Crítica | Amadeus: Milos Forman reapresentou Mozart para o grande público, num filme irretocável
Amadeus: filme dirigido por Milos Forman

Amadeus: Milos Forman reapresentou o genial Mozart para o grande público

Amadeus: Tom Hulce em ótima atuação como Mozart

Amadeus: F. Murray Abraham vive o invejoso Salieri
Roteiro: Peter Shaffer
APRENDEMOS A AMAR MOZART E REPUDIAR SALIERI
A primeira vez em que assisti a Amadeus, dirigido em 1984 por Miloš Formam, foi na época do seu lançamento. Nem vi o tempo passar! Apesar de ter quase três horas de duração, o filme conta uma história simples, fácil de acompanhar. Entrei na sala de cinema sabendo muito pouco sobre Mozart e sua música – apenas o que se aprende nos bancos
escolares –, mas saí enfurecido com o tal Salieri. Que vilão asqueroso
e repugnante! Torci para que ele, no final, pagasse caro por tanta inveja e
arrogância. Fiquei tão envolvido com a história contada que esqueci de examinar
os aspectos cinematográficos.
Excelência cinematográfica
Esse era o
talento do Miloš Forman! Nas suas mãos, o cinema ficava
transparente, como se não fôssemos espectadores, mas mosquinhas, capazes de compartilhar o mesmo ambiente dos personagens, sem ser notados. O
diretor sabia como contar uma história! E que história! Se cometi o sacrilégio de carimbá-la como simples, agora mordo a língua. Apesar de não exigir idas e vindas no tempo e não precisar de pontos de virada arrebatadores, ela possui todos os ingredientes para prender a atenção. Em Amadeus, os personagens que entram e saem cumprem funções dramáticas bem definidas; há momentos para rir, para se emocionar, para ser tomado pela apreensão e para se entregar ao puro deleite estético, musical e plástico.

Amadeus: Milos Forman reapresentou o genial Mozart para o grande público
Partindo de um ótimo roteiro
Miloš Forman está entre os grandes diretores de Hollywood. Tem no currículo filmes como Um Estranho no Ninho , Hair e O Povo Contra Larry Flint. Entretanto, não podemos tirar os méritos do roteirista Peter Shaffer, que inclusive ganhou o Óscar de
melhor roteiro adaptado por seu trabalho em Amadeus. Mas é preciso lembrar que ele se baseou na peça com o
mesmo título que escreveu em 1979, inspirada por sua vez na peça Mozart &
Salieri, do russo Alexander Pushkin. Ou seja, essa história já tem muita
história!
Um truque narrativo
Para contá-la,
o recurso utilizado é brilhante: o protagonista não é o imortal Mozart, ainda
idolatrado depois de duzentos e trinta anos da sua morte, por sua genialidade musical; quem está à frente da trama é um
invejoso Salieri, sem antecedentes dignos de nota para o grande público; é a ele que somos apresentados, enquanto faz
confissão ao padre que veio lhe conceder a extrema unção. Conhecemos seu caráter, seus pecados e a culpa que lhe corrói as entranhas. A narrativa segue
linear, mas volta à confissão de Salieri sempre que há necessidade de retomar
o fôlego narrativo.

Amadeus: Tom Hulce em ótima atuação como Mozart
Um protagonista genial
A inveja,
esse sentimento perturbador e abominável, mas facilmente compreendido
de tão universal, é o fio condutor de todo o filme. Somos levados da infância prodigiosa de
Mozart até sua morte em circunstâncias lamentáveis; nesse meio tempo, é a inveja que Miloš Forman
ressalta o tempo todo, assim como os motivos de sobra que o genial compositor dá
àqueles que se deixam contaminar por ela: talento inigualável, carisma, capacidade criativa e um completo domínio do universo musical. Somos envolvidos pelo ardil de Antonio Salieri, que se torna cada vez mais perigoso e
derradeiro; quando percebemos, já se passam quase três horas de filme!
Produção impecável
Sim, em Amadeus os momentos musicais são primorosos – as gravações
foram executadas especialmente para o filme, em total fidelidade às
partituras originais do compositor. As locações e objetos de cena são
deslumbrantes, os figurinos impecáveis, a fotografia esmerada e a direção de
arte não poderia ser melhor. A lidar com tudo isso, temos um diretor
concentrado em contar sua história, sem se desviar por futilidades, preocupar-se em demonstrar virtuosismo ou assumir atitudes estilosas.

Amadeus: F. Murray Abraham vive o invejoso Salieri
E o público redescobriu Mozart
O impacto
que Amadeus causou na cultura
pop dos anos 80 foi imenso. Apesar de não ser uma cinebiografia, mas sim uma ficção com
elementos históricos dramatizados, o filme contribuiu para que a música do genial compositor voltasse a ser
cultuada no mundo inteiro. Seu legado artístico alcançou o grande público novamente! Quanto à Salieri, terminou injustiçado; virou a personificação da inveja, mas sua disputa com Mozart jamais existiu fora do mundo das lendas e das especulações. Tudo jamais passou de invencionice. Um truque narrativo, que funcionou à perfeição.
Um filme vencedor
Amadeus venceu o Óscar em oito
categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor direção de arte,
melhor figurino, melhor maquiagem, melhor som e melhor roteiro adaptado... Melhor reservar um tempinho na agenda para assistir novamente a esse filme, sempre que sentir vontade de fruir cinema de qualidade!
Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Milos Forman, o roteiro impecável de Peter Shaffer, a produção musical refinada, a direção de arte irretocável e o excelente trabalho dos atores .
O que surpreende: os realizadores conseguiram resgatar o valor artístico de Mozart para o grande público, por meio de dramatizações e elementos fictícios criativos.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme Amadeus
Data de produção: 1984
Direção: Miloš FormanRoteiro: Peter Shaffer
Elenco:
- F. Murray Abraham
- Tom Hulce
- Elizabeth Berridge
- Simon Callow
- Roy Dotrice
- Christine Ebersole
- Jeffrey Jones
- Charles Kay
- Vincent Schiavelli
- Barbara Bryne
- Martin Cavani
- Roderick Cook
- Milan Demjanenko
- Peter DiGesu


Excelente e emocionante texto. Uma crítica informativa, bem como uma crônica de impressões subjetivas muito bonita. Parabéns! Vou acompanhar.
ResponderExcluirOlá, Carlos Gabriel, muito obrigado pelo seu comentário. Tenho procurado escrever semanalmente um texto mais longo. enquanto faço posts diários no Facebook, sempre usando o cinema como pretexto. Minha intenção é expandir o conteúdo aos poucos, na medida em que receber o feedback dos leitores. Um grande abraço!
ExcluirAdorei
ResponderExcluirValeu! Muito obrigado!
ExcluirClaro que amei seu texto, descreveu plenamente meus sentimentos quando assisti. Não poderia fazer melhor e mais interessante. Poucas leituras me seguram como as suas. Parabéns.
ResponderExcluirPuxa! Muito obrigado! Fico feliz!
ExcluirParabéns e obrigado.
ResponderExcluirObrigado, Ruy Maclen! Mas sou eu quem agradece pelo seu comentário. Um abraço!
ExcluirOlha esse filme me deixou fora desse mundo. FOi o filme que mais me marcou.
ResponderExcluirEstava com 20 anos quando assisti e fiquei deslumbrado com ele. Nao so me remeteu a lugares
que nunca estive antes, mas a um tempo que nao era o meu. Me tornei mais admirador da
musica classica e me apaixonei pela obra e pelo compositor Mozart. Nao tenho certeza se foi
um dos influenciadores na minha carreira de professor de musica, mas foi com certeza um
dos influenciadores a ir ate Salzburg na Austria para visitar a cidade e casa de Mozart. Ja o que voce
descreve aqui deve ter sido com certeza o que eu senti e nunca pude colocar em palavras. Por isso o
que voce nos faz lembrar, entender, desvendar e recordar, eh exatamente o que voce nos conta a respeito do contador de historias. O seu modo que com palavras nos remete ao filme, ele o autor do filme nos remete em imagens. Parabens aos artistas das palavras, eles sao o alimento de nossas imaginacoes. Obrigado por me lembrar denovo desse grande filme.
Olá Joceli, sou muito grato por suas palavras. É muito bom poder interagir com aqueles que compartilham dos mesmos interesses, com sensibilidade e conhecimento. Gosto de escrever e quando recebo incentivos como esse, é realizador! Quanto ao filme Amadeus, percebo que ele o transportou para o mundo da música, enquanto o meu destino foi o mundo das histórias. Mas também adoro música e certamente você se interessa por boas histórias. Então, viva o cinema!!!!! Abração!
ResponderExcluirValeu, Fábio! Fiquei até inspirado para melhorar a minha escrita ficcional.
ResponderExcluirMuito obrigado pelo comentário, Abdul Karin Taha. Espero que possamos trocar mais ideias sobre escrita e sobre filmes. Um forte abraço!
ExcluirMuito bom o seu texto! Me deu vontade de rever o filme! Estou gostando muito das crônicas que publica aqui!
ResponderExcluirLegal, fico agradecido! É um grande incentivo para continuar publicando!
ExcluirExcelente ponto de vista sobre o filme, eu o achei excelente desde a 1a vez que assisti, tanto é que fiz questão de ter ele em minha pequena filmoteca. Mas Salieri não foi um compositor medíocre co.o as vezes o filme nos leva a crer, mas comparado a um gênio que foi Mozart fica difícil. E essa diferença foi bem explorada com o pecado da inveja.
ResponderExcluirObrigado, Fragoso. É mesmo um filme para se ter no acervo. Salieri foi usado aqui como um gancho narrativo. às vezes imagino que sua história também poderia dar um grande filme! Quem sabe algum cineasta abrace essa causa!!!
ExcluirAmei o texto. Vou rever o filme.
ResponderExcluirPARABENS!
Obrigado!!! É um filme que merece ser revisitado sempre!
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