Um Estranho no Ninho

REFÉNS DE MILOS FORMAN, NÃO CONSEGUIMOS ENXERGAR O CINEMA POR TRÁS DESSA HISTÓRIA


Um Estranho no Ninho: filme dirigido por Milos Forman

        Em certas caminhadas matinais, Ludy e eu demoramos para engatar a conversa. Estamos concentrados nos nossos próprios passos – divagando cada um no seu mundo interno – ou semiadormecidos, bocejando sem controle. Quando isso acontece, fica a expectativa: como estará o humor do outro? Para descobrir, alguém precisa fazer um teste, lançando uma provocação no ar. Naquela manhã a iniciativa foi minha:
        – Que baita filme ontem... hein?
        – Nem fale!
        Ludy encara o cinema diferente de mim. Ela é uma expectadora concentrada, que mergulha fundo na história, vivendo com intensidade tudo aquilo que lhe é dado para fruir. Também sou assim, só que não consigo deixar de enxergar o cinema na minha frente. O mecanismo utilizado para contar a história jamais fica transparente. Sempre deixo que as técnicas, as artimanhas narrativas e as manipulações do roteirista ofusquem parte do filme. Quando ele é ruim – ou desinteressante – Ludy se desliga, mas eu continuo. Fico esquadrinhando os defeitos e me divertindo, encontrando motivos para zoar mais tarde.
        Não foi o que aconteceu comigo ao rever Um Estranho no Ninho, do Milos Forman. O diretor morrera poucos dias antes e resolvi fazer uma busca no streaming para pescar os filmes de sua autoria que conseguisse. Que pesca maravilhosa! Como da primeira vez, mergulhei fundo na história e vivi com intensidade tudo aquilo que me foi dado para fruir! Quando me dei conta, estava capturado. Uma vez mais, virei refém do Milos Forman. Não enxerguei o cinema por trás do filme – para fazer isso, precisei assisti-lo outras tantas vezes.
        O que mais me impressionou foi perceber que o tempo não passou para Um Estranho no Ninho. Lançado em 1975 – há 48 anos, portanto – é um sucesso consagrado. Falar sobre ele é chover no molhado: venceu 5 óscares, foi filmado num hospital de verdade, tinha doentes mentais como figurantes... Você já assistiu a esta preciosidade recentemente? Recomendo que o faça!
        Hoje em dia, na frente desses televisores enormes com tecnologia de alta definição – e a luz da sala apagada – é possível se sentir no cinema. É aí que a mágica acontece. Um Estranho no Ninho parece que foi filmado ontem! Se um diretor esperto, com sensibilidade, competência e habilidades narrativas decidisse filmar hoje a história de um presidiário, que nos anos 70 se passa por doente mental para tentar se livrar da barra pesada no presídio, o resultado seria exatamente o mesmo. Cada plano, cada sequência, cada diálogo...
        Certo, você pode achar que estou exagerando: Jack Nicholson era jovem, as trilhas sonoras dos anos 70 eram datadas, a fotografia era antiquada... Só que, na minha opinião, nada disso afetou a obra. Há uma assombrosa atmosfera de contemporaneidade que você respira naturalmente, do começo ao fim. A luz captada pelas lentes dos realizadores parece ter a mesma temperatura da que nos chega pelas câmeras digitais de hoje em dia. Os roteiristas costuraram tão bem a narrativa que não nos deixa margem para pensar. Tudo o que nos resta é a rendição.
        Um Estranho no Ninho é um destes filmes ao qual você assiste e depois quer falar sobre ele, expressar o que sentiu e expor o quanto se emocionou. Quer relembrar as partes engraçadas, elaborar melhor as passagens tristes... A densidade dos personagens é respeitada e valorizada. Quando o filme termina, estamos tão próximos de cada um deles que lamentamos quando os créditos finais são exibidos.
        Este é um daqueles filmes que rendem assunto para qualquer caminhada e fazem com que o tempo passe depressa. Ludy e eu aproveitamos muito bem o momento. Cheguei a prometer que leria o romance One Flew Over the Cuckoo's Nest, escrito em 1962 por Ken Kesey, no qual o filme de Milos Forman foi baseado – uma ótima oportunidade para estudar como se dá a transposição de linguagem entre literatura cinema e aprender um pouco mais sobre a arte de contar histórias. Mas essa promessa ainda não arranjei tempo para cumprir. Talvez deva colocá-la na minha lista de resoluções para 2020!




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