe, pois ele toma 100 % de sua atenção.
ResponderExcluirSim, Octavio, há tantas minúcias nesse filme que é preciso várias visitações para apreender tudo. É por isso que gosto de compartilhar informações com os cinéfilos. Vamos lendo a respeito, formando opinião e descobrindo sutilezas!
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