Crítica | Fragmentado: está entre os grandes thrillers psicológicos

Cena do filme Fragmentado
Fragmentado: filme dirigido por M. Night Shyamalan

UM ATOR QUE VALE POR UMA MULTIDÃO

Os filmes de M. Night Shyamalan funcionam bem comercialmente. Muitos espectadores não se importam de ser ludibriados com distrações, apenas para que no final levem um susto ou sejam surpreendidos por reviravoltas inusitadas. Mas Fragmentado, seu filme de 2016, não segue essa fórmula; o diretor não se vale de truques baratos para alimentar o suspense. Ainda assim, consegue um resultado intenso e perturbador. Seu trunfo é James McAvoy, um ator talentoso, que sabe conversar com a câmera e se fazer convincente. Esse thriller psicológico é, portanto, um impressionante trabalho de ator!

Jogo mental de gato e rato

        Fragmentado conta a história de Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), um sujeito habitado por 23 personalidades. É tratado pela Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley) como um curioso caso clínico. Ocorre que uma dessas personalidades descamba para o lado do mal: sequestra três garotas adolescentes e as coloca em um impenetrável cativeiro subterrâneo. As lutam para escapar, mas jamais sabem com qual das personalidades estão lidando de fato. A narrativa ganha contornos de mistério quando explora a força dramática de Casey (Anya Taylor-Joy), uma das garotas sequestradas que decide jogar o jogo mental de Crumb. É quando o filme cresce em suspense e tensão.

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Cena do filme Fragmentado
Fragmentado: James McAvoy em uma interpretação magnética

Suspense com doses nervosas de humor

        Ao longo da carreira, M. Night Shyamalan realizou filmes marcados por reviravoltas na trama, mas em Fragmentado ele encontrou maneiras novas e empolgantes de surpreender seu público. O diretor conta que a ideia para o filme nasceu quando ele escreveu o personagem. Concebeu algumas cenas e chegou até a definir algumas linhas de diálogos, mas deixou tudo adormecido por alguns anos. Então, quando chegou o momento certo para realizar o filme, decidiu criar uma mistura sutil de humor e suspense. Escreveu sete tratamentos até alcançar o ritmo e a sensação geral que pretendia passar ao público. No meio do caminho, fez algumas pesquisas

Pesquisa detalhada

        O diretor leu os clássicos sobre o tema: o livro Sybil, escrito por Flora Rheta Schreiber – que virou telefilme em 1976 – e o romance de não-ficção The Minds of Billy Milligan, escrito por Daniel Keyes. Ambas as obras retratam casos reais de protagonistas que sofriam de transtorno de múltiplas personalidades e detalham os tratamentos aos quais foram submetidos. Obviamente, para escrever o roteiro de Fragmentado, Shyamalan precisou ir além da linguagem documental. Conversou com vários terapeutas, que o ajudaram a desenhar os contornos precisos da relação entre médico e paciente com a necessária verossimilhança. Finalmente, desenvolveu os demais personagens e aperfeiçoou seu protagonista multifacetado.

Cena do filme Fragmentado
Fragmentado: Anya Taylor-Joy em ótima atuação

Essencialmente, um trabalho de ator 

        Fragmentado exibe uma mistura de gêneros. Há elementos de suspense e tensão extraídos dos tradicionais filmes de terror; há uma atmosfera perturbadora que respiramos nos grandes thrillers psicológicos – Shyamalan cita O Silêncio dos Inocentes como seu favorito; e há um clima de ação como nos filmes que exploram os limites da mente e do corpo dos seres humanos. O ponto focal, entretanto, é mesmo James McAvoy; com poucas expressões ele traz à vida algumas das 23 personalidades que habitam o corpo do vilão, num dos mais brilhantes exercícios de interpretação que vimos nos últimos anos.

Um diretor mais maduro

        Desde seu primeiro sucesso, O Sexto Sentido, M. Night Shyamalan gosta de confundir o espectador; ora sonega informações, ora cria falsas expectativas, só para surpreender no final. Em trabalhos anteriores, a receita beirou o mau gosto, mas nesse filme ele acerta. Em Fragmentado, podemos ver como o diretor amadureceu; ele mostra seu pleno domínio da linguagem cinematográfica, mas ainda acrescenta pitadas inesperadas de algo sobrenatural. Nos minutos final, feitos para os iniciados no universo do diretor, ele revela que este seu filme tem conexões com Corpo Fechado e insinua que a trama terá continuidade em Vidro. Mas isso nem precisa ser levado em consideração pelo cinéfilo interessado apenas em assistir a um bom thriller de suspense. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de M. Night  Shyamalan, o roteiro bem construído, a atuação magnética de James McAvoy, a fotografia impecável e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: o diretor resistiu à tentação de forçar um ponto de virada e realizou um suspense clássico, com sólidos elementos dramáticos. No final, sucumbiu aos seus interesses comerciais, mas é do jogo!

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Fragmentado

Título original: Split
Ano de produção: 2016
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan 

Elenco:
  • James McAvoy
  • Anya Taylor-Joy
  • Betty Buckley
  • Haley Lu Richardson
  • Jessica Sula
  • Brad William Henke
  • Sebastian Arcelus
  • Neal Huff
  • Kim Director
  • Lyne Renée
  • M. Night Shyamalan
  • Bruce Willis

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