Calígula: O Corte Final

Calígula: O Corte Final: direção de Tinto Brass
UM FILME REVISIONISTA, SEM A MESMA VOCAÇÃO PARA O ESPETÁCULO
Nos anos 1970, Bob Guccione era um pornógrafo de sucesso. Dono da revista Penthouse, investiu algum dinheiro em produções de cinema e gostou da experiência; desenvolveu uma ambição peculiar: criar seu próprio gênero cinematográfico. Imaginou um drama épico de relevância histórica e sólidos valores artísticos, misturado com cenas de sexo explícito. Concluiu que Calígula – o tirânico imperador romano que os livros de história registraram como um louco com delírios de grandeza –, seria o protagonista ideal para transmitir e credibilidade com um bom tanto de lascívia. Pronto! Deu início ao mais caro filme independente até então já produzido.Guccione contratou o consagrado escritor Gore Vidal para escrever o roteiro e o diretor italiano Tinto Brass para garantir uma abordagem erótica com estética caprichada. Para obter o necessário verniz dramático, recrutou atores com reconhecido talento, como Malcolm McDowell, Peter O'Toole O'Toole, Helen Mirren e John Gielgud. E decidido a não economizar, contratou o premiado design de produção Danilo Donati, que trazia vários filmes de Fellini e Zeffirelli no currículo, para erguer os mais luxuosos e imponentes cenários. O que poderia dar errado? Muita coisa!
Antes de falar dos erros, porém, vamos aos acertos. O faro comercial de Bob Guccione estava bem calibrado: Calígula, lançado em 1979, teve um ótimo desempenho nas bilheterias de todo o mundo; as polêmicas cenas de sexo explícito atraíram a curiosidade do público e os embates jurídicos entre Guccione e todos os seus contratados, que renegaram o filme por considerá-lo um verdadeiro lixo cinematográfico, retroalimentaram um debate acalorado.
Mais tarde, com o advento do videocassete, o filme não encontrou lugar nas prateleiras das locadoras; não era propriamente um filme pornô, já que as produções do gênero enveredaram por caminhos menos... dramatúrgicos; também não era um drama com credibilidade, já que suas qualidades estéticas acabaram diluídas em idiossincrasias eróticas. Calígula caiu na irrelevância, etiquetado como a mais cara produção de mau gosto já realizada. Virou um fóssil, lembrança de uma época de licenciosidades exageradas. Até que o produtor Thomas Negovan, fazendo-se de arqueólogo cinematográfico, desenterrou o emaranhado de polêmicas e descobriu que havia, afinal, um filme embrulhado lá dentro.
Contratado pelos herdeiros da Penthouse para fazer a curadoria do legado de Bob Guccione, Thomas Negovan dispendeu três anos em um minucioso trabalho de restauração. Estudou quase 100 horas de material bruto filmado por Tinto Brass em 1976 e reeditou o filme com a ajuda do editor Aaron Shaps. Em 2023, lançou Calígula: O Corte Final, um filme com três horas de duração, totalmente remasterizando em 4k de alta definição.
Negovan não usou um único fotograma do corte original. Escolheu cenas alternativas, onde os atores entregaram seu melhor desempenho; priorizou os planos abertos, para ressaltar os belos cenários; reordenou as cenas para contornar os defeitos narrativos e usou uma nova trilha sonora, sintonizada com a atmosfera épica da obra. E o mais significativo: eliminou todas as cenas de sexo explícito filmadas à revelia de Tinto Brass e salpicadas ao longo do filme original.
É claro que os diálogos permanecem os mesmos. Thomas Negovan afirma que seguiu o roteiro original escrito por Gore Vidal, embora não tenha obtido o aval do autor. Ainda que tenha ganho uma hora a mais de duração, Calígula: O Corte Final, conta rigorosamente a mesma história: o jovem Calígula (Malcolm McDowell) assume o lugar do tio-avô, Tibério (Peter O'Toole O'Toole), depois que o general Macro (Guido Mannari) o mata sem piedade. Exercendo o poder com gosto, dedica-se a gastar os recursos do império e levar uma vida de luxúria ao lado da irmã, Drusila (Teresa Ann Savoy). Casa-se com Cesônia (Helen Mirren), na esperança de que ela lhe dê um filho para continuar sua dinastia, mas é consumido pela insanidade, que o leva a atos cada vez mais contrários aos interesses do senado. Quem decido pôr fim nessa loucura são seus próprios conselheiros, Longino (John Steiner) e Quereia (Paolo Bonacelli).
Por mais que seja vendido como resultado de um trabalho de restauração, não se pode negar: Calígula: O Corte Final é, sim, uma obra revisionista, já que a visão original de Bob Guccione foi descartada. Era de mau gosto? Sim! Mas agregou um sentido de depravação e decadência que impregnou de significados o mundo da política; desenhou um retrato perfeito da combinação de sexo e poder que ainda hoje parece embriagar nossos governantes – veja os recentes casos do magnata Jeffrey Epstein e das festas sigilosas dos corruptos ligados às falcatruas do Banco Master!
Sem as polêmicas cenas de sexo explícito – filmadas nos mesmos cenários pelo diretor Giancarlo Lui depois que Tinto Brass foi demitido –, Calígula: O Corte Final parece se esforçar para parecer um filme... certinho. Thomas Negovan aparou muitas arestas narrativas e impôs um ritmo mais apropriado ao fluxo dramático. Também trapaceou, aplicando efeitos de computação gráfica em alguns cenários ainda inacabados durante as filmagens, mas é do jogo! E reservou a principal alteração para a sequência de abertura, animada pelo quadrinista e ilustrador britânico Dave McKean, que recriou o pesadelo de Calígula, para dar sentido à narrativa.
Quem mais saiu ganhando com a nova versão foram os atores Malcolm McDowell e Helen Mirren, que já se manifestaram favoráveis aos resultados alcançados por Thomas Negovan; entregaram interpretações competentes, à altura do que se espera de astros consagrados. Aliás, é na densidade dramática que os cinéfilos encontrarão uma boa justificativa para assistir a Calígula: O Corte Final; no mais, a obra se configura longa e arrastada, enquanto retrata à exaustão um personagem odiável, cercado de bajuladores desprezíveis.
A versão original tinha uma clara vocação para o espetáculo e trazia elementos de sobra para arrebatar a plateia. O novo corte se concentra num conteúdo esquecível que, se tivesse sido lançado em 1979, jamais alcançaria o mesmo sucesso nas bilheterias. Não estaríamos aqui, falando sobre esse filme que todos adoram detestar, mas que ninguém deixou dar uma espiadinha... só para conferir!
Resenha crítica do filme Calígula: O Corte Final
Título original: Caligula: The Ultimate CutAno de produção: 2023
Direção: Tinto Brass
Roteiro: Gore Vidal
Elenco: Malcolm McDowell, Helen Mirren, Teresa Ann Savoy. Peter O'Toole, John Gielgud, Guido Mannari, Giancarlo Badessi, Bruno Brive, Adriana Asti, Leopoldo Trieste, Paolo Bonacelli, John Steiner, Mirella D'Angelo, Donato Placido, Osiride Pevarello, John Francis Lane, Eduardo Bergara Leumann e Andrew Lord Miller
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