Efeito Dominó: baseado em um assalto real

Efeito Dominó: direção de Roger Donaldson
UMA REUNIÃO DE TODOS OS TIPOS DE MELIANTES
Sim, Efeito Dominó, filme de 2008 dirigido por Roger Donaldson, é um ótimo thriller policial, capaz de nos prender na poltrona do começo ao fim. Porém, é preciso que se diga: é mais um daqueles filmes que enaltecem os criminosos e celebram suas ousadias. Aliás, o espectro de meliantes coberto pela trama é dos mais amplos; tropeçamos em ladrões ordinários, traficantes de drogas, exploradores da pornografia, gângsteres, ativistas, falsários, agiotas, políticos, agentes do estado... E o pior de tudo: eles protagonizam uma história real, passada na Inglaterra 1971. Para complicar, as implicâncias e desdobramentos dos crimes por eles cometidos ainda não são totalmente conhecidos, pois o caso está sob sigilo até 2054 – sim, lá na Inglaterra, como no Brasil, o sistema também se autoprotege sem qualquer constrangimento.O filme foi construído sobre o terreno arenoso das conjecturas, embora tenha se baseado nas reportagens publicadas na época, que ofereceram uma certa estrutura de credibilidade. O elemento central da trama é a vida desregrada da Princesa Margaret, dedicada em tempo integral a constranger a realiza britânica; flagrada em fotos comprometedoras, tiradas pelo ativista do movimento Black Power, Michael X, ela virou objeto de chantagem. A inteligência do governo, contudo, descobriu que as tais fotos estavam guardadas em um cofre, numa agência do Lloyds Bank na famosa Baker Street. O que fizeram os agentes estatais? Ora, usaram a máquina do governo para contratar uma gangue de assaltantes e os encarregam de pôr as mãos nas fotos – de quebra, poderiam se apoderar do dinheiro que encontrassem no local.
A história do assalto veio a público enquanto os meliantes ainda escavavam o túnel que os colocaria dentro do cofre; durante a noite, um rádio amador captou as conversas por walkie-talkies entre os criminosos e avisou a polícia. Para descobrir qual banco estava sendo assaltado – e eventualmente identificar os assaltantes por meio de delações anônimas – abriram as gravações para a imprensa. Londres entrou em polvorosa! Apesar do esforço, os ladrões foram bem-sucedidos e levaram uma quantidade não especificada de dinheiro e joias – a maioria dos clientes do banco preferiu não revelar quais valores mantinham no cofre. A polícia correu atrás e prendeu vários assaltantes, porém, na medida em que os detalhes sórdidos vieram à tona, o governo iniciou uma operação abafa, que colocou todo o caso em uma névoa densa de desinformação e sigilo. O caso se arrasta na justiça desde então.
A ideia de contar em filme essa história complicada vem de longa data e passou pelas mãos de vários produtores; até que o projeto caiu nas mãos do diretor Roger Donaldson – ele tem vários longas e documentários no currículo, entre eles o thriller Sem Saída, de 1987. Donaldson herdou um roteiro escrito por um roteirista não identificado, que aparentemente teve acesso a inúmeras informações privilegiadas – talvez porque tenha participado dos eventos! A partir desse misterioso script, o diretor costurou uma narrativa complexa, estruturando um mosaico ágil e inteligente; foram os roteiristas Dick Clement e Ian La Frenais quem assinaram o roteiro final.
É claro que, para garantir veracidade, os realizadores usaram as transcrições reais das conversas por rádio entre os assaltantes, obtidas junto aos jornais. É claro, também, que fizeram inúmeras especulações, quando precisaram lidar com o mar de informações desconexas sobre o caso. Nomes foram alterados, para evitar que inocentes saíssem prejudicados ou que vilões posassem de heróis. Ainda assim, conseguiram deixar a história bastante convincente. Misturaram três linhas narrativas: a primeira narra o imbróglio entre Michael X e os agentes do governo; a segunda conta as tramoias de um famoso rei do pornô com os policiais corruptos; a terceira acompanha as armações dos ladrões que fizeram o trabalho braçal.
Para garantir a coerência da história, os realizadores criaram uma personagem fictícia, inspirada em uma misteriosa mulher cuja voz aparece nas gravações originais do assalto; ela virou a bela Martine Love (Saffron Burrows), uma modelo flagrada transportando drogas. Chantageada pelas autoridades, ela faz um acordo para não ser presa: fica encarregada de recrutar os assaltantes e começa por Terry Leather (Jason Statham), o dono de uma oficina com antecedentes na ladroagem.
Apesar do todo o charme, pitadas de humor e carisma de vários personagens, Efeito Dominó não nos poupa do desconforto de ter que torcer pelos bandidos. Ainda que alguns pareçam mais bonzinhos do que outros, nenhum deles é santo – nem mesmo o personagem interpretado por Jason Statham, que se eleva à condição de protagonista e pretende alcançar a redenção apenas por que é um pai de família, com duas lindas filhas e uma esposa dedicada. No final das contas, o tal assalto da Rua Baker, como ficou conhecido, é retratado como uma façanha, onde os protagonistas se moviam por motivações legítimas, a despeito da ganância e da vilania de alguns antagonistas malvados. Bobagem! Todos só pensaram em seus interesses pessoais.
O diretor Roger Donaldson alega ter conhecido e entrevistado um dos assaltantes, que inclusive visitou os sets de filmagem e passou dicas para o ator Jason Statham sobre as estratégias que utilizaram para planejar e executar o assalto. Ao menos o filme não glamorizou o ativista Michael X, um criminoso de alta periculosidade, que apesar de ser aclamado por celebridades como John Lennon, era vigiado de perto pelo serviço secreto britânico; terminou sentenciado à morte e enforcado em Trinidade e Tobago por assassinato.
Efeito Dominó é um filme divertido, que recria com precisão a atmosfera da Londres dos anos 1970, numa produção caprichada. O espectador segue atento até o final, curioso para descobrir quais personagens sairão por cima e quais amargarão os merecidos castigos por suas maldades. Pena que alguns deles siam impunes, apenas por que são... charmosos.
Resenha crítica do filme Efeito Dominó
Título original: The Bank JobTítulo em Portugal: O Golpe de Baker Street
Ano de produção: 2008
Direção: Roger Donaldson
Roteiro: Dick Clement e Ian La Frenais
Elenco: Jason Statham, Saffron Burrows, Richard Lintern, as Tim Everett, Stephen Campbell, Daniel Mays, Peter Bowles, Keeley Hawes, Colin Salmon, Peter de Jersey, James Faulkner, Sharon Maughan, Don Gallagher, Gerard Horan, Craig Fairbrass, Alistair Petrie, David Suchet, Michael Jibson, Georgia Taylor, Alki David, Hattie Morahan, Julian Lewis Jones, Andrew Brooke, Rupert Frazer, Christopher Owen, Taelor Samways, Kasey Baterip, Robert Whitelock, Jamie Kenna, Angus Wright, Mark Phoenix, Julian Firth, Rupert Vansittart, Bronson Webb, Ursula Mohan, Alan Swofford, Louise Chambers, Trevor Coppola e Mick Jagger (Não creditado)
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