A Condenação: a história real de Betty e Kenny Waters

Cena do filme A Condenação
A Condenação: direção de Tony Goldwyn

AINDA BEM QUE EVITARAM O MELODRAMA

Certo, vamos partir do princípio de que não existe sistema judiciário perfeito. Aliás, no campo das ciências humanas, falar em perfeição é um atrevimento. Mais apropriado é avaliar os sistemas de justiça pela sua eficácia. O que esperamos deles? Que garantam o cumprimento das leis e protejam os cidadãos da interferência dos poderosos, dos agentes políticos e dos governos. Acontece que, vez ou outra, algumas partes interessadas – incluindo a polícia, o sistema prisional, a mídia, grupos de pressão e tantos outros agentes sociais – conseguem manipular o sistema na surdina. Imparcialidade e independência deixam de existir, fazendo com que a eficácia caia por terra. O sistema acaba decidindo de forma... injusta! Os danos são irreparáveis, pelo menos até o momento em que alguém consegue encontrar o erro e corrigi-lo.
        A Condenação, filme de 2010 dirigido por Tony Goldwyn conta como a justiça americana meteu os pés pelas mãos ao julgar o caso de Kenneth Waters. Ele amargou 18 anos no cárcere, depois de ter sido condenado à prisão perpétua por um assassinato que não cometeu. Foi sua irmã, Betty Anne Waters, quem vasculhou todos os escaninhos do sistema de justiça até encontrar os meios de comprovar sua inocência e reparar um assombroso acúmulo de erros e irregularidades.
        Não, este não é um filme de tribunal. Tampouco é do tipo que enaltece as qualidades dos protagonistas, investindo em cenas melodramáticas para gerar empatia e levar o espectador às lágrimas durante um final edificante. A Condenação é um drama sério e contido, que evita abordagens açucaradas e se concentra no arco dramático desenvolvido pelos protagonistas. Está fortemente ancorado no carisma de Hilary Swank e Sam Rockwell, astros com atuações convincentes, que encontraram um roteiro bem costurado e um diretor habilidoso na condução do elenco.
        Trata-se de um filme difícil. A história exige atenção às cenas expositivas, para deixar o espectador a par dos desdobramentos legais do caso. As idas e vindas em flashbacks demandam consistência nas atuações, deixando no ar a possibilidade de que, a qualquer momento, a narrativa derrape em pieguice. Por sorte, o diretor Tony Goldwyn tomou a decisão de não dourar a pílula para os protagonistas.
        De fato, Kenny e Betty são duas pessoas complicadas! Foram crianças abandonadas, que se tornaram adultos desagradáveis e aprontaram muito enquanto tentavam se adaptar à sociedade. Ganharam a antipatia de muitos e amargaram o desprezo de tantos, sem jamais deixar de agir por impulso nem abrir mão do comportamento obsessivo. Nos primeiros dois atos de A Condenação, o espectador acumula uma boa dose de raiva de ambos. Mas antes de seguir, vamos examinar a sinopse do filme!
        Nos anos 1980, Betty (Hilary Swank), casada e mãe de dois filhos, vive ao redor de uma obsessão: tirar Kenny (Sam Rockwell) da prisão. Ele foi condenado pelo assassinato de Katherina Reitz Brow, com base em provas circunstanciais e no testemunho de sua ex-esposa, Brenda (Clea DuVall), da ex-namorada, Roseanna (Juliette Lewis) e da policial Nancy Taylor (Melissa Leo). Remando contra todas as dificuldades, a impulsiva Betty faz o improvável: volta aos bancos escolares, forma-se em direito e presta exame para a ordem dos advogados. Torna-se a defensora legal do irmão e descobre a possibilidade de provar sua inocência por meio de uma novidade tecnológica: o exame de DNA! Mas só isso não será suficiente, pois ela descobrirá que o sistema de justiça é pródigo em tentar varrer seus erros para debaixo do tapete.
        Adaptar essa história real para as telas foi uma missão que coube à roteirista Pamela Gray, que já havia escrito o roteiro de A Walk on the Moon, filme anterior do diretor Tony Goldwyn. Essa nova parceria, no entanto, exigiu doses maiores de empenho. Além de se envolver em longas sessões de pesquisa, entrevistando e convivendo com os personagens reais que precisaram ser retratados, a roteirista precisou se aprofundar nos meandros jurídicos do caso.
        O diretor Tony Goldwyn levou oito anos para começar a filmar, depois de amargar um verdadeiro périplo para enfim viabilizar a produção. Experiente no universo da TV – dirigiu vários episódios de séries como Dexter e Law & Order – ele talvez seja mais conhecido do público como ator, tendo participado em inúmeros filmes. Foi ele quem interpretou, por exemplo, o vilão Carl Bruner no filme Ghost - Do Outro Lado da Vida. Sua experiência à frente das câmeras certamente contribuiu para formar seu estilo na direção. Ele dá total liberdade para os atores e, de certa forma, confia prioritariamente neles para ancorar a força dramática do seu filme.
        É claro que, por causa dos antecedentes televisivos de Tony Goldwyn, A Condenação exibe um pouco da atmosfera que nos acostumamos a ver na telinha. Mas é injusto dizer que tem cara de telefilme. Nada disso! Além da trilha sonora muito bem escolhida, traz cenas econômicas e eloquentes, principalmente no final, quando respiramos aliviados por não termos sido expostos a doses exageradas de melodrama. Eis aqui uma história real muito bem contada. Recomendo conferir!

Resenha crítica do filme A Condenação

Título original: Conviction
Título em Portugal: A Advogada
Ano de produção: 2010
Direção: Tony Goldwyn
Roteiro: Pamela Gray
Elenco: Hilary Swank, Bailee Madison, Sam Rockwell, Minnie Driver, Ele Bardha, Melissa Leo, Ari Graynor, Loren Dean, Karen Young, Jennifer G. Roberts, Clea DuVall, Juliette Lewis e Peter Gallagher

Comentários

  1. Vou assistir pela crônica. Não tinha visto. Com certeza vou gostar

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  2. Assisti pela recomendação e não me decepcionei. Além disso, que ator é o Sam Rockwell.

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