Crítica | Lee: Ellen Kuras acerta ao evitar o feminismo panfletário e entrega uma cinebiografia envolvente. É claro que Kate Winslet brilha!

Lee: dirigido por Ellen Kuras
TESTEMUNHA DOS HORRORES DA GUERRA
Para muitos cinéfilos, a grife Kate Winslet virou selo de qualidade. A face da atriz estampada nos cartazes promocionais de qualquer produção, tornou-se um estímulo para apertar o play. Foi o que fiz ao me deparar no serviço de streaming com o filme Lee, dirigido em 2023 por Ellen Kuras. Nos primeiros minutos, porém, um calafrio percorreu minha espinha: percebi que poderia ser submetido a uma desgastante ladainha feminista! Mas, não! Cheguei aos créditos finais satisfeito com o cinema bem realizado.Uma mulher no front dos homens
Minha preocupação se justifica, porque se trata de uma cinebiografia da modelo e fotógrafa Lee Miller, que durante a Segunda Guerra Mundial atuou como correspondente da edição britânica da revista Vogue; foi uma das primeiras a entrar nos campos de concentração e fotografar os horrores do Holocausto. Encarou situações difíceis no front e passou por tragédias pessoais, enquanto carregava o peso extra do sexismo a dificultar-lhe a vida. Num mundo dominado por homens, suas ousadias eram facilmente reprovadas, o que jamais a demoveu – tinha estofo profissional!Gosta de analisar os filmes em profundidade?
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Lee: Ellen Kuras retrata uma personagem forte e sensível
Uma fotógrafa talentosa
O primeiro muro ao qual Lee Miller vai de encontro é o do sexismo – e ela absorve o impacto com brilhantismo; não levanta bandeiras feministas nem lança mão de espalhafatos panfletários. O segundo muro é o da insanidade coletiva que, diante das guerras, tolera absurdos e destroça os indivíduos. Esse ela ajudou a derrubar com seu talento de fotógrafa sensível; largou a segurança em Londres para trabalhar no continente deflagrado. E quantas imagens registrou! Quando a revista Vogue decidiu não as publicar, por causa de pressões do governo – não queriam ferir a sensibilidade das leitoras –, Lee Miller invadiu a sala da editora e destruiu vários negativos. Por sorte, a edição americana da revista já havia recebido cópias e as publicou no final da guerra.
A sinopse: de modelo a correspondente
Lee começa em 1977, quando a protagonista (Kate Winslet) concede uma entrevista para um jovem escritor (Josh O'Connor). É por meio dessa conversa que passamos a conhecer a vida e a personalidade de Lee Miller. A vemos no final dos anos 1930, quando chegou de Nova-Iorque para tentar a carreira de fotógrafa. Na França, ela se embriaga de cultura e boemia, mas se apaixona pelo inglês Roland Penrose (Alexander Skarsgård); muda-se com ele para Londres, mas a guerra os separa..jpg)
Lee: de modelo a correspondente de guerra
Lee Miller segue sua vocação e consegue ser designada pelo exército americano para atuar como correspondente de guerra, ao lado do fotojornalista David Scherman (Andy Samberg). Através dos olhos de Lee, veremos como a fúria dos nazifascistas triturou a Europa; por meio das suas fotografias, conheceremos as diversas camadas de uma artista sensível, cuja vida pessoal ela insistia em deixar num segundo plano.
Kate Winslet abraçou a causa
Baseado na bibliografia escrita em 1985 pelo filho de Lee Miller, Antony Penrose, intitulada The Lives of Lee Miller, o filme nasceu como um projeto pessoal de Kate Winslet. A atriz conheceu o livro por meio da diretora Ellen Kuras e depois buscou o apoio do autor; conseguiu seu total envolvimento e também o acesso a um acervo de mais de 60 mil fotografias, além dos kits de câmera, roupas, cartas pessoais e diários de Lee Miller. Porém, o fato é o próprio Antony Penrose mal conheceu a mãe em vida. Desvendou seu passado a partir das fotografias e cartas que encontrou no sótão da casa dos pais..jpeg)
Lee: narrativa em flashbacks para capturar a totalidade da personagem
Roteiristas experientes
O roteiro original de Lee foi escrito pela ex-editora da Vogue, a jornalista Marion Hume, em colaboração com o roteirista John Collee – que já havia escrito Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo. Mais tarde, quando Ellen Kuras foi escalada por Kate Winslet para dirigir o filme, convocaram a roteirista Liz Hannah – que trazia no currículo o roteiro de The Post: A Guerra Secreta – para escrever um novo tratamento e estabelecer uma estrutura em três atos.Predileção pela narrativa visual
Lee é o filme de estreia de Ellen Kuras na direção de longas-metragens. Faz aqui um trabalho seguro, mas não se permite atrevimentos; nos deixa entrever sua predileção pelo mundo das imagens – ela já havia assinado a fotografia de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Distante Nós Vamos. A diretora estava familiarizada com o trabalho de Lee Miller desde os tempos de universidade e espertamente cravou as lentes na incrível performance de Kate Winslet. Sim, é a atriz que faz todo o trabalho pesado, para manter o padrão dramático do filme. Mas é preciso ressaltar também o trabalho de todo o elenco de apoio, em especial o de Andy Samberg, mais conhecido por seus papéis cômicos, que aqui entrega uma atuação sólida.
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Lee: Kate Winslet fez deste um projeto pessoal
Munição para as feministas
Por meio dessa cinebiografia bem realizada, o grande público agora pode conhecer um pouco sobre Lee Miller. A protagonista, aliás, também ganhou visibilidade no filme Guerra Civil, dirigido em 2024 por Alex Garland; ela inspira o nome da personagem interpretada por Kirsten Dunst e chega a ser citada na trama. Naquele filme, Lee é usada como pretexto para que as feministas bradem seu discurso militante em favor de políticas públicas que combatam as desigualdades entre homens e mulheres – como se tais desigualdades fossem apenas sociais e econômicas. Não sou contra a luta legítima das mulheres para defender seus direitos individuais, preservar seu valor no mercado de trabalho, garantir sua representatividade política e promover a evolução comportamental na direção da aceitação social e da liberdade sexual. O que me incomoda são as distorções do feminismo radical.
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Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a atuação de Kate Winslet, a direção competente de Ellen Kuras, a concepção visual apurada e a narrativa bem articulada.
O que surpreende: a protagonista é retratada em suas diferentes camadas, sem esconder suas fraquezas.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Lee
Ano de produção: 2023Direção: Ellen Kuras
Roteiro: Liz Hannah, John Collee e Marion Hume
Elenco:
- Kate Winslet
- Andy Samberg
- Alexander Skarsgård
- Marion Cotillard
- Andrea Riseborough
- Noémie Merlant
- Josh O'Connor
- Arinzé Kene
- Vincent Colombe
- Patrick Mille
- Samuel Barnett
- Zita Hanrot
- James Murray
A Kate Winslet é excelente atriz. Em todos os seus filmes ela se destaca com sobra e nos leva a cada vez mais admirá-la seja em "Titanic"; "O Leitor"; etc... falta-lhe apenas o Oscar (apesar das seis indicações) para alcançar o patamar mais alto das estrelas.
ResponderExcluirO reconhecimento da academia do Óscar terá que vir um dia! Ela é uma força a serviço da sétima arte.
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