Pecadores: um filme sobre música

Pecadores: direção de Ryan Coogler
BLUES, GÂNGSTERES E VAMPIROS. FAZEM TODO O SENTIDO!
Aos 17 anos, cursava eletrônica na Escola Técnica, mas ardia em arrependimento; descobri que me faltava talento para as ciências exatas e pus na cabeça que abraçaria outra profissão: me tornaria um publicitário. Havia, porém, um último semestre a ser vencido antes de tentar o vestibular. O problema é que não podia reprovar em português. Para ser aprovado, todo aluno era obrigado a apresentar uma palestra de no mínimo vinte minutos sobre um tema de sua livre escolha. Adivinhe sobre o que resolvi palestrar? Blues! Meu professor marcou a data e lá fui eu, ler e pesquisar – na época, fazíamos isso na biblioteca. Emprestei LPs dos parentes e amigos e fucei as lojas de discos... andava por toda parte com meu gravador, tentando montar a trilha sonora da minha palestra. Gostei tanto do assunto que virei um amante da música – com o tempo, tornei-me um músico diletante.Li muito sobre como os escravos africanos, os imigrantes chineses e os latinos se misturaram com os europeus musicalmente letrados, lá no tal Delta do Mississipi do início do século XX. Deram à luz uma música vibrante e mágica: o blues e suas variações, que puxaram o jazz, o rock e tudo o mais o que acabou incluído no cardápio da cultura pop. O cinema já explorou o tema com ótimas produções: lembro de ter me deliciado com A Encruzilhada, Os Irmãos Cara-de-pau, Mais e Melhores Blues e, especialmente, The Blues, a série de documentários dirigidos por Martin Scorsese. Ouvi muito blues ao longo da minha vida, mas nunca me iludi: este cronista branco, descendente de polacos, nascido e criado em Curitiba, uma cidade sem qualquer conexão com a black music brasileira (quem dirá americana?), jamais seria totalmente íntimo de um gênero tão... étnico.
Posso não ter me tornado íntimo, mas até hoje me relaciono socialmente com o blues; tanto é que, de todos os filmes ventilados nessa última temporada do Óscar, o primeiro ao qual assisti foi Pecadores, escrito e dirigido em 2025 por Ryan Coogler. Ah, caro cinéfilo, pode ter certeza de que esse é um filme sobre o blues e suas raízes culturais, mas também é sobre... vampiros! Mas espere! Antes de rotulá-lo como cinema trash, lembre-se de que há pertinência na mistura dos dois temas; há incontáveis lendas e histórias sobre músicos vendendo a alma ao diabo em troca de talento, sobre as pregações religiosas que tentavam manter os homens afastados dos redutos pecaminosos, sobre os racistas encapuzados impondo injustiças a granel, sobre a cultura do mais forte vampirizando a dos mais fracos, até tudo entornar em um espesso caldo cultural fervente de ressentimentos e... tristeza.
Pecadores faz todo o sentido. Basta examinar a sinopse: o filme conta a história dos irmãos gêmeos idênticos, Smoke e Stack (interpretados por Michael B. Jordan), que se cansaram de trabalhar para os gângsteres de Chicago; em plena lei seca, na década de 1930, eles decidem retornar ao Delta do Mississipi e abrir o seu próprio juke point – um dos tantos “redutos pecaminosos” onde os negros que colhiam algodão iam em busca de bebida e diversão. Logo na noite de inauguração, porém, algo de sobrenatural acontece: atraídos pela música envolvente do talentoso Sammie (Miles Caton), o sinistro irlandês Remmick (Jack O'Connell), decide se apoderar do local e de todas as almas atormentadas que estão lá apenas para se divertir. Será uma longa noite de terror e de escolhas decisivas para todos.
O diretor Ryan Coogler alcançou uma posição privilegiada em Hollywood; depois do sucesso de seu filme de estreia em 2013, Fruitvale Station, ele foi escalado para assumir a franquia Rocky e veio com o aclamado Creed. Seus filmes para a Marvel, Pantera Negra e a sequência, engordaram tanto as bilheterias que lhe permitiram escolher seu próximo projeto a partir de critérios puramente pessoais; e ele escolheu manter o foco na trilha sonora, nos personagens complexos, nas referências culturais e na abordagem social da trama. Escreveu Pecadores como um filme sobre música e, para tanto, fez questão de continuar com sua parceria com o experiente compositor sueco Ludwig Göransson.
Coogler e Göransson percorreram o circuito do blues no Mississipi e se aprofundaram nas várias lendas que já se cristalizaram no imaginário do público – como a que diz que Robert Johnson, um guitarrista comum, despontou como o maior de todos depois de ter feito um pacto com o próprio capiroto! O diretor criou seus personagens a partir de clichês consagradas: o gângster, o pastor, a cantora, o trabalhador rural, o pianista, o comerciante chinês, o membro da Ku Klux Klan... Depois, colocou todos diante de dilemas morais e deixou que fizessem suas escolhas. Terminou um filme de terror sobrenatural sobre gângsteres.
Não darei spoilers, caro cinéfilos, mas gostaria de ressaltar uma das cenas mais envolventes do filme; é quando o juke point dos irmãos Moore está em pleno funcionamento e a música preenche todo o ambiente. O diretor constrói um momento mágico, onde evoca “os espíritos do passado, do presente e do futuro” e os reúne numa deliciosa performance musical, que combina sonoridades de várias épocas. Tudo é realizado num belo plano-sequência, executado com tanta maestria que consegue trazer para o espectador a sensação de estar diante de uma apresentação ao vivo. Coogler conseguiu retratar aquele tipo de interação que se estabelece entre o artista no palco e o espectador na plateia, durante o momento único de um show.
Pecadores é uma produção competente, que merece todos os prêmios que conquistou. Há muito charme, talento e virtuosismo em cena, pelo menos na primeira metade do filme, quando vemos os preparativos para os vampirismos que virão; depois, há uma boa dose de bizarrices e situações grotescas, suficientes para irritar os mais sensíveis – e para divertir os apreciadores do gênero. Como fã do blues, considerei o filme bastante proveitoso, tanto que me animei a evocar os meus próprios espíritos do passado; lembrei-me dos detalhes da minha palestra do primeiro parágrafo e de como despertei a curiosidade dos meus colegas pragmáticos – no começo, mais preocupados com a exatidão das ciências, no final, tamborilavam nas carteiras, no ritmo cadenciado do blues. Fui aprovado em português e pude seguir em frente. Virei publicitário!
Resenha crítica do filme Pecadores
Título original: SinnersAno de produção: 2025
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
Elenco: Michael B. Jordan, Hailee Steinfeld, Miles Caton, Buddy Guy, Jack O'Connell, Wunmi Mosaku, Jayme Lawson, Omar Miller, Delroy Lindo, Li Jun Li, Yao, Lola Kirke, Peter Dreimanis, David Maldonado, Saul Williams, Helena Hu, Andrene Ward-Hammond, Nathaniel Arcand, Tenaj L. Jackson e Nicole Banks
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