The Post - A Guerra Secreta

IMPRENSA E POLÍTICOS ENTRINCHEIRADOS NUMA GUERRA PERMANENTE PELA CONQUISTA DA OPINIÃO PUBLICA


The Post - A Guerra Secreta: dirigido por Steven Spielberg

            Estava navegando pelo serviço de streaming, quando me deparei com The Post – A Guerra Secreta, um filme de 2017 dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Meryl Streep e Tom Hanks. – É esse! – exclamei em voz alta. Estava precisando de um filme que atenuasse a saudade de cinema de qualidade.
            – Com tantos nomes estrelados, acho que vale a pena conferir – disse Ludy, mostrando-se pouco animada com a temática do filme. Uma guerra entre jornais travada nos anos 70 pareceu a ela um tanto... sonolenta.
            Minha mulher, porém, esqueceu-se de que à frente do filme estava um diretor experiente, com pleno domínio dos imensos recursos cinematográficos que tem ao seu dispor. The Post é ágil, denso e empolgante. Uma produção que, apesar de suas virtudes, não foi recebida com entusiasmo pela mídia. Passou despercebido! Fiquei curioso em saber porquê.
            O filme narra episódios reais, ocorridos em 1971, quando o New York Times publicou uma série de reportagens baseadas em documentos secretos do Pentágono, mostrando que o governo americano vinha ocultando fatos comprometedores sobre a guerra do Vietnam. Processado pela Casa Branca, o jornal foi proibido pela Suprema Corte de continuar com as reportagens. É quando os jornalistas do Washington Post conseguem pôr as mãos nos mesmos documentos secretos e precisam decidir: publicam o material, comprando uma briga institucional pela liberdade de imprensa, ou se calam para preservar seus interesses comerciais como empresa jornalística, cujas finanças passavam por momento delicado.
            Para listar as virtudes do filme, é preciso começar falando sobre o incrível desempenho do elenco. Meryl Streep interpreta a dona do Washington Post, Kay Graham, que administrava o jornal herdado do pai depois que seu marido, que era de fato quem estava à frente dos negócios, se suicidou. Tom Hanks vive Ben Bradlee, o impetuoso editor chefe do jornal, que transita com desenvoltura entre os políticos poderosos. O elenco é reforçado pelos talentos de Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood e Matthew Rhys.
            Em grande medida, o bom ritmo do filme é mérito de Josh Singer, que assina o roteiro em parceria com Liz Hannah. Singer já havia mostrado intimidade com o tema jornalismo quando assinou o roteiro de Spotlight – Segredos Revelados. Aqui, mais uma vez soube construir cenas ágeis e objetivas, que capturam a atenção do espectador e valorizam os pontos de tensão para dar sentido dramático à história.
            Falar bem da fotografia, da direção de arte, da recriação de época e da trilha sonora, em se tratando de um filme de Spielberg, é chover no molhado. Aliás, para conduzir a música, o diretor mais uma vez chamou... John Williams! Tecnicamente, portanto, The Post é um excelente filme. O que faltou para que se sobressaísse?
            Bem, temas “americanos demais” costumam ser esnobados por aqui. Mas suspeito que o tratamento dado a alguns personagens também tenha atiçado o mau humor dos críticos. Veja, por exemplo, a milionária dona do jornal. Longe de ser uma empresária competente, não demonstra qualquer desenvoltura diante da supremacia masculina que domina o mundo dos negócios. É retratada nas festas chiques que oferece aos seus pares da aristocracia. Mas é sobre os ombros dela que recai o peso da decisão crucial no ápice da trama. Meryl Streep comove segurando muito bem esse peso!
            O personagem do editor chefe também incomodou. Faz o tipo competente, mas não é o estereótipo do jornalista que lidera seu exército em prol de uma causa maior. Cultiva relações com os ricos e poderosos e é por meio delas que se sustenta no topo da cadeia alimentar da profissão. Tom Hanks demonstra isso com propriedade, em algumas cenas que escancaram a maneira como a imprensa e os políticos se imiscuem para defender seus interesses corporativos.
            The Post – A Guerra Secreta nos traz uma história bem contada, com agilidade surpreendente se comparada à de um outro filme emblemático sobre um tema similar: Todos os Homens do Presidente, de 1976, dirigido por Alan J. Pakula. Tenho a impressão de que Spielberg está empenhado em dirigir seus filmes para a nova geração de espectadores. As cenas são construídas com cuidado, trazendo informações redundantes nos campos visual e auditivo. É como se o diretor soubesse que seus filmes não serão apreciados na tela gigante de uma sala de cinema, mas na TV da sala de estar, onde adolescentes com celulares na mão trocam mensagens enquanto “prestam atenção” na trama.
            Para várias gerações de cinéfilos que cresceram respeitando o cinema e seus rituais, espectadores desatentos são seres irritantes. Mas são eles que estão ditando os rumos da sétima arte. Diretores como Spielberg certamente estão buscando maneiras de dialogar com eles, produzindo filmes que possam ser vistos no celular! The Post parece seguir por esse caminho.

Comentários

  1. Amei a sua crônica . Comecei a ver o filme sem muita vontade mas com o desenrolar da história, fiquei realmente interessada. Filme excelente.

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    1. Sim, há esse efeito! Na medida em que a trama se desenrola, os personagens e seus valores vão se impondo.

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