Simonal

AO INVÉS DA CINEBIOGRAFIA DO CANTOR ALEGRE E CARISMÁTICO, PREFERIRAM MOSTRAR A DO PILANTRA EXECRADO


Simonal: filme dirigido por Leonardo Domingues

        Lembro bem do astro Wilson Simonal. Sua música era contagiante, com letras fáceis e um balanço que se espalhava em pura brasilidade. Ouvi-lo no rádio ou dar de cara com ele na TV era sempre uma festa. Ao pronunciar seu nome, a palavra que me vêm à mente é uma só: alegria.
        – Mas foi justamente essa palavra que ficou faltando no filme – exclamou Ludy com certa indignação, enquanto ajeitava a máscara no rosto.
        – É... Mostrar suas músicas não foi suficiente – concordei de pronto.
        Minha mulher continuou a caminhada lembrando dos tempos de criança, quando ouvia “Sá Marina” no rádio, debruçada na janela do apartamento da sua tia no Flamengo. Como curitibano, passei a infância longe de carioquices, mas também fui alvejado por essa primorosa canção assinada por Antônio Adolfo e Tibério Gaspar – que por sinal aparece em destaque no filme Simonal, dirigido pelo estreante Leonardo Domingues.
        Para nós, que testemunhamos o sucesso de Wilson Simonal, assistir a esse filme é uma experiência frustrante. Bem realizado, contou com uma produção criteriosa e esmerada. Os figurinos são ótimos, os atores se saem bem, a trilha sonora é empolgante, a fotografia é bela, a direção de arte resgata com sucesso a estética tropicalista da época... Mas faltou a alegria.
        O roteiro, elaborado por Leonardo Domingues em parceria com Victor Atherino, faz a opção de manter o ponto focal do filme no episódio que provocou a derrocada do astro e o levou ao total ostracismo. É claro que esse é o ponto de maior interesse para o espectador, afinal, o tombo de Wilson Simonal foi gigantesco. De um momento para outro deixou de ser o mega pop star da época para se tornar um ninguém, sem futuro e sem legado.
        Acusado pela patrulha ideológica da época de colaborar com a ditadura militar e dedurar outros artistas, o cantor sofreu o maior boicote da história do nosso showbiz. Suas relações com gente do DOPS, num episódio obscuro que envolveu até tortura, não deixou margem para dúvidas. O verbete Wilson Simonal foi deletado!
        Esse episódio é crucial em qualquer cinebiografia do cantor e jamais poderia ser omitido. Mas antes de mostrá-lo despencando, seria preciso deixar claro para o público de hoje a que altura ele chegou, para revelar o quão espetaculosa foi sua queda. O problema é que os realizadores decidiram abrir o filme mostrando um Wilson Simonal derrotado e humilhado, para só então retomar a narrativa para o início da sua carreira. Foi essa decisão que esvaziou toda a alegria do filme. Olha que o ator Fabrício Boliveira se esforçou. Max de Castro e Simoninha, filhos do cantor e autores da trilha sonora, também capricharam na escolha das músicas. Mas não adiantou.
        O desejo de Leonardo Domingues de realizar uma grande façanha logo no seu primeiro longa custou caro. Ele articulou um elaborado plano-sequência na abertura do filme, que exigiu planejamento detalhado. O espectador fica com a proeza técnica de uma cena bem executada, mas sem conteúdo dramático. Descobre apenas que Wilson Simonal virou um cantor proscrito. Não sabe se ele é digno de perdão ou se merece ser apedrejado. Se o admira ou se deve desprezá-lo. Só percebe tristeza.
        Se tivesse optado por mostrar a trajetória de ascensão do cantor, conquistando a empatia do público, alcançaria muito mais força dramática na cena final. Teria a cumplicidade do público na hora de investigar os episódios obscuros e apresentaria um retrato mais fiel da imensa alegria que sempre esteve associada ao nome Wilson Simonal. Teríamos um filme muito mais empolgante, com final contundente.
        O diretor cometeu outro erro digno de nota: misturou cenas reais com as dramatizadas. Pôs por terra o imenso esforço da direção de arte, que tanto se empenhou em impor um padrão estético para o filme. Criou um enorme hiato entre a interpretação de Fabrício Boliveira – que precisou dublar todas as cenas musicais – e o imenso carisma do personagem. Trouxe um triste clima de documentário num momento em que o espectador esperava dramatização e desempenho artístico.
        Mas as músicas do filme... Ah, são ótimas! Em certos momentos, Ludy e eu chegamos a pensar que a voz era do Simoninha. Tive que pesquisar na internet para descobrir que ele e o irmão assinaram apenas a trilha sonora incidental. As gravações usadas nas dublagens foram todas originais.





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Comentários

  1. Concordo Fábio. As músicas, sensacionais. Terminou o filme e fui buscá-las no Youtube. Quanto ao filme poderia, sim, focar mais no talento. Já assisti a exemplos similares, também mal sucedidos, como "Garrincha, a Estrela Solitária"; e "Chatô". Finalmente, quanto à crônica, perfeita.

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  2. Valeu, Jorge! Para quem gosta de música, o filme é imperdível. Poderia ser muito melhor se tivessem investido num roteiro mais caprichado. Essa é a minha opinião!

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