O Ovo da Serpente: é preciso matar o monstro ainda dentro da casca

Cena do filme O Ovo da Serpente
O Ovo da Serpente: filme dirigido por Ingmar Bergman

ALERTA: É PRECISO MATAR O FASCISMO AINDA NA CASCA!

O Sétimo Selo, Gritos e Sussurros, A Flauta Mágica, Fanny e Alexander, Sonata de Outono... Na extensa filmografia de Ingmar Bergman, figuram algumas das mais importantes produções da história do cinema. O cineasta é reverenciado como um dos principais nomes da sétima arte, por lidar com uma estética apurada, por ampliar o alcance da linguagem cinematográfica e por tratar seus personagens com inigualável profundidade psicológica. Por isso, é curioso perceber que o título O Ovo da Serpente, que ele dirigiu em 1977, é citado sempre lá no final dessa lista, classificado como uma realização menor – juntamente com A Hora do Amor, forma a dupla de filmes falados em inglês que o cineasta rodou.
        Investigando a crítica especializada, é fácil encontrar narizes torcidos para O Ovo da Serpente. Dizem que é seu filme mais... hollywoodiano. Lembram que o diretor focalizou apenas as camadas mais superficiais dos seus personagens, numa tentativa de ampliar seu espectro de público. Assumiu um tom mais didático e acessível às massas. É claro que isso não é propriamente um pecado. Bergman conquistou respeito e admiração, tanto do público como da indústria, fazendo cinema autoral da mais alta qualidade. Estava, portanto, na posição de realizar o que bem entendesse! Mas estava também passando por uma fase difícil.
        Acusado de evasão fiscal na Suécia, Bergman se viu no centro de um escândalo que ganhou proporções internacionais. Partiu para um autoexílio na Alemanha, mais precisamente em Munique, onde acabou fazendo um acordo com o produtor Dino de Laurentiis para rodar um filme em inglês. Financeiramente, saiu-se bem: o acordo resultou no maior orçamento de que já dispusera até então. Escreveu o roteiro de O Ovo da Serpente ao mesmo tempo em que lidava com advogados e autoridades fiscais. Achou que criatividade e dinheiro resolveriam todos os problemas que pudessem aparecer. E eles apareceram!
        Ao lidar com uma equipe enorme, composta por profissionais de diversos países, Bergman se sentiu sobrecarregado. Encantou-se com a possibilidade de fazer um cinema mais endinheirado e dedicou grande parte do seu esforço na construção de uma rua cenográfica inteira, onde recriou a Berlin dos anos 1920 – batizada de Bergmannstrasse! Mais preocupado em filmar edifícios, deixou um pouco de lado os rostos, que sempre estiveram no ponto focal das suas lentes. Além disso, O Ovo da Serpente veio com um enredo complicado, que demandou mais cenas expositivas. Vamos examinar a sinopse antes de prosseguir:
        Ambientado nos anos 20, o filme oferece uma atmosfera sombria e bons motivos para reflexão. Narra a história de Abel Rosenberg (David Carradine), um trapezista judeu que retorna a Berlin e descobre que seu irmão, Max, cometeu suicídio. Embriagado de álcool e aflição, vaga por uma Berlin melancólica, habitada por uma gente derrotada, deprimida e sem perspectivas. Junta-se a Manuela (Liv Ullmann), a viúva de seu irmão, que agora se apresenta em um bordel. Abel é interrogado pelo inspetor Bauer (Gert Fröbe), um policial anti-semita que investiga o suicídio de Max e liga o caso a outros supostos assassinatos, relacionados ao trabalho de um tal de Dr. Vergerus (Heinz Bennent), um cientista assustador que conduz experimentos desumanos com pessoas desnorteadas com a realidade social que se impôs no pós-guerra. Abel e Manuela, atraídos para esse experimento social e comportamental, correm risco de vida – assim como a própria Alemanha, que está bêbada de ideias e noções fascistas!
        O Ovo da Serpente é um drama histórico assustador, envolto numa atmosfera de horror e medo. As pessoas estão afogadas num mar de bilhões e bilhões de marcos desvalorizados pela hiperinflação, o esporte das gangues de rua é praticar violência contra os judeus, o comportamento sexual errante pauta a vida noturna e as ideias torpes de Hitler começam a reverberar na opinião pública. Em 1977, quando Bergman realizou seu filme, as cores tenebrosas desse quadro bizarro já estavam desbotando. Lá se iam mais de 30 anos desde o final da Segunda Guerra Mundial e talvez por isso o diretor estivesse tão interessado em cutucar as massas e fazer um importante alerta para o perigo de flertar com a insanidade.
        Infelizmente, seu filme resultou num fracasso de crítica e de bilheteria. Ainda assim, O Ovo da Serpente guarda relevância. Nos mostra que, apesar de conhecermos muito bem o que é o nazismo e todas as nefastas ideologias fascistas que pregam a supremacia esmagadora do estado sobre as liberdades individuais, não nos damos conta dos métodos sutis que o monstro emprega para se imiscuir na sociedade, controlando a informação, cultivando o medo, impondo uma visão única de mundo e atropelando as iniciativas individuais.
        Já no título Bergman nos lembra de que que é preciso matar esse monstro ainda na casca.

Resenha crítica do filme O Ovo As Serpente

Ano de produção: 1977
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Liv Ullmann, David Carradine, Gert Fröbe e Heinz Bennent

Comentários

  1. Análise sucinta é perfeita. Um tiro nos que temam ressuscitar o nazifascismo no Brasil de hoje.

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    1. Obrigado. O filme faz alerta que precisa ser soado de tempos em tempos.

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  2. Assisti sem me encostar na cadeira.

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