Rocky: Um Lutador: golpes mais do que certeiros

Cena do filme Rocky: Um Lutador
Rocky: Um Lutador: direção de John G. Avildsen

STALLONE ESCREVEU O ROTEIRO E VIVEU A MESMA TRAJETÓRIA DO SEU PERSONAGEM

Ludy estava descansando no sofá, enquanto conversava com Julia numa chamada de vídeo. Para matar as saudades uma da outra, minha mulher e minha filha volta e meia precisam vencer a distância física que separa Curitiba de São Paulo. Quanto a mim, fico só ouvindo, fazendo as poucas interferências que julgo necessárias. Uma delas aconteceu quando Julia disse ter acabado de assistir ao filme Rocky: Um Lutador:
        – Como assim? Você está falando daquele filme de 1976 estrelado pelo Sylvester Stallone?
        – Esse mesmo! É ótimo! – garantiu Julia, sem esconder a empolgação.
        – Mas é um filminho comercial e bobinho, cheio de patuscadas americanizadas!
        – Nada disso! Você já viu esse filme recentemente?
        De repente, me dei conta de que só havia assistido a Rocky: Um Lutador uma única vez, quando tinha dezesseis anos. Lembro que precisei enfrentar longas filas para garantir um lugar na sala de exibição e conferir aquele que foi o maior sucesso de bilheteria do ano. Era um drama de esporte, que trazia uma história de superação e uma trilha sonora magnética. O roteiro havia sido escrito pelo próprio ator novato que interpretava o papel principal e o filme catapultou sua carreira a ponto de colocá-lo imediatamente entre os maiores astros de Hollywood. E Stallone se esbaldou com o sucesso, a ponto de estrelar nada menos do que oito sequência nas décadas seguintes.
        Isso era tudo o que recordava sobre o filme – além do fato de que ele foi o vencedor do Óscar em 1977, quando desbancou Taxi Driver, esse sim, meu filme favorito. Animado, vasculhei o serviço de streaming e encontrei não só Rocky: Um Lutador como todas as demais sequências. Preparei o balde de pipoca e fui conferir. Com 62 anos nas costas, talvez tivesse uma percepção diferente. E devo dizer: Julia tem razão! Depois de tantas sequências e tanta badalação em torno do truculento Stallone, havia me esquecido de como o filme é bom!
        Para minha surpresa, o primeiro mito que vi cair por terra foi o de que se trata de um filme sobre boxe. Nada disso, o esporte é apenas um pano de fundo e o enredo é centrado em um personagem com certa complexidade psicológica. Há uma luta na cena de abertura e outra na cena sequência de encerramento. Todo o restante é recheado por um drama envolvente, que acompanha bons personagens coadjuvantes, vivendo em uma cidade gigante e opressora, de tanta sujeira e perigos. O segundo mito foi em relação à patuscada americanizada. Ela está lá, sim, mas por um motivo justificável e pertinente: 1976 foi o ano do bicentenário da independência dos Estados Unidos e a data foi comemorada com orgulho, especialmente na Filadélfia, sede da Pensilvânia, onde a história toda aconteceu.
        Por falar em história, vamos lembrar da sinopse de Rocky: Um Lutador: Rocky Balboa é um jovem e obscuro boxeador, que mora sozinho e trabalha para um agiota, valendo-se de sua truculência para tocar o... departamento de cobranças. Está interessado na tímida e reservada Adrian (Talia Shire), que trabalha em uma loja de animais e vem a ser irmã do seu melhor amigo, o problemático Paulie (Burt Young), que trabalha num frigorífico. Rocky está agarrado ao seu sonho de se tornar um boxeador famoso, embora nada lhe seja favorável. Até o dono da academia onde treina, o velho e decadente Mickey (Burgess Meredith), já não o quer por perto e o tem como um derrotado. Mas eis que Apollo Creed (Carl Weathers), o campeão mundial dos pesos pesados, precisa rever a grande luta que estava agendada para aquele ano festivo, porque seu adversário se machucou. Numa jogada de marketing, Apollo decide colocar seu título em disputa contra algum boxeador desconhecido, para mostrar que o sonho americano ainda é a tônica naquele bicentenário da independência. Quem ele escolhe a dedo? Aquele que se apresenta como “O Garanhão Italiano” e servirá perfeitamente aos seus propósitos promocionais. Rocky vê sua vida mudar de um instante para outro e precisará embarcar numa jornada de treinamento e esforço para não perder a oportunidade, afinal, tamanha sorte só dá as caras uma única vez na vida!
        Sylvester Stallone criou essa história enquanto estava com dificuldades para tocar a vida e construir sua carreira de ator. Escreveu seu roteiro em três dias e meio, criando o papel principal para si mesmo. Ele já havia vendido alguns roteiros para a televisão, mas quando apareceu com a ideia de Rocky: Um Lutador, atraiu a atenção dos estúdios, que o viram como um veículo perfeito para vários atores já consagrados na época, como Robert Redford e Burt Reynolds. Mas o novato bateu o pé e soube negociar. Ainda por cima, colocou na mesa dois outros rascunhos, já prevendo as futuras sequências para seu personagem.
        O diretor contratado para o projeto foi John G. Avildsen, que anos depois emplacaria outros sucessos, como Karatê Kid. Ele não estava interessado em filmes de boxe, mas mudou de ideia quando leu o roteiro de Stallone. O esporte estava em segundo plano e quem ocuparia as telas seriam ótimos personagens, com algumas tiradas de humor e muitas deixas dramáticas. Avildsen não sabia nada sobre boxe e jamais havia acompanhado uma luta. Depois de pesquisar, percebeu que as sequências no ringue precisariam ser coreografadas em detalhes. O próprio Stallone voltou à máquina de escrever e roteirizou golpe por golpe da luta final, que depois foi ensaiada com cuidado, enquanto o diretor registrava tudo com sua câmera super-8, para que os atores pudessem avaliar o resultado. Certamente foi o trabalho mais elaborado desse gênero já apresentado no cinema até então.
        Rocky: Um Lutador foi rodado em apenas 28 dias, com um orçamento apertado de pouco mais de um milhão de dólares. Na bilheteria, as cifras bateram os 250 milhões! Stallone virou... Stallone, uma máquina de ganhar dinheiro com personagens truculentos e rasos. Rocky continuou exibindo sua garra de lutador por tantas sequências que o público já perdeu as contas. Todo esse folclore acabou ofuscando a qualidade do filme, que são fartas e justificam as estatuetas que faturou no Óscar: melhor filme, melhor edição e melhor diretor – John G. Avildsen, aliás, desbancou concorrentes de peso, como Alan J. Pakula, com seu Todos os Homens do Presidente, Ingmar Bergman, com Face a Face, Sidney Lumet com Rede de Intrigas e Lina Wertmüller, com Pasqualino Sete Belezas. Até hoje vejo muito cinéfilos inconformados com isso.
        Devo dizer que, assistindo ao filme com olhos maduros, enxerguei cinema do bom em Rocky: Um Lutador. Inclusive, consegui entender a motivação dos turistas que, em visita à Filadélfia, até hoje fazem questão de subir as escadarias da prefeitura e encarar a cidade com atitude de campeão. Farei isso no dia em que estiver passeando por lá!

Resenha crítica do filme Rocky: Um Lutador

Ano de produção: 1976
Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David George, Joe Spinell, Jimmy Gambina, Bill Baldwin, Tony Burton, Jodi Letizia e Joe Frazier

Comentários

  1. Vc é de Curitiba? Assistiu no cine Astor ? Lembra do público inteiro na sala lutando junto com ele ? Mais do torcer , provocava catarse .

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    Respostas
    1. Ah, sim, assisti ao filme no Cine Astor! Mas não guardei essas memórias catárticas! Acho que as deletei!

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