O Farol

É teatral, é cinematográfico, é gráfico. Um filme com ótimos atributos artísticos, como há muito não se via


O Farol: filme estrelado por Willen Dafoe e Robert Pattinson 
 
        – É um filme de suspense. Acho até que é de terror, porque o diretor fez sucesso com seu primeiro filme, chamado A Bruxa.
        – Ah, filme de terror? Sei não...
        – É com aquele ator que fez o vampiro da saga Crepúsculo. E tem o Willen Dafoe. Acho que vale a pena arriscar!
        Ludy concordou, desde que me dispusesse a preparar um balde de pipoca. Em pouco tempo estávamos acomodados diante da TV, enrolados num cobertor – em Curitiba fazia frio naquela noite. Apertei o play e senti o primeiro impacto: O Farol é todo realizado em branco e preto, com a tela num formato quadrado. Logo nas primeiras cenas o diretor deixa clara sua intenção de emular as produções que marcaram o expressionismo alemão. E conseguiu!
        A história que Robert Eggers nos conta é sobre dois homens isolados em uma ilha remota, trabalhando na operação de um farol. Thomas Wake (Willem Dafoe) é o velho insuportável e Ephraim Winslow (Robert Pattinson), o jovem encarregado do trabalho pesado e extenuante. As diferenças e os segredos vão se impondo, gerando conflitos que se agravam na medida em que o isolamento e a confusão mental os impendem de distinguir entre realidade e pesadelo.
        A fotografia de Jarin Blaschke é impecável. Há muito o que falar a respeito dela. Percebe-se que não foi planejada apenas para ser diferente, ou para impor um estilo. Tornou-se ela própria um elemento narrativo, que o diretor Robert Eggers usa com critério e habilidade. Os planos estáticos, as lentas panorâmicas, o alto contrate entre luzes e sombras... A linguagem cinematográfica dos filmes realizados nas primeiras décadas do século XX teve o efeito inicial de situar no tempo tanto a trama como os seus dois personagens.
        O segundo efeito da fotografia foi o de criar um sentido de confinamento. Há um aperto sufocante do qual não conseguimos nos desvencilhar em nenhum momento. Na medida em que o conflito entre os dois faroleiros vai se desenhando, vem a certeza de que não haverá escape para nenhum deles.
        O terceiro efeito da fotografia, na minha opinião, é o mais brilhante. Eggers usa a simetria como regra de enquadramento, o que além de conferir beleza aos planos captados, impõe uma noção de racionalidade e equilíbrio ao discurso narrativo. Na medida em que o delírio e as tempestades emocionais tomam conta da trama, essa simetria desaparece. Sempre que há, por parte dos personagens, uma tentativa de se agarrar à razão, ela volta a dominar os enquadramentos.
        O que vemos em O Farol é um excelente exercício cinematográfico – e quero ressaltar aqui o termo gráfico, na acepção empregada pelos designers. Cada plano foi cuidadosamente desenhado, com grande sensibilidade artística, ao longo do planejamento de produção, execução dos cenários e captação. Aqui, direção de arte e fotografia parecem ter sido regidas ao mesmo tempo, pelo mesmo maestro!
        Mas ressaltar apenas o campo visual desse filme é ser injusto com o brilhante roteiro escrito pelo irmão de Robert, Max Eggers – em parceira com o próprio diretor. O texto é excelente, intercalando falas e silêncios com muita habilidade para caracterizar os personagens e dar profundidade à história.
        As atuações viscerais de Willen Dafoe e Robert Pattinson também são decisivas. Os personagens que encarnam não surgem apenas como resultado de suas falas e de suas aparências. O que vemos são dois homens postos integralmente: suas motivações, suas loucuras, seus valores, seus medos e ambições. A credibilidade que os atores transmitem é magnética e nos prende até os créditos finais.
        Há muito não assistia a um filme realizado com tamanho apuro técnico e artístico. Para alguns, O Farol parecerá arrastado e lento demais. Outros ficarão desconfortáveis com o estranhamento de algumas cenas mais identificadas aos gêneros de suspense e terror.
        Para mim, foi uma agradável surpresa. Para Ludy, um filme que valeu a pena, mas ao qual ela não tem a menor intenção de rever.



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Comentários

  1. Não vi ainda, mas estou já com uma vontade imensa de assistir a este filme!!

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    1. Legal, Jane C.Z. Espero que goste. Estou curioso para saber se as suas opiniões vão bater com as minhas.

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  2. Eu gostei desse filme, mas assim como a Ludy, acho que não assistiria novamente.

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  3. Esse filme me impressionou tanto que não consegui esquecê-lo por vários dias.

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    1. É um filme denso e repleto de informações, que leva tempo para ser processado.

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