Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer

COMO FUI CAPTURADO POR UM FILME QUE NÃO FOI FEITO PARA O PERFIL DE PÚBLICO NO QUAL ME ENCAIXO


Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer: uma história bem contada

         – Já passou da hora de cancelar a TV por assinatura – sentenciou Ludy, esbanjando convicção.
        – Vamos dar mais um mês, pelo menos – retruquei, sem a mesma confiança, ainda tentando formar uma opinião sensata. Mas minha mulher insistiu:
        – Hoje em dia tá tudo no streaming! Quem é que ainda vê TV?
        – Eu, ora!
        A minha geração tem um caso sério com a televisão. Fomos criados na frente dela. Por meio dela fomos alfabetizados na linguagem do cinema. Há uma ligação afetiva... uma espécie de cordão umbilical, ligando nossa poltrona ao aparelho de
TV. Romper com ele significa nascer para uma outra forma de consumir entretenimento.
        – Pra que tanta celeuma? É só a mídia que está se transformando, o conceito de TV continua o mesmo – diriam os desapegados. Mas não vejo assim! Quando deixamos de ser expectadores passivos e nos tornamos interativos, eliminamos o aborrecimento de assistir aos programas indesejáveis. Agora, só vemos o que nos interessa. Assistimos apenas aos filmes “bons”, dos diretores e atores pelos quais temos afinidades e preferências. E nos damos por satisfeitos!
        Há uma década estávamos todos na mesma sala, obrigados a assistir a certos filmes fracos e desinteressantes – porque não havia nada melhor passando na TV ou porque o único aparelho disponível precisava ser compartilhado com o irmão mais novo e com a avó quase pegando no sono. Resultado: desenvolvíamos o espírito crítico! Por comparação, aprendíamos a distinguir os bons filmes dos intragáveis, formando repertório para sustentar opinião e balizar nossas escolhas. Éramos expostos a todo tipo de cinema, de todos os gêneros, de todas as qualidades.
        Não estou dizendo que todos têm obrigação de assistir a tudo. Nada disso. Lembro apenas que há o risco de sucumbir à ditadura do nosso gosto pessoal e fechar os olhos para o diferente. Podemos perder as ótimas oportunidades que surgem por obra do acaso, como acontece diante da televisão. Largados no sofá, sem perspectiva de assistir algo que preste, do nada começa a ser exibido um filme que captura nossa atenção e nos faz perguntar: – Por que ainda não tinha assistido a esse filme?
        Foi o que aconteceu outro dia quando Ludy e eu assistimos ao filme Eu, Você e a Garota que vai Morrer. Uma obra de 2015 da qual nada ouvira falar. Se tivesse lido a sinopse, mudaria de canal. – Outro drama adolescente, com pitadas de humor imaturo, explorando a fauna que habita as high schools americanas – pensei. Mas, para minha sorte, nem encostei no controle remoto. Em poucos minutos, Ludy e eu estávamos fisgados.
        O filme, soube depois, é baseado no romance com o mesmo título, escrito por Jesse Andrews, que também assina o roteiro dessa adaptação para o cinema. Conta a história de um garoto criativo que, por pressão dos pais, é obrigado a se relacionar com uma garota com leucemia e se deixa envolver emocionalmente, mesmo sabendo que ela corre o risco de morrer.
        Com tal enredo, o filme poderia escorregar com facilidade para o melodrama, ou ficar boiando na superfície. Mas o diretor Alfonso Gomez-Rejon fez um ótimo trabalho, certamente em parceria com o roteirista e “dono” da história. Construíram as cenas com simplicidade e honestidade, ressaltando a criatividade, a sensibilidade e o carisma dos personagens. Impuseram ao filme um ritmo leve, agradável e otimista, sem jamais deixar que o espectador se esqueça da possibilidade de tristeza no final. Também souberam usar com critério a alusão ao cinema – o protagonista e seu melhor amigo vivem inventando as próprias versões de filmes famosos.
        Os realizadores exploram com sucesso um amplo leque de emoções. Há oportunidades para rir, há momentos para segurar as lágrimas – ou deixá-las rolar! Há momentos para refletir sobre a vida e a morte. Acompanhamos a trajetória de amadurecimento dos personagens e, no final, não saímos incólumes. Aprendemos algo sobre as diferentes formas de encarar a vida – ainda que partindo da perspectiva de gente endinheirada, vivendo confortavelmente numa sociedade estruturada, que protege e valoriza as liberdades individuais e usufrui uma qualidade de vida que, aqui no Brasil, só podemos imaginar.
        Pela forma que chegou até mim, enquanto zapeava pela programação regular da TV por Assinatura, Eu, Você e a Garota que vai Morrer foi uma grata surpresa. É provável que acabasse topando com o filme em outras circunstâncias, xeretando nas resenhas e sinopses da internet ou nas listas dos serviços de streaming, mas talvez a experiência fosse diferente. Talvez não estivesse largado no sofá, tão disposto a enxergar o novo e o diferente.
        São experiências assim que me fazem adiar o cancelamento da TV por assinatura. Mas sei que isso será inevitável. Terei que encontrar outros modos de acessar o acaso. Precisarei de mais iniciativa e menos passividade na hora de buscar por entretenimento. Isso porque, na ponta do consumo, o cinema chegou na mesma categoria da literatura. Como numa livraria, as obras estão todas lá, na estante, prontas para serem examinadas. Basta uma boa resenha para ajudar no momento da decisão de compra.

Dicas e Sugestões

Comentários

  1. Pois é meu caro. Confesso que sou meio complicado pra ser capturado assim. Se visse a sinopse não entrava nessa. Vou tentar rever isso e dar mais oportunidades às surpresas. Excelente reflexão. Abçs

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  2. Cinema não precisa ser essa coisa intelectualizada... É só relaxar. Se o filme não surpreender, sempre tem o controle remoto pra resolver!

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