Crítica | Jadotville: Richie Smyth dirige um filme de guerra empolgante, sobre a história real de um ataque à tropa de paz da ONU

Cena do filme Jadotville
Jadotville: filme com roteiro de Kevin Brodbin

MUNIDOS DE CORAGEM

O filme Jadotville, dirigido em 2016 pelo irlandês Richie Smyth, não é daquelas produções endinheiradas, mas surpreende. Foge ao padrão de Hollywood e está longe de ser um filme B. Há muitos tiros, explosões e correrias por todo o campo de batalha, mas o ótimo roteiro assinado por Kevin Brodbin e o ponto de vista aguçado imposto pelo diretor, transformam esse filme de guerra em um drama de sobrevivência. E o melhor de tudo, aqui a batalha também é travada no campo dos valores!

Cena do filme Jadotville
Jadotville: Richie Smyth conta a história real dos soldados irlandeses encurralados

Baseado numa história real

        Jadotville conta a história real de uma unidade do exército irlandês, com 150 soldados liderados pelo comandante Patrick Quinlan (Jamie Dornan). Sem qualquer experiência em batalhas, eles foram enviados em 1961 para o Congo, como parte da força de paz da ONU. A missão era defender a cidade de Jadotville. Mas o improvável acontece: os irlandeses são atacados por militares rebeldes em superioridade numérica, que recebem o reforço de mercenários a soldo de interesses escusos. As ondas de ataques se sucedem ao logo de cinco dias e os irlandeses resistem incrivelmente, contra todas as probabilidades. Ao final, para ocultar seus próprios erros e culpas, a ONU omitiu o feito heroico dos irlandeses. Os soldados voltaram para casa e foram recebidos como covardes. O episódio caiu no esquecimento.

Um diretor oriundo da publicidade

        O filme é baseado no livro de Declan Power, The Siege at Jadotville: The Irish Army's Forgotten Battle. Agora, na sua adaptação para as telas, podemos ter um vislumbre mais realista do que aconteceu no Congo, para além da abordagem documental. O projeto foi abraçado com empolgação pelo diretor Richie Smyth, que fez de Jadotville seu filme de estreia. Ocorre que Smyth vem de uma longa carreira na publicidade. Já realizou comerciais para grandes marcas, como Nike, Macy's, Pepsi e Guinness. Também assinou videoclipes de sucesso para a banda U2 e outras estrelas da música pop. Essa bagagem trouxe um tempero especial a esse filme de guerra!

Cena do filme Jadotville
Jadotville: mapeamento realista do campo de batalha real

Dramatização apegada à precisão dos fatos  

        As cenas de ação apresentadas no filme foram coreografadas com base nos depoimentos e informações fornecidos por Leo Quinlan, que vem a ser filho do comandante Patrick Quinlan. Isso trouxe uma visão clara de todo o teatro de operações. A preocupação dos realizadores, porém, não foi a de alcançar a precisão factual. Estavam mais interessados na dramatização. Preferiram explorar o embate dos personagens enquanto estavam munidos com seus valores e princípios.

Preparados para a guerra... mentalmente!

        Jadotville me fez refletir sobre a guerra e seus efeitos trágicos. É possível evitá-la? Talvez, mas isso não acontece por meio do desarmamento. Ao contrário, é resultado do equilíbrio de forças militares e diplomáticas. Como diz o velho provérbio romano, atribuído ao escritor do quinto século, Flávio Vegécio: si vis pacem, para bellum (se quer paz, prepare-se para a guerra). Ele nos lembra que até mesmo a tropa de paz da ONU precisa estar militarmente preparada, para se pôr menos vulnerável a ataques e pronta para desestimular os inimigos da paz.

Cena do filme Jadotville
Jadotville: atos heroicos ocultados por interesses políticos

Um filme de guerra envolvente

        O gênero se desdobrou em vários subgêneros e abre espaço tanto as produções grandiosas como aquelas que costumados classificar como filmes B, onde o que manda é a ação, pura e simples. Para nossa sorte, Jadotville é um filme de guerra acima da média; intenso e comovente, oferece intrigas internacionais, dramas pessoais, tensão política e ótimas cenas de ação. Já me decepcionei com muitos filmes de guerra, pois aqueles que exageram nas cenas de ação e tratam seus “heróis” com tosca superficialidade vivem explodindo nas plataformas de streaming. Mas fiquei feliz com essa produção irlandesa. Vale a pena conferir!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção competente de Richie Smyth, o roteiro bem costurado, a abordagem realista e a narrativa ágil e empolgante.

O que surpreende: os realizadores conseguem manter o foco nos personagens e seus valores, enquanto encenam as batalhas com fúria e verossimilhança.

Acima da média. É um filme de guerra empolgante.

Ficha técnica do filme Jadotville

Ano de produção: 2016
Direção: Richie Smyth
Roteiro: Kevin Brodbin

Elenco:
Jamie Dornan
Mark Strong
Mikael Persbrandt
Jason O'Mara
Danny Sapani
Michael McElhatton
Guillaume Canet


Assista ao vídeo no YouTube

Comentários

Confira também:

Crítica | Crash: No Limite: Paul Haggis cruzou histórias, tocou em temas espinhosos e fez um filme emocionante.

Crítica | Faces da Verdade: Rod Lurie entrega um thriller político ágil e envolvente, onde a verdade tem valor absoluto

Siga a Crônica de Cinema