Crítica | Nuremberg: Russel Crowe carrega esse filme nas costas
AULA EXPLICATIVA EM RITMO DE THRILLER
Escolher uma única palavra como título para um filme é uma tacada assertiva; ainda mais quando essa palavra evoca tantos significados e faz rodar um filme inteiro na mente dos cinéfilos. Christopher Nolan fez isso com Dunkirk (2017); antes de apertar o play você já sabe que acompanhará o drama dos britânicos encurralados no norte da França, desesperados para voltar para casa. James Vanderbilt fez o mesmo no seu filme Nuremberg (2025): você já sabe que acompanhará os desdobramentos do maior julgamento de crimes de guerra de todos os tempos e já imagina um filme denso de tanta relevância histórica. O diretor, porém, não destacou a grandiosidade dos eventos; resolveu rodar um thriller recheado de suspense psicológico.
Em vez de vingança, justiça
O principal acerto do filme é dar destaque, logo no começo, para o fato de que os julgamentos de Nuremberg não foram uma consequência natural do fim da Segunda Guerra Mundial. Nada disso! Não havia arcabouço jurídico nem instituições internacionais com legitimidade para julgar as atrocidades que os nazistas perpetraram em seu próprio país. O espetáculo teve que ser montado do zero e exigiu um considerável esforço, tanto político como midiático. Nos bancos escolares – brasileiros, ressalte-se – a matéria é ensinada en passant, como se os nazistas hediondos apenas tiveram o que mereceram, e pronto! Prestando mais atenção, percebemos que teria sido muito mais prático, lógico e prudente meter logo uma bala na testa dos criminosos de guerra capturados vivos. Porém, o risco de transformá-los em mártires e assim permitir que o fascismo ressuscitasse nas décadas seguintes, acendeu o alerta entre os aliados vitoriosos: melhor seria criar um ar de legalidade para condenar não só os criminosos, mas também as ideologias nefastas. Ah, caro leitor, você já percebeu que não comecei a crônica com explicações sobre o que foram os julgamentos de Nuremberg, nem me preocupei em contextualizar; fui direto ao assunto, partindo do princípio que você já sabe do que se trata. Não foi o que fez o diretor James Vanderbilt. Seu filme é voltado para as novas gerações, que desconhecem os fatos e precisam ser guiadas didaticamente; por isso, está repleto de cenas expositivas e diálogos explicativos. Nuremberg é uma produção esmerada, com uma reconstituição de época elegante e detalhada; traz personagens relevantes e revira questões éticas e morais delicadas, mas é emocionalmente precário. Não é aquele filme que você imaginou assim que ouviu seu título. Antes de apresentar meus pontos, vamos à sinopse:
O nazista, o psiquiatra e o jurista
Depois que o segundo no comando dos nazistas, Hermann Göring (Russel Crowe), é preso enquanto tentava escapar da Europa, o juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, Robert H. Jackson (Michael Shannon), lidera um esforço conjunto com a França, Reino Unido e União Soviética para constituir o tribunal internacional que o condenará por crimes contra a humanidade. Além dele, outros 21 réus são trancafiados; todos passiveis de cometer suicídio. Para evitar isso, entra em cena o tenente-coronel Douglas Kelley (Rami Malek), um psiquiatra do exército americano.

Nuremberg: personagens estereotipados, sem profundidade emocional
Com a ajuda de um intérprete, o sargento Howard Triest (Leo Woodall), Douglas faz o acompanhamento dos prisioneiros e dá atenção especial a Hermann Göring. O problema é que o psiquiatra percebeu a oportunidade de escrever um livro e alçar-se para a fama; enquanto isso, o líder nazista, astuto e manipulador, fará de tudo para negociar informações que o beneficiem durante o julgamento. O jogo que se estabelece é disputado com dissimulações e o uso oportunista da verdade.
Um romance expandido
Nuremberg se mostrou um projeto ambicioso demais para o diretor James Vanderbilt. Mais conhecido por seus filmes de ação, como O Ataque (2013) e Independence Day: O Ressurgimento (2016), dessa vez ele se empenhou em entregar um filme relevante, com o peso de um autêntico drama histórico. Escreveu o roteiro a partir de uma adaptação do romance The Nazi and the Psychiatrist, publicado em 2013 pelo jornalista e escritor americano Jack El-Hai, mas decidiu expandir a narrativa: adicionou a trama paralela do juiz da Suprema Corte Americana interessado em fazer justiça para além da mera vingança. Também adicionou a história do intérprete judeu que ficou cara-a-cara com os hediondos nazistas, enquanto acompanha o esforço para enforcar todos.

Nuremberg: o diretor preferiu a linguagem documental
Um vilão de arrepiar
O grande nome do filme é Russell Crowe! Sua atuação é magnética, retratando um Hermann Göring quase... humano. Quando ele está em cena, o filme se acende e ficamos apavorados com as capacidades manipuladoras de um personagem tão multifacetado. Já Rami Malek não encontrou um texto à altura dos seus recursos dramáticos. Seu Douglas Kelley é um psiquiatra estereotipado, sem profundidade para além das caras e bocas. Os demais atores seguem um texto demasiado expositivo, repleto de chavões e frases feitas, sem ganchos dramáticos dignos de nota. É uma pena.
O filme não faz jus ao título
James Vanderbilt fez um filme para os jovens, mas infelizmente os subestimou. Exagerou na exposição, incluiu personagens desnecessários, evitou as dramatizações e preferiu assumir uma linguagem documental – as cenas reais que mostram o extermínio dos judeus, exibidas ao longo do julgamento, são de uma tristeza horripilante! Seu filme se estende por duas horas e meia, mas só se sustenta enquanto Russel Crowe está em cena. O diretor, ainda por cima, incluiu desnecessárias – e inoportunas – passagens de humor. Talvez desejasse insinuar uma leve atmosfera de leveza, para ressaltar a tensão e o horror que viriam em seguida, quando fosse o momento de escancarar as atrocidades nazistas. Não funcionou. Nuremberg está longe de ser aquele filme que passou na minha mente de cinéfilo quando ouvi o seu título composto por uma única palavra.
Veredito da crônica de cinema
★★★☆☆(3 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção objetiva de James Vanderbilt, a atuação magnética de Russel Crowe e a recriação de época.
O que decepciona: o roteiro carregado de diálogos expositivos, a linguagem documental e a falta de profundidade dos personagens.
Vale a pena. Traz um conteúdo histórico relevante.
Ficha técnica do filme Nuremberg
Ano de produção: 2025Direção: James Vanderbilt
Roteiro: James Vanderbilt
Elenco:
- Rami Malek
- Russell Crowe
- Leo Woodall
- John Slattery
- Mark O'Brien
- Colin Hanks
- Wrenn Schmidt
- Lydia Peckham
- Michael Shannon
- Richard E. Grant
- Lotte Verbeek
- Andreas Pietschmann
- Steven Pacey
- Paul Antony-Barber
- Jeremy Wheeler
- Wolfgang Cerny
- Giuseppe Cederna
- Dan Cade
- Donald Sage Mackay
- Dieter Riesle
- Wayne Brett
- Gyula Mesterházy
- Sam Newman
- Philippe Jacq
- Peter Jordan
- Tom Keune
- Blake Kubena
- Michael Sheldon
- Fleur Bremmer



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